quarta-feira, 25 de junho de 2025

O modelo Keynesiano-Clássico de curto e longo prazo de Duménil e Lévy (1999)

Desde a publicação da Teoria Geral de Keynes, em 1936, economistas têm buscado conciliar a novidade keynesiana, associada ao papel da demanda, com mecanismos tradicionais de equilíbrio geral neoclássicos (Walrasianos). Já em 1937, Hicks formulou o conhecido modelo IS-LM, cujo objetivo foi, justamente, realizar essa conciliação, a chamada Síntese Neoclássica. Nas décadas de 1980 e 1990, o ressurgimento do Keynesianismo com os modelos de rigidez de preços fez com que se instituísse uma nova síntese Neoclássica, segundo a qual, no curto prazo, a dinâmica econômica poderia sofrer com choques de demanda, mas, a longo prazo, prevaleceria mecanismos de equilíbrio geral, de modo que as restrições só poderiam advir das condições de oferta. 

No artigo "Being Keynesian in the short term and classical in the long run: Traverse to Classical Long Term Equilibrium", publicado na Manchester School, vol.67, No.6, de 1999, Gérald Duménil e Domenique Lévy buscam conciliar o equilíbrio keynesiano com o equilíbrio clássico (nesse caso, não associado à teoria neoclássica, mas a economistas clássicos). Segundo os autores, os keynesianos lidam com a problemática da demanda efetiva e equilíbrio para diversos níveis de utilização da capacidade produtiva. Por outro lado, os clássicos (e aqui eles consideram Marx) lidam com equilíbrio em taxas de lucro equalizadas, preços de produção, e plena utilização da capacidade (uso normal da capacidade produtiva). Nesse sentido, o objetivo do artigo é discutir a relação entre Keynesianos e clássicos, por meio de uma diferenciação temporal: curto (Keynesiano) e longo prazo (Clássico).  

Como os autores afirmam, já existem modelos que relacionam temporalmente curto e longo prazo, denominados de modelos de travessia (traverse model). Nesses modelos, a economia sofre um choque a curto prazo e retoma sua trajetória no longo prazo. Nos modelos keynesianos, o equilíbrio de curto prazo converge para o equilíbrio keynesiano de longo prazo, no qual os recursos são plenamente utilizados. Nos modelos walrasianos, equilíbrios de curto prazo, via “market clearing”, levam ao equilíbrio estático de longo prazo.  Assume-se, inicialmente, que a economia está em desequilíbrio, de modo que há algum choque de oferta ou demanda (preços, tecnologia, distribuição). No equilíbrio de longo prazo clássico, a taxa de lucro é uniforme, os preços são iguais aos preços de produção - não há lucro econômico -, e o nível de utilização da capacidade converge para seu valor normal. No equilíbrio keynesiano, o ajuste entre oferta e demanda se dá via grau de utilização da capacidade.

São considerados quatro mecanismos de ajuste. O primeiro está associado à oferta e demanda, ao grau de utilização da capacidade, e à dinâmica de preços: os preços são constantes no curto prazo e o ajuste entre oferta e demanda se dá via ajuste da utilização na capacidade. No longo prazo, as empresas, as quais são price-makers, alteram os preços de acordo com o valor do grau de utilização da capacidade, portanto, há um mecanismo de preços que corrige as distorções, e o grau de utilização retorna ao seu nível normal. 

No segundo, a curto prazo, o estoque de capital é dado e há diferencial de lucratividade entre as empresas. Dado o diferencial, os capitalistas irão investir em segmentos com maior lucratividade, reequilibrando os lucros - convergência das taxas de lucro. No terceiro, ainda a curto prazo, o investimento é parcialmente exógeno. Contudo, a longo prazo, o componente exógeno se torna endógeno no longo prazo. Segundo os autores, o principal componente da dinâmica a longo prazo é mecanismo financeiro/monetário, ou seja, é a restrição financeira. E por fim, o crédito permite expandir o investimento para além de suas capacidades normais. Porém, a capacidade de fornecimento de crédito é controlada pela reação das autoridades monetária e de crédito pela inflação. Nesse caso, as variações de preços moldam a oferta e o estoque de moeda, consequentemente, a capacidade de financiamento das empresas.  

Nos modelos de travessias, são formados equilíbrios temporários e consideram-se dois grupos de variáveis: as de longo prazo e as de curto prazo. As de longo prazo se ajustam lentamente, sendo elas estoque de capital, estoque de dinheiro e preços. Já variáveis de curto prazo são a demanda, produto, e estoques de bens. Para um dado valor das variáveis de longo prazo, há um equilíbrio para o grau de utilização da capacidade e outras variáveis de curto prazo.  

No arcabouço keynesiano, o investimento e o consumo são funções do produto corrente. Além disso, o consumo segue a lógica Kaleckiana em que os salários são inteiramente consumidos e os lucros são parcialmente consumidos. O equilíbrio ocorre no ponto em que se verifica igualdade entre oferta e demanda. Assume-se que os preços são dados no curto prazo (rigidez de preços e salários), portanto, o ajuste entre oferta e demanda se dá via uso da capacidade. Por exemplo, se a demanda aumenta, ao invés de os preços subirem, as empresas elevam a sua produção, utilizando sua capacidade ociosa. Com a realização do ajustamento, obtém-se nível de utilização de capacidade de equilíbrio, a qual pode divergir do grau normal de utilização da capacidade, definido como o nível desejado pelas empresas de grau de utilização. Do ponto de visto do equilíbrio de longo prazo, essa situação, em que se verificam diferenças entre os valores correntes e normais, representa desequilíbrio.  

Na perspectiva clássica, a diferença entre oferta e demanda representa mudanças nos preços. Desse modo, os preços que as firmas fixam depende do diferencial do valor corrente e normal do grau de utilização da capacidade, cujo ajuste pode ser expresso por um coeficiente de reação (δ). Assume-se que o salário real é constante, de modo que as variações nos salários reais acompanham mudanças nos preços. O salário nominal é ajustado de modo que o salário real corresponda aos novos preços. Esse ajuste de preços, diante de desequilíbrios, não indica o “market clearing”, pois os clássicos denominavam esse preço que ocorre no desequilíbrio de preço de mercado, o qual difere do preço de equilíbrio no longo prazo. A demora no ajustamento dos preços ajustar é central na perspectiva Novo-Keynesiana. O principal conceito de preço de equilíbrio, nos clássicos, é aquele referente ao preço vigente ao nível normal do grau de utilização. 

No que se refere ao investimento, os autores criticam a perspectiva Kaleckiana-Steindeliana de longo prazo. Isso porque, nessa abordagem o equilíbrio de longo prazo não é compatível com o grau de utilização normal. Isto é, nessa abordagem, pode-se verificar um equilíbrio macroeconômico, em que o grau de utilização corrente é diferente do grau de utilização normal. Uma função Kaleckiana-Steindeliana de investimento é dada por um componente exógeno e pelo diferencial no grau de utilização atual e normal (chamado efeito acelerador). Nesse caso, se o grau de utilização corrente supera o grau normal, isso é um indicativo de demanda aquecida, estimulando o investimento empresarial. Contudo, de um lado os autores apontam que essa função investimento é válida para o curto prazo, mas, de outro lado, discordam que ela valha para o longo prazo, pois esse comportamento não se sustenta no longo período. Isto é, a longo prazo, o grau de utilização converge para o nível normal, tornando-o inócuo como explicação para a determinação do investimento. 

Isso porque, em primeiro lugar, a diferença entre o grau normal e atual da utilização da capacidade leva a variações no investimento, o que leva o grau de utilização para seu valor normal. Em segundo lugar, o componente exógeno é visto como expectativa de crescimento da demanda. O investimento irá crescer com a expectativa de demanda sempre que o nível de capacidade de utilização estiver em seu nível normal. Se o grau atual superar o grau normal, o estoque de capital crescerá acima da demanda ao longo tempo, de modo que o grau de utilização irá se reduzir até o nível normal, aquele desejado pelas empresas.  Em terceiro lugar, a partir da perspectiva clássica de acumulação de capital, o investimento está sujeito à restrição financeira. Desse modo, o investimento é limitado pelas condições financeiras. Isso pode ser visto por meio de três mecanismos pelos quais o investimento é financiado: a) finanças diretas: emissão de títulos e ações; b) intermediação: intermediários financeiros, como fundos de investimento, que captam poupanças; c) empréstimos bancários. A abordagem clássica enfatiza os dois primeiros elementos, pois a poupança determina o investimento e negligencia o terceiro, algo mais associado ao keynesianismo. Os autores ressaltam a importância do crédito bancário, mas levam em conta os dois mecanismos de financiamento clássicos.  

A partir da construção do modelo, os autores assumem que as empresas utilizam tecnologias com coeficientes fixos e há retornos constantes de escala. Assume-se ampla disponibilidade de trabalhadores no mercado de trabalho, de modo que não se verifica pleno emprego nem a curto nem a longo prazo. A taxa de lucro depende da tecnologia, distribuição e grau de utilização em cada indústria. O investimento é determinado por a) um componente exógeno (o que Keynes denominaria de espírito animal), b) pelo estoque de moeda (a qual a curto prazo é exógena) e c) pela diferença entre grau de utilização corrente e grau de utilização normal. Os salários são totalmente consumidos, enquanto apenas uma fração (1-s) é consumida dos lucros. Essas duas variáveis, I e C, definem a demanda da indústria.  No equilíbrio keynesiano, as variáveis de longo prazo são: preços, estoque de capital e estoque de moeda. O equilíbrio é dado por oferta e demanda. O valor das variáveis de curto prazo, ρ (crescimento do estoque de capital), grau de utilização da capacidade e taxa de lucro são funções de variáveis de longo prazo.  

O equilíbrio clássico é definido quando se verifica igualdade entre o grau de utilização corrente e grau de utilização normal, e pela equalização das taxas de lucro entre as indústrias (pressuposto importante é de que há plena mobilidade de capital entre os setores). Desse modo são determinados os valores de equilíbrio dos preços de produção (os preços relativos), taxa de lucro e a taxa de crescimento. 

Na abordagem keynesiana, o investimento determina os lucros, de modo que um aumento exógeno no estoque de moeda é seguido de aumento dos lucros, via elevação do investimento. Isto é, uma política monetária expansionista reduz a taxa de juros, estimulando o investimento. No equilíbrio de longo prazo, é a fração poupada dos lucros que determina o investimento (a acumulação de capital), visto que tanto o estoque de moeda atingir um patamar de equilíbrio e o grau de utilização tende ao seu nível normal. A taxa de lucro é determinada pela tecnologia e pelo salário real e não pela demanda. Em seguida, a taxa de crescimento depende da taxa de lucro. A perspectiva clássica de acumulação de capital segue essa lógica.  

No curto prazo, verifica-se um estoque de moeda que difere do equilíbrio e os lucros são impactados por meio do investimento (ou seja, verifica-se a não-neutralidade da moeda). No longo prazo, o estoque de moeda se direciona a um nível de equilíbrio, o que faz com que o investimento dependa da quantidade de poupança ao nível normal de utilização da capacidade. No longo prazo, portanto, só pode haver crescimento do investimento com aumento na poupança ou queda do salários. Em síntese, o grau de utilização da capacidade converge ao nível normal, por isso não há efeito acelerador. Por outro lado, na perspectiva keynesiana, o investimento pode crescer com um aumento exógeno da moeda.

Os autores consideram caso em que haja mudança nos salários reais. No curto prazo, um aumento nos salários reais fomenta o grau de utilização da capacidade corrente acima do grau normal de utilização no setor industrial, assim como a taxa de lucro, a capacidade média de utilização e o investimento, isso porque, tanto a demanda corrente quanto a expectativa de demanda crescem. Portanto, há efeitos positivos sobre o crescimento econômico. Por outro lado, a longo prazo, um aumento do salário real não afeta o grau de utilização da capacidade, pois esta volta para o seu nível normal; a taxa de lucro será menor, o que reduzirá o crescimento econômico.  

Nesse sentido, a curto prazo, aumento no estoque de moeda estimula a demanda, o que é percebido pelo aumento do grau de utilização corrente em relação ao grau normal de utilização. Esse efeito acelerador estimula o investimento e, consequentemente, o crescimento econômico. Porém, conforme a demanda cresce, o nível de preços aumenta, o que reduz o estoque real de moeda (M/P) até que se atinja um patamar de equilíbrio. Consequentemente, há menos recursos financeiros para o financiamento do investimento, diminuindo-o até um nível de equilíbrio. Ao mesmo tempo, a longo prazo, o aumento inicial de investimento e da capacidade produtiva acima da demanda faz com que o grau de utilização se reduza até o nível normal. Nota-se que, a longo prazo, o investimento dependerá apenas da poupança e não mais do grau de utilização e do estoque de moeda. 

Em seguida, eles analisam o efeito de mudanças na poupança. No curto prazo, uma queda na poupança fomenta o efeito acelerador do investimento, haja visto que estimula a demanda da economia. No longo prazo, tal como expresso pelo mecanismo acima, o nível de preços cresce, reduzindo o estoque de moeda e desestimulando o investimento, assim como o grau de utilização opera retorna ao seu nível normal. Consequentemente, a longo prazo, a demanda não exerce efeito sobre o investimento e sobre a taxa de lucro. Em contraposição, como o investimento depende da poupança no equilíbrio de longo prazo, se ela é reduzida, o nível de investimento será menor, tal como o crescimento econômico. 

No modelo, a curto prazo a moeda afeta a economia (não-neutralidade da moeda). Já no longo prazo, a moeda é neutra, ou seja, não afeta o crescimento econômico, via investimento. A moeda exerce um efeito desestabilizador, por meio de uma resposta pró-ciclica em relação à divergência entre grau normal e o atual da utilização da capacidade. Contudo, esse mesmo mecanismo estabiliza a economia, por meio de um movimento contracíclico, via inflação. A condição de estabilidade é que o parâmetro inflacionário é mais forte do que o do grau de utilização da capacidade, ou seja, o efeito contracíclico é mais intenso.  

A discussão sobre se a economia gravita em torno de um equilíbrio de longo prazo é polêmica, pois, como afirmam os autores, os Keynesianos não gostam dessa ideia. Já eles apontam que há forças que levam a economia para um equilíbrio de longo prazo em que vigora grau normal de utilização da capacidade (aquele desejado pelas firmas). Nesse sentido, observa-se que são fatores de oferta que impactam o investimento e o crescimento, como a poupança.

Duménil e Lévy argumentam que é possível obter desvios largos e sistemáticos no equilíbrio de longo prazo. Isso porque, em primeiro, primeiro os mecanismos monetários estabilizadores (de preços e de convergência do grau de utilização normal) são limitados e a convergência para o longo prazo é demorada, ou seja, os mecanismos contracíclicos podem ser inadequados em um período mais curto. Em segundo lugar, os mecanismos monetários podem ser imperfeitos, haja visto que inovações financeiras podem fornecer recursos para os investimentos produtivo a uma capacidade superior ao impacto de aumento dos preços sobre o estoque de moeda. Desse modo, os parâmetros do investimento e do estoque de moeda podem não ser constantes, isto é, a não-neutralidade da moeda pode ser verificada em períodos mais extensos. Em terceiro lugar, a política econômica pode buscar outros valores alvo diferente daquele do equilíbrio, portanto, ela pode ser mais expansionista, afetando a economia por mais tempo. Assim, a economia pode desviar do nível normal de utilização da capacidade por uma extensão grande de tempo.

Por fim, os autores apontam que as explicações sobre as flutuações se concentram em dois pontos. O primeiro é o lento movimento de sequencias de equilíbrio de curto prazo, ou seja, a gravitação em torno do equilíbrio de longo prazo. Segundo, quanto mais rápidas as flutuações na sequencia de equilíbrios de curto prazo, haverá períodos de equilíbrio e desequilíbrios. 

Em síntese, esse modelo proposto por Duménil e Lévy busca conciliar o keynesianismo a curto prazo e teoria clássica a longo prazo. No curto prazo, a demanda impacta o investimento e o crescimento econômico, em virtude do fato de que tanto o estoque de moeda quanto o grau de utilização divergem de seus valores normais de equilíbrio. Por outro lado, no longo prazo, o mecanismo de preços e o ajuste da capacidade produtiva fazem com que a economia retorne aos seus níveis normais. Consequentemente, a determinação do investimento (e a taxa de lucro) e do crescimento econômico dependem apenas das condições de oferta, como a poupança. As flutuações econômicas representam essas divergências entre as variáveis de seus patamares normais de equilíbrio, assim como, devido à demora temporal e eventuais imperfeições, o ajustamento para o equilíbrio de longo prazo pode demorar. Mais uma tentativa, mais moderna, de conciliar a revolução keynesiana dos anos 1930 com a teoria clássica (e neoclássica) de equilíbrio. 


 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Millei e Haddad, duas estratégias diferentes de austeridade (Parte 2): os estudos de pesquisadores FMI (2018) e do Made-USP (2024)



No texto anterior (https://despensamentoseconomicos.blogspot.com/2025/06/millei-e-haddad-duas-estrategias.html) discutiu-se as diferentes estratégias de austeridade realizadas pelo presidente argentino Javier Millei (baseada em corte de gastos) e do ministro da Fazenda brasileiro, Fernando Haddad (baseada em impostos) à luz do livro "When It Workds and When It Doesn’t", de Alesina, Favero e Giavazzi, consolidando um trabalho de décadas desses autores sobre a "austeridade fiscal expansionista". Em síntese, os novos resultados apresentados, compilando dados de países da OCDE, apontam que medidas de consolidação fiscal são contracionistas, porém, um ajuste fiscal baseado em diminuição de gastos proporciona efeitos menos nocivos, assim como pode gerar efeitos positivos sobre o investimento e a confiança. A despeito da solidez dos dados e resultados, ainda não há consenso sobre qual melhor estratégia de austeridade fiscal e seus efeitos sobre a economia. Nessa parte 2, serão apresentados estudos críticos em relação à forma de ajustamento via gastos e aos efeitos da austeridade fiscal. 

No estudo "The Macroeconomic Effects of Fiscal Consolidation in Emerging Economies: Evidence from Latin America", publicado no  IMF Working Paper no.18/142 em 2018, Yan Carriere-Swallow, Antonio David e Daniel Leight tomaram como objetivo analisar ajustes fiscais nos países emergentes, por meio de dados de medias de austeridade em 14 países da América Latina e Caribe (ALC) entre 1989-2016. A primeira conclusão do estudo é de que consolidação fiscal em 1% do PIB na América Latina e Caribe está associada a uma queda em 0,5% do produto no primeiro ano e a uma queda de 0,9% após dois anos, fortalecendo a ideia de que, de fato, austeridade é contracionista. Quando se considera a classe de países desenvolvidos, o resultado é similar: ajuste fiscal de 1% reduz o produto em 0,3% no primeiro ano e 0,7% após dois anos.  

Em segundo lugar, os autores verificaram os efeitos da austeridade sobre outras variáveis econômicas. No que se refere ao emprego, um ajuste fiscal de 1% do PIB aumenta o desemprego em 0,3%, enquanto nos países avançados, o efeito é um pouco maior (aumento em 0,5%). Isso pode ser explicado pela existência de mercados de trabalho informais mais amplos nos países da ALC. Em relação ao saldo comercial, encontrou-se que ajuste de 1% PIB eleva o superávit de países da ALC 0,8% do PIB, dado que a austeridade reduz a demanda doméstica, contraindo as importações. Para os países avançados, o impacto é de aumento em 0,5% no superávit comercial. E levando em conta a taxa de câmbio, o ajuste fiscal faz com que ocorra desvalorizações da moeda em 3% para os países da ALC em dois anos, enquanto, para os países avançados, é de 1,3%. 

Os autores não encontraram diferenças significativas entre efeitos de ajustamentos na parte ascendente do ciclo e na descendente do ciclo. Em seguida, eles diferenciam os efeitos da austeridade quando o risco de calote da dívida pública é alto ou baixo. Isso porque, um dos possíveis canais de transmissão da austeridade expansionista é de que os impactos sobre o crescimento podem ser minimizados se o governo se tornar solvente e houver redução dos custos da dívida pública (o que leva à queda nas taxas de juros). Nesse cenário, esse mecanismo de transmissão é mais forte quando os ajustes ocorrem em quadro fiscal mais deteriorado. Os resultados mostram que os efeitos da consolidação fiscal sobre o produto são maiores (negativo em 1,2% após dois anos) quando a percepção de risco de calote é baixa, e menores (negativo 0,9% após dois anos) em um cenário em que o risco de calote é maior. Porém, a diferença não é significativa. No caso dos países avançados, os impactos da consolidação fiscal não são significativos quando a percepção do risco é maior (redução de 0,2% após dois anos), mas o impacto é relevante quando a percepção de risco é baixa (redução de 0,9% em dois anos).  

Por fim, os autores diferenciariam os efeitos da austeridade com base em estratégias de aumento de impostos (55 casos) e em corte de gastos (18 casos). Levando em conta os países avançados, os resultados são semelhantes àqueles apresentados por Alesina: uma consolidação fiscal (1% do PIB) baseada em impostos é mais contracionista para o produto (redução de 1,7% do produto), enquanto estratégia baseada em corte de despesas é menos danosa (redução de 0,4% do produto). Para os países da ALC, segundo os autores, não há diferenças significativas entre os dois ajustamentos, mas, uma ajustamento fiscal, após dois anos, baseado em gastos (queda de 1,6%) é mais danoso para o produto do que baseado em impostos (queda de 0,8%). Porém, os autores ressaltam que a inferência em relação ao tamanho comparativo dos multiplicadores entre os pacotes de consolidação é inconclusiva, uma vez que o impacto das consolidações baseadas no gasto é imprecisamente estimado na amostra das economias emergentes. Nesse caso, tomando como referência o contexto regional, a estratégia de ajustamento fiscal de Haddad não é pior do que a de Millei no que se refere aos efeitos sobre produto. É a questão, portanto, é mais política do que econômica, ao contrário do que sugere os estudos de Alesina. 

Para o caso específico do Brasil, os pesquisadores Marina da Silva Sanches, Hiaman Rodrigues e Guilherme Klein, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made), realizaram um estudo, denominado de "Ajuste via receita ou via gasto? Cenários de ajuste fiscal considerando estimativas de efeitos multiplicadores para averiguar os efeitos de ajuste fiscal baseado em receitas e impostos para o Brasil" (Nota de Política Econômica, n.55, 2024) para averiguar os efeitos dessas duas estratégias de ajuste fiscal. Foram estimados os multiplicadores, baseado em receitas e gastos públicos, para os anos de 1997-2023 (exceto 2020 e 2021, devido à pandemia). Assim, eles estimaram diversos cenários para analisar os impactos de ajuste fiscal sobre produto, razão dívida/PIB, e déficit primário-PIB. 

Nesse estudo, os autores diferenciaram as categorias de gastos públicos (investimentos públicos, benefícios sociais, pessoal, subsídios, e outros gastos). Ao analisar o efeito dos aumento nesses gastos sobre o produto, verificou-se que os benefícios sociais e o investimento são os que apresentam maiores efeitos positivos (ou os maiores multiplicadores) sobre o produto. No caso dos benefícios sociais, um aumento em R$1 eleva o PIB em R$2,15 após dois meses, e para o investimento público, o resultado é de aumento no PIB em R$2,6. As demais despesas não apresentaram multiplicadores tão significativos (acima da unidade). 

A partir desses multiplicadores, os autores discutiram o efeito de um ajuste fiscal de 1% PIB, tomando como referência três cenários. No primeiro, a consolidação fiscal é baseada em corte de gastos (considerando cenários com cortes em investimento público, benefícios sociais e subsídios). A receita pública só é afetada se o produto cair (elasticidade dos impostos em relação ao produto é de 1,25), ou seja, não há medidas de aumento ou corte de impostos. No segundo cenário, o ajuste é feito com base no aumento de impostos, mantendo os gastos. E o terceiro cenário em que se combina um ajuste fiscal com aumento de impostos e aumento de gastos. 

No cenário 1, observou-se, primeiro, um ajuste fiscal que recaísse exclusivamente sobre o investimento público. O PIB, então, se reduziria em 2,4% e a dívida pública alcançaria para 60%PIB (valor superior ao observado em 2023 e o maior para as simulações apresentadas). No caso da redução de benefícios sociais, o produto cairia 1,81% e a dívida/PIB atingiria 59,4 (mais próximo do que ocorreu em 2023). E por fim, um corte nos subsídios tem um impacto pequeno sobre o PIB de -0,2%, assim como a dívida pública cairia para um valor mais baixo (58% PIB). Além do mais, um ajustamento por meio de redução de subsídios traria um impacto melhor sobre o déficit primário-PIB em relação aos demais (no caso de subsídios, o déficit primário/PIB iria para 1,16; enquanto no caso de investimento público e benefícios sociais, os valores seriam, respectivamente, 1,7% e 1,54%). Portanto, a ideia de Haddad em cortar subsídios como uma das fontes de sua estratégia de austeridade está bem embasada nos dados. 

No cenário 2, estimou-se um ajuste com base em impostos, cujo resultado apontou para uma queda do produto em 0,53% e menor relação dívida-PIB (58,3%) em relação ao cenário 1, o que é explicado pelo menor impacto recessivo do ajustamento, mantendo o denominador (PIB) maior do que nos demais casos de ajuste via gastos. 

No cenário 3, os autores analisam cenário de aumento de impostos combinado com elevação de gastos públicos (consolidação fiscal mais neutra). No caso, há um aumento no produto de 1,91% se houver elevação do investimento público e 1,28% se em benefícios sociais. Em ambos casos, a dívida pública/PIB apresenta trajetória de queda (57,4% e 57,9%, respectivamente), devido aos efeitos expansionistas do gasto sobre o produto. Por outro lado, a combinação de elevação de impostos com aumento nos subsídios faz com que o produto caia -0,32%, assim como as variáveis fiscais apresentam piora em comparação aos dois casos (déficit-PIB vai para 2,19% e dívida pública para 59,2%). 

Em síntese, gastos com benefícios sociais e investimento público apresentam elevados multiplicadores. De um lado, como os benefícios sociais se concentram para as populações de baixa renda com alta propensão a consumir, a demanda e, consequentemente, o produto, são estimulados quando há aumento nessa categoria de dispêndio. Já o investimento público, além de exercer um efeito direto sobre a demanda, também, afeta indiretamente o setor privado, assim como é um fator importante para elevação da produtividade (como os investimentos em infraestrutura). 

A conclusão do estudo realizado pelos pesquisadores do Made é de que ajustes fiscais que preservem (ou até aumentem) os gastos sociais e o investimento públicos proporcionam melhor trajetória para os indicadores fiscais e garantem elevação do produto. Portanto, uma estratégia de consolidação fiscal, no Brasil, que enfoque na redução dos gastos sociais e do investimento público prejudicam o produto e, consequentemente, contribui para deterioração dos indicadores fiscais, ao reduzir o denominador (PIB), ao invés de melhorá-los. O cenário 3, em que o ajuste fiscal combina elevação das receitas com aumento dos gastos sociais e do investimento público pode ser considerada uma estratégia mais bem-sucedida tanto para efeitos de crescimento quanto de melhorias nos indicadores fiscais. 

O estudo realizado pelos pesquisadores do FMI aponta que a austeridade fiscal na América Latina e Caribe é contracionista e que não se sustentam diferenças significativas entre ajuste fiscal baseado em gastos e impostos, ainda que os resultados apontem que um ajuste via corte de despesas é mais danoso para o produto do que ajuste via impostos. Portanto, ao trazer a discussão para a realidade de países emergentes, inicialmente, observa-se que não há uma estratégia correta para realização de um programa de consolidação fiscal, haja visto que o produto será afetado negativamente. 

Por outro lado, o estudo realizado pelos pesquisadores do Made-USP, utilizando dados referentes ao Brasil, mostra que um programa de consolidação fiscal que reduza os gastos sociais e investimento público (como Millei tem feito na Argentina) promove efeitos negativos sobre o produto e sobre os indicadores fiscais, pois essas duas classes de dispêndios possuem elevados multiplicadores. Ao mesmo tempo, uma estratégia baseada em elevação de impostos exerce um impacto menos negativo sobe produto e indicadores sociais. Desse modo, para eles, uma solução ideal de ajuste é aquela em que se aumenta impostos, mas se eleve os gastos sociais e o investimento público, de modo que se garanta, ao mesmo tempo, efeitos positivos sobre o produto e melhora dos indicadores fiscais. Nesse sentido, faz sentido que a política econômica de Haddad concilie elevações de impostos, mas preservando ao máximo as despesas sociais e o investimento público. 

Esses dois estudos mostram que, para realidade latino-americana, e, mais especificamente, brasileira, a estratégia de Haddad é positiva, ao contrário, da conclusão que se tira quando se considera apenas os resultados apresentados por Alesina, Favero e Giavazzi, demonstrando que, é preciso levar em consideração fatores políticos, institucionais e específicos de cada país ou região antes de se "bater o martelo" sobre qual a melhor forma de se realizar um ajuste fiscal. 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Millei e Haddad, duas estratégias diferentes de austeridade (Parte 1): o estudo de Alberto Alesina, Carlo Favero e Francesco Giavazzi (2019)


Em 2025, estão em curso duas estratégias de austeridade nos dois principais países da América do Sul. No Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem buscado equilibrar as contas públicas por meio de uma estratégia voltada ao aumento das receitas (seja aumento de impostos em certos segmentos, seja na tentativa de conter as renúncias fiscais) e revisão de gastos públicos, mas sem implicações maiores sobre os gastos sociais. Já na vizinha argentina, o presidente libertário Javier Millei adotou a postura oposta: forte redução dos gastos públicos nas mais diversas áreas (inclusive sociais) e do fim de subsídios (como aqueles para o transporte público). De um lado, o ministro brasileiro aposta em medidas mais graduais e voltadas pelo lado das receitas, enquanto o presidente argentino abandonou qualquer viés gradualista para obter um rápido equilíbrio fiscal. 

Do ponto de vista macroeconômico, o objetivo do equilíbrio das contas públicas visa a redução de juros e da inflação. Na Argentina, o grave quadro inflacionário e a desvalorização do peso, associado a um presidente que radicalmente contra a intervenção do Estado na economia, ajudam a explicar a opção pela rígida austeridade fiscal. No caso brasileiro, o cenário para a inflação não é tão deletério quanto no passado ou em comparação ao país vizinho, mas tem prejudicado o consumo dos mais pobres. Além do mais, dado que a inflação tem estado acima da meta, a política monetária opera no campo restritivo nos últimos anos. 

Mas, o que a literatura econômica diz sobre os impactos da austeridade e sobre existência ou não de uma fórmula correta para adotar esse tipo de medida sem que isso impacte a economia? No tradicional modelo Keynesiano (IS-LM), uma redução do déficit público (seja por corte de gastos e/ou aumento de impostos) reduz a demanda agregada e a renda, o que, por intermédio do multiplicador de gastos, induz a novas quedas de consumo e investimento até o momento em que se verifica queda no produto e no emprego. Uma contração dos gastos públicos exerce um efeito mais direto, enquanto o aumento de impostos reduz a demanda, via diminuição da renda disponível das famílias e empresas. Em tese, como as famílias gastam apenas uma parte da sua renda, o efeito do corte de gastos sobre a economia é mais deletéria do que aumento de impostos. Não à toa, o keynesianismo tradicional propõem medidas de equilíbrio nas contas públicas voltados, por exemplo, para aumento de receitas, por intermédio de tributação progressiva ao invés do corte de gastos, tal como tem sido a estratégia adotada por Haddad. 

A conclusão Keynesiana é nítida dos efeitos contracionista da austeridade. Contudo, na década de 1990, um conjunto de economistas italianos, sob liderança de Alberto Alesina, passaram a questionar essa visão. O resultado foi uma série de trabalho que apontavam para possibilidade de que contrações fiscais poderiam ser expansionistas no médio prazo, em virtude de efeitos positivos sobre outros canais de transmissão (expectativas, juros, câmbio). No mais recente livro de 2019, "When It Workds and When It Doesn’t" (publicado pela Princenton University Press), Alberto Alesina, Carlo Favero e Francesco Giavazzi consolidam e aprimoram suas pesquisas em torno dos efeitos da austeridade fiscal sobre o crescimento econômico, inclusive, revendo metodologias e críticas sobre trabalhos antigos. 

Do ponto de vista teórico, os efeitos positivos da austeridade fiscal são transmitidos de diversas formas, algumas delas apresentadas no capítulo 2 do livro ("The Theory"). O primeiro mecanismo de transmissão é sobre a perspectiva de futuro. Nesse caso, retoma-se o conceito de Equivalência Ricardiana, segunda o qual, se o déficit e o endividamento público são crescentes, consumidores e empresários poupam no presente, pois há a expectativa de que haverá aumento de impostos no futuro, neutralizando o efeito multiplicador dos gastos públicos e/ou da redução de impostos. Medidas críveis de austeridade implicam, para os indivíduos, de que as contas públicas ficarão estáveis e não haverá motivos para aumentos de impostos no futuro, estimulando mais gastos (consumo e em investimento), com impactos positivos sobre a economia. Quanto mais rápido for o ajuste em relação à deterioração das contas públicas, melhor. "Empurrar com a barriga" o ajuste de contas apenas piorará o quadro. 

O segundo mecanismo é pelo canal da "expectativa e confiança". Em geral, austeridade ocorre em momentos de recessão ou baixo crescimento, o que inibe os gastos de consumidores e famílias. Um pacote crível de austeridade permite aumentar a confiança em torno do que se espera do futuro, de modo que essa confiança se traduz em estímulos à demanda. 

Um terceiro mecanismo de transmissão é sobre a oferta. Uma redução do gasto público com o funcionalismo faz com que os salários do setor privado se reduzam, o que, ao baratear os custos laborais, estimula novos investimentos (ainda que o consumo dos trabalhadores possa se reduzir a curto prazo), contribuindo para aumento de emprego (absorvendo aqueles funcionários públicos demitidos) e do produto. Porém, os autores são mais cautelosos quanto a esse mecanismo, pois, de um lado, para que os efeitos positivos se apresentem é preciso que haja relação entre contratos dos funcionários públicos e do setor privado. Além do mais, há outros efeitos decorrentes da redução do gasto público. Se houver contração do investimento público, isso pode resultar em menor produtividade. E, em segundo lugar, diminuição nos gastos sociais (como transferências), de um lado, funciona como aumento de impostos sobre os mais pobres, prejudicando seu consumo, e de outro lado, faz com que os trabalhadores ofertem mais a sua mão-de-obra, afinal, há um efeito riqueza negativa. Desse modo, se a austeridade reduz os salários, as exportações se tornam mais competitivas, e, com lucros mais altos, em tese, as empresas se sentem impelidas a investirem. 

Por fim, em tese, ajustes por meio da redução de gastos público estão acompanhados de reformas estruturais, como aquelas associadas à institucionalidade e mercado de trabalho, o que poderia beneficiar as condições de oferta, ajudando na promoção do crescimento econômico futuro. 

Medidas de austeridade podem ter algum efeito recessivo a curto prazo, diminuindo o produto e o emprego, porém, em um cenário inflacionário, isso pode se traduzir em queda nos preços. Consequentemente, de um lado, o salário real dos trabalhadores cresce, estimulando o consumo; de outro lado, há espaço para redução da taxa de juros, o que é positivo para o investimento e o consumo baseado em crédito. Outro efeito se dá via taxa de câmbio, haja visto que uma eventual queda no nível de preços faz com que a taxa real de câmbio (que leva em conta a diferença de preços internacionais e domésticos) se eleve (desvalorização), permitindo que as exportações possam crescer, o que é, particularmente, benéfico em economias com alto coeficiente exportador. 

No capítulo 6 ("Data"), os autores apresentam os dados e a metodologia para analisar as formas mais eficientes de austeridade e seus impactos macroeconômicos. Os dados são referentes a 16 países da OCDE e leva em consideração ajustes fiscais realizados entre 1981-2014. Os ajustes fiscais são considerados exógenos, isto é, independem do estado da economia. Eles apontam que os países europeus adotaram ajustes fiscais nos anos 1980, como uma forma de reduzir o endividamento e os juros, e nos anos 1990, para se ajustarem aos critérios da União Europeia e Euro. Os Estados Unidos fizeram ajuste no começo dos anos 1990 (90-93). Em seguida, novos ajustes fiscais foram realizados na Europa entre 2010-2013 no contexto da Crise da Dívida; e nos EUA, pós-Crise de 2008.  Foram captados 184 casos de austeridade para 16 países, sendo que 2/3 foram ajustes fiscais baseados em gastos, enquanto o outro terço foi baseado em impostos. Como não havia dados para todos, foram considerados 170 planos.  

No capítulo 7 ("The Effects od Austerity"), o trio conclui que austeridade baseada impostos (Tax-Based, TB) tem efeito negativo permanente sobre crescimento econômico, enquanto a austeridade por gastos (Expenditure-Based) não é tão recessiva. As funções impulso-respostas apresentadas indicam que austeridade baseada em gastos causa uma leve recessão nos dois primeiros anos, mas apresentando trajetória ascendente posteriormente, porém, sem retornar ao patamar original. Isto é, a austeridade baseada em gastos é contracionista, mas seu efeito é menos negativo. Por outro lado, a austeridade baseada em impostos é altamente recessiva. Assim, nos dois primeiros anos de austeridade baseada em impostos, o produto cai 1% a 2%. Já quatro anos depois da austeridade, o produto cai entre 1,5% a 2,5%. Por outro lado, uma austeridade baseada em gastos leva a uma redução do produto em dois anos de 0,5%. Três anos depois, o produto retorna ao nível pré-austeridade; e após-quatro anos, a austeridade baseada em gastos expande o produto para um nível mais próximo daquele pré-austeridade, ou seja, o efeito contracionista é menos intenso. Portanto, tomando como referência os resultados iniciais, a estratégia de Millei parece ser mais benéfica, a médio prazo, do que a de Haddad. 

Quando se considera consumo e investimento, os resultados apontam que, austeridade baseada em gastos eleva o nível de investimento, após dois anos, para um patamar superior ao original, enquanto um ajuste baseado em impostos deprime essa variável de modo permanente. No que tange o consumo, em ambos tipos de ajustes, o consumo se contrai, mas depois sendo revertido para cima, mas sem atingir o patamar pré-austeridade. Porém, o efeito negativo da austeridade baseada em impostos é maior do que via gastos. 

Levando em conta a taxa de câmbio, os autores não encontraram diferenças significativas entre os dois tipos de planos, de modo que as funções impulso-resposta indicam que as exportações inicialmente apresentam uma subida no primeiro ano, mas depois decrescem para um patamar abaixo do original. No caso da política monetária, a austeridade baseada gastos proporciona a uma política monetária mais expansionista, mas não de maneira tão significativa a ponto de explicar as diferenças de impacto sobre o produto. Ao se levar em conta a inflação, ambos planos a reduzem, sem impactos diferenciados. Um ponto importante a ser salientado é de que os autores encontraram os mesmos resultados isolando o efeito sobre a política monetária. 

Ao analisar o efeito da austeridade sobre a confiança, observou-se que a austeridade baseada em gastos melhora, levemente, as expectativas futuras dos empresários, devido à perspectiva de que a probabilidade de aumento de impostos no futuro é menor. Por outro lado, o ajustamento baseado em impostos reduz a confiança dos capitalistas, porque torna as expectativas futuras sobre impostos menos favoráveis a seus lucros. No que tange à confiança do consumidor, um ajuste baseado em gastos não altera a confiança. Isso pode ser explicado por dois motivos: i) se o corte de gastos não se transformar em maiores empréstimos, não haverá motivos para os consumidores se tornarem mais confiante; ii) se o corte de gastos é feito com transferências, isso pode desestimular o consumo das famílias. Um ajuste via impostos reduz a confiança dos consumidores, em virtude dos efeitos sobre as expectativas em torno da renda disponível futura, mas o impacto não é tão significativo. Portanto, no que se refere à confiança, o efeito principal da austeridade se dá via confiança empresarial. 

É possível, ainda, dividir o ajustamento de gastos em dois: 1) em cortes de transferências [TRB]; 2) cortes em gastos correntes e de capital [CIB]. A austeridade baseada em impostos [TB] possui um impacto negativo sobre o produto do que os demais planos após 2 anos. O ajuste baseado em CIB é recessivo após 1 ano, mas, com posterior retomada à normalidade. O que diferencia os efeitos sobre o produto de uma estratégia baseada em impostos e gastos é seu efeito sobre o investimento. Um aumento na tributação reduz em 2% o investimento, enquanto nos dois outros ajustes, o investimento cai no máximo 2%, mas retornando ao patamar original após 2 anos. No que se refere ao ajuste via consumo do governo [CIB], o produto cresce acima do nível original após 3 anos do plano de austeridade. Já no ajustamento via transferência o produto é pouco afetado. Considerando o efeito das formas de austeridade sobre o consumo das famílias, um estratégia baseada na redução de transferências reduz inicialmente essa variável, mas, após 2 anos, ela cresce acima do patamar original. No caso do ajustamento por meio do consumo do governo, o consumo das famílias apresenta uma leve queda ao patamar original. Por fim, a austeridade baseada em tributação faz com que o consumo fique em um patamar inferior ao nível original após 4 anos.  

Ao incorporar a confiança dos consumidores, os resultados mostram que o ajuste via consumo do governo permite expandir a confiança dos consumidores e dos negócios. Por outro lado, quando a redução dos dispêndios se dá via transferências, esse efeito positivo não se verifica. E por fim, ajuste via impostos traz perda de confiança, haja visto, que a perspectiva é de aumentos permanentes nos impostos. No que se refere à política monetária, os resultados indicam que ambas estratégias de gastos levam à redução da taxa de juros. 

Em seguida, o trio italiano analisa o efeito da austeridade associada a mudanças estruturais. Isto é, ajustes de gastos levam a mudanças estruturais, em particular, no mercado de trabalho. Foram utilizados dois indicadores, um relacionado ao mercado de trabalho e outro a reformas de mercado. Contudo, não se verificou resultados significativos da existência de um vínculo entre adoção de reformas e uma estratégia definida de austeridade. De outro lado, eles buscaram analisar o efeito de cada tipo de austeridade sobre a dívida pública, considerando casos com dívida pública alta (120%PIB) e baixa (60%PIB). O ajuste via gastos reduz a dívida, independentemente, do seu tamanho inicial. Um ajuste baseado em tributação afeta pouco a estabilidade da dívida quando ela é baixa, mas a eleva fortemente quando a dívida é alta. Isso porque, uma tributação mais alta reduz o déficit primário, mas gera impactos recessivos e aumento da inflação, diminuindo o denominador da dívida. No caso de um ajuste fiscal baseado gastos, ao minimizar efeito negativo sobre o produto, faz com que o denominador não caia (eventualmente até aumentando), garantindo maior estabilidade da dívida independentemente de seu patamar inicial. Desse modo, estratégias de ajuste baseado em tributação são péssimos para reduzir o endividamento, enquanto o ajuste via gastos é mais eficaz. 

O que fica nítido desse estudo é que austeridade baseada em gastos gera impactos menos deletérios sobre o produto, enquanto há impactos positivos sobre a confiança e o investimento. De outro lado, a austeridade baseada em impostos promove efeitos negativos e recessivos sobre produto, investimento e confiança. Os autores apontam que, em primeiro lugar, um bom ajuste fiscal torna consumidores e investidores mais confiantes sobre o futuro, de modo que eles se sentem impelidos a elevarem a demanda. Um ajuste fiscal  prolongado, especialmente, baseado em impostos, deprime as expectativas futuras dos agentes, principalmente, de que haverá mais impostos no futuro, desestimulando-os a gastar. Um ajuste crível e rápido torna as expectativas futuras mais claras. Em segundo lugar, ajuste baseado em gastos é mais eficiente do que baseado em tributação, devido aos efeitos sobre o investimento, o que explica boa parte da diferença entre os dois tipos de ajuste. Nesse sentido, a redução dos gastos públicos sinaliza aos agentes menores probabilidade de impostos futuros, estimulando, principalmente, o investimento. 

Por fim, no capítulo 9 ("When Austerity"), os autores apontam que, independentemente do momento da realização do ajuste fiscal, expansão ou recessão, os resultados não se alteram significativamente, ou seja, ajustes baseados em gastos são menos recessivos, mas o ajustamento baseado em impostos é mais contracionista durante períodos de expansão. Isso pode ser explicado pelo fato de que em recessões, com a confiança baixa, medidas de austeridade podem ser bem vistas para elevar a confiança, enquanto em períodos de expansão econômica, o efeito sobre a expectativa de elevação de impostos no futuro diminui a confiança. Por outro lado, os autores utilizam uma outra metodologia que mostra que, em momentos de recessão, o custo da austeridade, independentemente da estratégia, é muito mais prejudicial do que na expansão. Portanto, para minimizar custos sociais e econômicos, às vezes é melhor adotar medidas de contração fiscal, como diminuição de gastos públicos, quando a economia está crescendo. 

A conclusão dos autores evidencia que ajustamento baseado em gastos é menos contracionista (ainda que seja) e até mesmo expansionista sobre o investimento, enquanto um ajustamento via impostos é extremamente negativo a longo prazo. Ao se considerar os resultados apresentados por  Alberto Alesina, Carlo Favero e Francesco Giavazzi, a melhor estratégia de austeridade fiscal, no sentido de evitar impactos negativos sobre a economia, é a de Millei, baseada em redução de gastos e rápida. Nesse sentido, a expectativa para os agentes será de menor incerteza no que tange a eventuais aumentos de impostos, permitindo que eles possam elevar seus gastos, especialmente, no investimento, assim como é mais eficiente para reduzir a dívida pública. Por outro lado, a estratégia de Haddad, nesse contexto, promoveria efeitos contrários às expectativas, desestimulando o investimento e promovendo efeitos deletérios sobre o produto e postergando a estabilidade da dívida pública. 

Mas antes que se possa tirar uma conclusão, é preciso qualificar a discussão. Em primeiro lugar, o estudo de Alesina, Faverto e Giavazzi não conclui que a austeridade é tão expansionista quanto se pressupunha, ao contrário, independentemente da fórmula de ajuste, a austeridade não promove o crescimento econômico ao longo do tempo. A questão é que a estratégia baseada em gastos tende a gerar um impacto menos negativo do que aquela baseada em impostos. O principal efeito da austeridade é de impactos positivos sobre investimento e sobre confiança. No modelo básico, não há evidências significativas de que outros mecanismos de transmissão (como juros e câmbio) sejam significativos.

Em segundo lugar, os dados são referente a países da OCDE, isto é, para países desenvolvidos, cuja estrutura produtiva e institucional difere de países em desenvolvimento, como Brasil e Argentina. Desse modo, é preciso tomar cuidado em replicar automaticamente os resultados para julgar qual caminho a política econômica doméstica deve seguir, afinal, o mecanismo de transmissão da confiança pode se aplicar perfeitamente a OCDE, mas pode não ser o caso de países emergentes. Em terceiro lugar, não se deve perder a dimensão política e social da austeridade. Os resultados indicam diferenças de impactos nas estratégias, mas ainda assim medidas de contração fiscal não são tão expansionistas, assim como, outros efeitos sobre desigualdade e pobreza devem ser levados em consideração, algo não medido nesses trabalhos. E por fim, conforme ver-se-á em outros momentos do blog, outros estudos continuam a questionar eventuais efeitos positivos da austeridade, tal como os efeitos diferenciados de ajustes via gastos e impostos. 


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Mudanças Tecnológicas, Ciclos de Kondratiev e a Institucionalidade Sócio-Econômica


Os Ciclos de Kondradiev indicam ondas longas de crescimento econômico (entre 40 a 60 anos) em que expansões são sucedias por colapsos. Desse modo, a dinâmica capitalista se move em ciclos, decorrente das mudanças de padrões tecnológicos e investimentos. Considera-se que o primeiro ciclo esteve associado ao motor a vapor (1780-1830), seguido do aço/ferrovias (1830-1880), eletricidade/química (1880-1930), automóveis/petróleo (1930-1970), tecnologia da informação (1970-2010). Atualmente, estima-se que um novo ciclo está associado à nanotecnologia e tecnologia voltada para meio ambiente, podendo, também, considerar a inteligência artificial. Porém, nota-se que a menção aos ciclos não indicam como se dá esse processo de expansão/crise e como as mudanças tecnológicas causadoras desses ciclos se vinculam à estrutura institucional social-econômica.  

Uma das principais autoras que busca conciliar mudança tecnológica e a institucionalidade socio-econômico, é Carlota Perez. Nos artigos, "Structural change and assimilation of new Technologies in the economic and social systems" (Futures, Vol.15, No.5, 1983) e "Structural crises of adjustment, business cycles and investiment behaviour" (junto a Christopher Freeman, publicado no livro Technical change and economic theory. London: Pinter, 1988), ela fornece um arcabouço teórico para compreender a forma como a mudança tecnológica impacta os ciclos econômicos. O argumento principal é de que ciclos longos de Kondratiev não são um fenômeno especificamente econômico, mas refletem a compatibilidade ou incompatibilidade com o sistema econômico no que tange a estruturas institucionais e sociais. Nesse sentido, expansões econômicas surgem da compatibilidade entre o avanço tecnológico revolucionário e as instituições, enquanto as crises emergem da ruptura entre a tecnologia e a sua adequação institucional e social. 

Quando se refere a mudança tecnológica, Carlota Perez faz uma distinção importante entre inovação incremental e inovação radical. A primeira se refere a inovações que aperfeiçoam o processo produtivo e os produtos já existentes. A segunda está circunscrita à introdução de produtos, insumos básicos e/ou processos produtivos novos. É impossível que a inovação radical venha de esforços para melhorar uma tecnologia já existente. Por exemplo, a energia nuclear não poderia ter surgido das usinas elétricas movidas a combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, a inovação radical faz com que surjam novas indústrias diferentes das anteriores e novos produtos tidos como revolucionários (exemplo típico é a televisão). Nesse sentido, a inovação radical é capaz de iniciar um curso tecnológico (um novo ciclo de Kondratiev), promovendo o que Schumpeter chamava de destruição criativa. 

As inovações radicais não são isoladas, ao contrário, elas promovem um conjunto de transformações (constelação de inovações, segundo Christopher Freeman) que impactam diversos setores. A indústria petroquímica ilustra bem isso, com múltiplos sistemas interligados em produtos e processos. Por exemplo, as fibras sintéticas revolucionaram as indústrias têxtil e de vestuário. Já os plásticos, como materiais estruturais, geraram novos equipamentos (extrusão, moldagem, corte) e transformaram a indústria de embalagens, além de impulsionar inovações em produtos descartáveis. A tecnologia da informação permitiu surgimento de computadores, serviços de aplicativos, autonomização dos processos produtivos, gestão interconectada das cadeias de suprimentos, dentre outros produtos e processos. 

Desse modo, conforme argumenta Perez, a difusão de um sistema tecnológico (ou constelação de inovações) não se circunscreve apenas do ponto de vista técnico, mas traz consigo transformações organizações e administrativas (como, por exemplo, a gestão e a organização empresarial e do trabalho), assim como mudanças institucionais e sociais importantes (distribuição de renda, ocupação, emprego e política econômica e de regulação estatal). Consequentemente, Perez divide o sistema econômico em dois subsistemas: de um lado, o técnico-econômico, e, de outro lado, o social-institucional, sendo que o primeiro cresce mais rápido do que o segunda, pois a capacidade da institucionalidade social em se adaptar às mudanças tecnológicas é mais lenta. As ondas longas dos ciclos representam modos diversos de desenvolvimento. A causa fundamental dessa dinâmica é motivação do lucro como gerador de inovações na esfera produtiva, visando aumentar a produtividade e aumentar as expectativas de lucros de novos investimentos. Cada modo de desenvolvimento é configurado de acordo com um determinado estilo tecnológico, ou seja, um paradigma tecnológico.  

Uma interação positiva entre a estrutura técnico-econômica e a estrutura social-institucional promove uma dinâmica complementar dentro de cada paradigma tecnológico, de modo que a fase ascendente do ciclo de Kondratiev reflete essa harmonia entre as duas estruturas até um ponto em que os lucros não são mais suficientes, de modo que esse paradigma esbarra em certos limites para avançar, ocasionando esgotamento e início de uma crise estrutural. Para superar esses limites, por intermédio de sucessivos processos de tentativa e erro, surge um novo estilo tecnológico na esfera produtiva, com o qual a estrutura sócio-instuticional existente não é capaz de lidar, visto que ela se torna obsoleta para lidar com novos desafios. Essa tensão entre um novo paradigma que está para surgir e a estrutura institucional se concretiza na fase descendente do ciclo, ocasionando uma crise estrutural. E aqui, Perez discute um ponto fundamental: a destruição criativa não ocorre apenas no âmbito econômico, mas no âmbito social e institucional.

A partir dessa tese, Perez desenvolve seu modelo explicativo. Ela parte do conceito estilo tecnológico, o qual pode ser interpretado como sinônimo de paradigma tecnológico. Ambos conceitos se referem a um tipo “ideal” de organização da produção ou senso comum tecnológico, o que garante uma dinâmica estável no que tange à estrutura de custos para um dado período. As empresas, nesse momento de constituição do paradigma tecnológica, se utilizam do “senso comum” de organização da produção, entendido como o meio mais racional e eficiente de tirar vantagem de sua estrutura de custo. O estabelecimento de um paradigma tecnológico está relacionado a uma constelação de inovações, técnicas e administrativas, promovendo um aumento de produtividade muito superior ao paradigma anteriormente vigente. Quando a eletricidade emerge como novo paradigma tecnológico, os custos das empresas se reduziram, ao mesmo tempo, em que foi possível desenvolver novos produtos e setores em comparação ao motor a vapor. 

Uma paradigma tecnológico para ser considerado como tal precisa atender a alguns requisitos: i) reduzir de custos, ii) expandir significativamente a oferta, iii) aplicação universal, isto é, atender a economia como um todo. Como resultado da emergência de um novo paradigma tecnológico, algumas características se concretizam no sistema econômico:

  1. novas formas de organização produtiva; 
  2. novas habilidades da força de trabalho; 
  3. novos produtos baseados nessa nova tecnologia redutora de custos; 
  4. novas tendências de inovações radicais e incrementais; 
  5. novo padrão de localização do investimento em termos nacionais e internacionais;
  6. ondas de investimentos em infra-estrutura para lidar com as externalidades positivas e facilitar o uso dessas novas tecnologias; 
  7. tendência de novas pequenas empresas adentrarem no mercado, substituindo outras, e se expandindo, podendo até mesmo desenvolver novos setores; 
  8. um novo padrão de consumo; 
  9. tendência das grandes empresas se concentrarem.  

É apenas com o estabelecimento de um paradigma tecnológico que um determinado insumo – que cumpre esses requisitos – pode ser “maximizado”, isto é, ser utilizado em pleno potencial.  O aparecimento de um novo paradigma tecnológico acontece no momento de queda no ciclo de Kondratiev. As transformações que esse novo paradigma gera em termos de econômicos precisa ser complementado por transformações sociais e institucionais. 

Inicialmente, esse novo paradigma tecnológico ainda é incompatível com a estrutura socio-econômica, de modo que ainda não se configura uma novo Ciclo de Kondratiev, a partir da fase ascendente. Somente quando a estrutura tecnológica for compatível com a estrutura institucional é que o crescimento econômico se torna harmônico, a ponto de constituir um processo de expansão ascendente do ciclo, superando, de vez, o ciclo anterior e, portanto, resolvendo sua crise. Em síntese, junto ao novo paradigma tecnológico, se estabelecem novos padrões de comércio (interno e externo), de investimento, consumo, emprego e distribuição de renda, configurando um tipo de padrão de crescimento e desenvolvimento econômico.  O ponto alto do ciclo apresenta característica de euforia econômica muito forte e de curta duração, mas que, aparentemente, promete crescimento sem fim, criando as sementes para futura crise. 

A fase descendente do ciclo de Kondratiev mostra a exaustão das novas tecnologias e das oportunidades de investimento associadas ao paradigma tecnológico, afetando os ramos “principais”, assim como faz com que as vantagens de custos dos “setores secundários” caiam em decorrência do estreitamento dos mercados. Em razão da contração dessas novas tecnologias, que vão se tornando cada vez mais obsoletas, há forte pressão na busca de novas formas de organizar a estrutura produtiva, ou seja, encontrar novas tecnologias capazes de suplantar os limites impostos pelas antigas. Dessa forma, a fase descendente é representativa no que se refere à exploração de novas soluções, novas tecnologias, novas formas de organização e estruturação produtiva. Porém, essas soluções são incompatíveis com a estrutura social-econômica, de modo que a sua inserção tende a gerar desemprego, baixo crescimento e prejuízos para os países que não se inserem de modo virtuoso no cenário internacional. Por exemplo, novos processos produtivos, advindos de novas tecnologias, requerem novas habilidades dos trabalhadores, assim como novas formas de organização das cadeias produtivas. 

O período de transição, isto é, o momento de crise, é caracterizado por uma profunda mudança econômica e requer transformações sociais e institucionais. O início de uma prolongada depressão indica o aumento do grau de incompatibilidade entre o novo paradigma que está para se estabelecer e o antigo arcabouço social-institucional. Faz-se necessária uma nova acomodação política, social e institucional ao novo quadro. Isso ocorre por meio de um processo de busca e descoberta do ponto de vista político e social. Quando isso ocorre, atinge-se a compatibilidade entre paradigma e as instituições sociais, abrindo espaço para uma fase ascendente do ciclo, com novas oportunidades lucrativas de investimento.  

O lucro é o propulsor da busca tecnológica, e o paradigma tecnológico é o mecanismo de direção (para onde a economia vai). Dentro de cada paradigma há uma forma ideal de organizar o trabalho, por exemplo, o taylorismo como base da II Revolução Industrial e do consumo de massa. Essa mudança na estrutura ocupacional promove transformações na distribuição de renda, o que, consequentemente, impacta a configuração da demanda. Essa cadeia de eventos gera sinalização dos investimentos que as firmas precisam realizar para atender às demandas do mercado, ou seja, sinaliza quais mercados estão ou têm potencial crescimento.  

Do ponto de vista histórico, Perez utiliza como exemplo o padrão de crescimento econômico pós-II Guerra Mundial, baseado na produção de consumo em massa. A expansão extraordinária foi baseada na compatibilidade entre os requerimentos necessários para paradigma tecnológico fundado no consumo de massa e a estrutura social e institucional – vide, então, que a estrutura ocupacional, por exemplo, que favorecia o consumo de massa, especialmente, de bens duráveis. Mas essa combinação perfeita só veio a ocorrer após a crise de 1930. Isso porque, antes desse período, não estava claro como seria a compatibilização desse novo paradigma tecnológico com as estruturas sociais.  

Entre as principais mudanças institucionais estava o aumento da participação do Estado na economia, especialmente, nas políticas de demanda. Por outro lado, outra mudança institucional foi o avanço da educação superior, necessária para formação dos trabalhadores “White-collors”. Outros elementos importantes foram emergência de novos métodos de crédito, propaganda, formas de comunicação em massa. A aceitação institucional dos sindicatos como representantes legais dos trabalhadores (especialmente nos ramos de transporte) favoreceu o crescimento do rendimento disponível e estimulou a aplicação de inovações incrementais poupadoras de mão-de-obra, em fábricas antigas ou em novos investimentos, ao longo da trajetória do paradigma tecnológico. No nível da empresarial, um novo "tipo ideal" de organização para empresas gigantescas surgiu com integração horizontal e um complexo sistema gerencial que permitia alcançar o tamanho ideal da planta sob um tamanho ótimo muito maior da empresa. No nível internacional, o acordo de Bretton Woods foi fundamental para regular o comércio internacional, e o Plano Marshall estimulou crescimento de novos mercados em diversos países. 

Já a partir dos anos 1980, com o avanço da microeletrônica, Perez e Freeman defendiam que o paradigma baseado na tecnologia da informação intensificou as relações entre design, administração, produção e marketing dentro de um sistema integrado como uma sistematização. As empresas passaram a estruturar seu processo produtivo, por meio da informatização e flexibilidade (como os métodos just-in-time).  A tendência (na época) era da utilização cada vez mais frequente de eletrônica e de tecnologias da informação, fomentando esses setores e gerando necessidade de uma infraestrutura, especialmente, na área de telecomunicações. As habilidades dos trabalhadores mudaram, demandando conhecimentos em informática e flexibilidade. Ao mesmo tempo, padrões de consumo se alteraram, vide a expansão das compras online e do consumo de entretenimento com os streamings. No âmbito internacional, a formação de cadeias globais de valor espalhadas ao redor do mundo e a ampliação do comércio mundial se tornaram a norma pós-1980. 

A transição para um novo paradigma nas décadas de 1980 trouxe desafios estruturais: escassez de mão de obra qualificada em algumas regiões, gerando desemprego, e capacidade ociosa em países especializados no modelo anterior. Isso impulsionou mudanças institucionais e sociais, como horários flexíveis, requalificação profissional e políticas regionais de fomento tecnológico. Ao mesmo tempo, o emprego industrial nos países desenvolvidos foi substituído por automação e profissionais mais qualificados em tecnologia da informação. 

Após a crise de 2008 e a dificuldade de sustentar a expansão econômica nos países desenvolvidos, surgem dúvidas, baseadas nas análises de Carlota Perez, se a economia mundial não estaria em uma crise estrutural. A emergência de novas tecnologias como a Inteligência Artificial e a Nanotecnologia sugere a iminência de um novo paradigma tecnológico e, consequentemente, um novo ciclo de Kondratiev. No entanto, mesmo com otimismo em relação a essa transição, a superação dos desafios sociais, econômicos e ambientais dependerá da construção de uma nova estrutura socioeconômica adaptada a esse paradigma. Até que isso ocorra, o mundo enfrentará intensificação de problemas, o que, para Carlota Perez, não aponta para respostas otimistas diante da urgência global.

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