Os Ciclos de Kondradiev indicam ondas longas de crescimento econômico (entre 40 a 60 anos) em que expansões são sucedias por colapsos. Desse modo, a dinâmica capitalista se move em ciclos, decorrente das mudanças de padrões tecnológicos e investimentos. Considera-se que o primeiro ciclo esteve associado ao motor a vapor (1780-1830), seguido do aço/ferrovias (1830-1880), eletricidade/química (1880-1930), automóveis/petróleo (1930-1970), tecnologia da informação (1970-2010). Atualmente, estima-se que um novo ciclo está associado à nanotecnologia e tecnologia voltada para meio ambiente, podendo, também, considerar a inteligência artificial. Porém, nota-se que a menção aos ciclos não indicam como se dá esse processo de expansão/crise e como as mudanças tecnológicas causadoras desses ciclos se vinculam à estrutura institucional social-econômica.
Uma das principais autoras que busca conciliar mudança tecnológica e a institucionalidade socio-econômico, é Carlota Perez. Nos artigos, "Structural change and assimilation of new Technologies in the economic and social systems" (Futures, Vol.15, No.5, 1983) e "Structural crises of adjustment, business cycles and investiment behaviour" (junto a Christopher Freeman, publicado no livro Technical change and economic theory. London: Pinter, 1988), ela fornece um arcabouço teórico para compreender a forma como a mudança tecnológica impacta os ciclos econômicos. O argumento principal é de que ciclos longos de Kondratiev não são um fenômeno especificamente econômico, mas refletem a compatibilidade ou incompatibilidade com o sistema econômico no que tange a estruturas institucionais e sociais. Nesse sentido, expansões econômicas surgem da compatibilidade entre o avanço tecnológico revolucionário e as instituições, enquanto as crises emergem da ruptura entre a tecnologia e a sua adequação institucional e social.
Quando se refere a mudança tecnológica, Carlota Perez faz uma distinção importante entre inovação incremental e inovação radical. A primeira se refere a inovações que aperfeiçoam o processo produtivo e os produtos já existentes. A segunda está circunscrita à introdução de produtos, insumos básicos e/ou processos produtivos novos. É impossível que a inovação radical venha de esforços para melhorar uma tecnologia já existente. Por exemplo, a energia nuclear não poderia ter surgido das usinas elétricas movidas a combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, a inovação radical faz com que surjam novas indústrias diferentes das anteriores e novos produtos tidos como revolucionários (exemplo típico é a televisão). Nesse sentido, a inovação radical é capaz de iniciar um curso tecnológico (um novo ciclo de Kondratiev), promovendo o que Schumpeter chamava de destruição criativa.
As inovações radicais não são isoladas, ao contrário, elas promovem um conjunto de transformações (constelação de inovações, segundo Christopher Freeman) que impactam diversos setores. A indústria petroquímica ilustra bem isso, com múltiplos sistemas interligados em produtos e processos. Por exemplo, as fibras sintéticas revolucionaram as indústrias têxtil e de vestuário. Já os plásticos, como materiais estruturais, geraram novos equipamentos (extrusão, moldagem, corte) e transformaram a indústria de embalagens, além de impulsionar inovações em produtos descartáveis. A tecnologia da informação permitiu surgimento de computadores, serviços de aplicativos, autonomização dos processos produtivos, gestão interconectada das cadeias de suprimentos, dentre outros produtos e processos.
Desse modo, conforme argumenta Perez, a difusão de um sistema tecnológico (ou constelação de inovações) não se circunscreve apenas do ponto de vista técnico, mas traz consigo transformações organizações e administrativas (como, por exemplo, a gestão e a organização empresarial e do trabalho), assim como mudanças institucionais e sociais importantes (distribuição de renda, ocupação, emprego e política econômica e de regulação estatal). Consequentemente, Perez divide o sistema econômico em dois subsistemas: de um lado, o técnico-econômico, e, de outro lado, o social-institucional, sendo que o primeiro cresce mais rápido do que o segunda, pois a capacidade da institucionalidade social em se adaptar às mudanças tecnológicas é mais lenta. As ondas longas dos ciclos representam modos diversos de desenvolvimento. A causa fundamental dessa dinâmica é motivação do lucro como gerador de inovações na esfera produtiva, visando aumentar a produtividade e aumentar as expectativas de lucros de novos investimentos. Cada modo de desenvolvimento é configurado de acordo com um determinado estilo tecnológico, ou seja, um paradigma tecnológico.
Uma interação positiva entre a estrutura técnico-econômica e a estrutura social-institucional promove uma dinâmica complementar dentro de cada paradigma tecnológico, de modo que a fase ascendente do ciclo de Kondratiev reflete essa harmonia entre as duas estruturas até um ponto em que os lucros não são mais suficientes, de modo que esse paradigma esbarra em certos limites para avançar, ocasionando esgotamento e início de uma crise estrutural. Para superar esses limites, por intermédio de sucessivos processos de tentativa e erro, surge um novo estilo tecnológico na esfera produtiva, com o qual a estrutura sócio-instuticional existente não é capaz de lidar, visto que ela se torna obsoleta para lidar com novos desafios. Essa tensão entre um novo paradigma que está para surgir e a estrutura institucional se concretiza na fase descendente do ciclo, ocasionando uma crise estrutural. E aqui, Perez discute um ponto fundamental: a destruição criativa não ocorre apenas no âmbito econômico, mas no âmbito social e institucional.
A partir dessa tese, Perez desenvolve seu modelo explicativo. Ela parte do conceito estilo tecnológico, o qual pode ser interpretado como sinônimo de paradigma tecnológico. Ambos conceitos se referem a um tipo “ideal” de organização da produção ou senso comum tecnológico, o que garante uma dinâmica estável no que tange à estrutura de custos para um dado período. As empresas, nesse momento de constituição do paradigma tecnológica, se utilizam do “senso comum” de organização da produção, entendido como o meio mais racional e eficiente de tirar vantagem de sua estrutura de custo. O estabelecimento de um paradigma tecnológico está relacionado a uma constelação de inovações, técnicas e administrativas, promovendo um aumento de produtividade muito superior ao paradigma anteriormente vigente. Quando a eletricidade emerge como novo paradigma tecnológico, os custos das empresas se reduziram, ao mesmo tempo, em que foi possível desenvolver novos produtos e setores em comparação ao motor a vapor.
Uma paradigma tecnológico para ser considerado como tal precisa atender a alguns requisitos: i) reduzir de custos, ii) expandir significativamente a oferta, iii) aplicação universal, isto é, atender a economia como um todo. Como resultado da emergência de um novo paradigma tecnológico, algumas características se concretizam no sistema econômico:
- novas formas de organização produtiva;
- novas habilidades da força de trabalho;
- novos produtos baseados nessa nova tecnologia redutora de custos;
- novas tendências de inovações radicais e incrementais;
- novo padrão de localização do investimento em termos nacionais e internacionais;
- ondas de investimentos em infra-estrutura para lidar com as externalidades positivas e facilitar o uso dessas novas tecnologias;
- tendência de novas pequenas empresas adentrarem no mercado, substituindo outras, e se expandindo, podendo até mesmo desenvolver novos setores;
- um novo padrão de consumo;
- tendência das grandes empresas se concentrarem.
É apenas com o estabelecimento de um paradigma tecnológico que um determinado insumo – que cumpre esses requisitos – pode ser “maximizado”, isto é, ser utilizado em pleno potencial. O aparecimento de um novo paradigma tecnológico acontece no momento de queda no ciclo de Kondratiev. As transformações que esse novo paradigma gera em termos de econômicos precisa ser complementado por transformações sociais e institucionais.
Inicialmente, esse novo paradigma tecnológico ainda é incompatível com a estrutura socio-econômica, de modo que ainda não se configura uma novo Ciclo de Kondratiev, a partir da fase ascendente. Somente quando a estrutura tecnológica for compatível com a estrutura institucional é que o crescimento econômico se torna harmônico, a ponto de constituir um processo de expansão ascendente do ciclo, superando, de vez, o ciclo anterior e, portanto, resolvendo sua crise. Em síntese, junto ao novo paradigma tecnológico, se estabelecem novos padrões de comércio (interno e externo), de investimento, consumo, emprego e distribuição de renda, configurando um tipo de padrão de crescimento e desenvolvimento econômico. O ponto alto do ciclo apresenta característica de euforia econômica muito forte e de curta duração, mas que, aparentemente, promete crescimento sem fim, criando as sementes para futura crise.
A fase descendente do ciclo de Kondratiev mostra a exaustão das novas tecnologias e das oportunidades de investimento associadas ao paradigma tecnológico, afetando os ramos “principais”, assim como faz com que as vantagens de custos dos “setores secundários” caiam em decorrência do estreitamento dos mercados. Em razão da contração dessas novas tecnologias, que vão se tornando cada vez mais obsoletas, há forte pressão na busca de novas formas de organizar a estrutura produtiva, ou seja, encontrar novas tecnologias capazes de suplantar os limites impostos pelas antigas. Dessa forma, a fase descendente é representativa no que se refere à exploração de novas soluções, novas tecnologias, novas formas de organização e estruturação produtiva. Porém, essas soluções são incompatíveis com a estrutura social-econômica, de modo que a sua inserção tende a gerar desemprego, baixo crescimento e prejuízos para os países que não se inserem de modo virtuoso no cenário internacional. Por exemplo, novos processos produtivos, advindos de novas tecnologias, requerem novas habilidades dos trabalhadores, assim como novas formas de organização das cadeias produtivas.
O período de transição, isto é, o momento de crise, é caracterizado por uma profunda mudança econômica e requer transformações sociais e institucionais. O início de uma prolongada depressão indica o aumento do grau de incompatibilidade entre o novo paradigma que está para se estabelecer e o antigo arcabouço social-institucional. Faz-se necessária uma nova acomodação política, social e institucional ao novo quadro. Isso ocorre por meio de um processo de busca e descoberta do ponto de vista político e social. Quando isso ocorre, atinge-se a compatibilidade entre paradigma e as instituições sociais, abrindo espaço para uma fase ascendente do ciclo, com novas oportunidades lucrativas de investimento.
O lucro é o propulsor da busca tecnológica, e o paradigma tecnológico é o mecanismo de direção (para onde a economia vai). Dentro de cada paradigma há uma forma ideal de organizar o trabalho, por exemplo, o taylorismo como base da II Revolução Industrial e do consumo de massa. Essa mudança na estrutura ocupacional promove transformações na distribuição de renda, o que, consequentemente, impacta a configuração da demanda. Essa cadeia de eventos gera sinalização dos investimentos que as firmas precisam realizar para atender às demandas do mercado, ou seja, sinaliza quais mercados estão ou têm potencial crescimento.
Do ponto de vista histórico, Perez utiliza como exemplo o padrão de crescimento econômico pós-II Guerra Mundial, baseado na produção de consumo em massa. A expansão extraordinária foi baseada na compatibilidade entre os requerimentos necessários para paradigma tecnológico fundado no consumo de massa e a estrutura social e institucional – vide, então, que a estrutura ocupacional, por exemplo, que favorecia o consumo de massa, especialmente, de bens duráveis. Mas essa combinação perfeita só veio a ocorrer após a crise de 1930. Isso porque, antes desse período, não estava claro como seria a compatibilização desse novo paradigma tecnológico com as estruturas sociais.
Entre as principais mudanças institucionais estava o aumento da participação do Estado na economia, especialmente, nas políticas de demanda. Por outro lado, outra mudança institucional foi o avanço da educação superior, necessária para formação dos trabalhadores “White-collors”. Outros elementos importantes foram emergência de novos métodos de crédito, propaganda, formas de comunicação em massa. A aceitação institucional dos sindicatos como representantes legais dos trabalhadores (especialmente nos ramos de transporte) favoreceu o crescimento do rendimento disponível e estimulou a aplicação de inovações incrementais poupadoras de mão-de-obra, em fábricas antigas ou em novos investimentos, ao longo da trajetória do paradigma tecnológico. No nível da empresarial, um novo "tipo ideal" de organização para empresas gigantescas surgiu com integração horizontal e um complexo sistema gerencial que permitia alcançar o tamanho ideal da planta sob um tamanho ótimo muito maior da empresa. No nível internacional, o acordo de Bretton Woods foi fundamental para regular o comércio internacional, e o Plano Marshall estimulou crescimento de novos mercados em diversos países.
Já a partir dos anos 1980, com o avanço da microeletrônica, Perez e Freeman defendiam que o paradigma baseado na tecnologia da informação intensificou as relações entre design, administração, produção e marketing dentro de um sistema integrado como uma sistematização. As empresas passaram a estruturar seu processo produtivo, por meio da informatização e flexibilidade (como os métodos just-in-time). A tendência (na época) era da utilização cada vez mais frequente de eletrônica e de tecnologias da informação, fomentando esses setores e gerando necessidade de uma infraestrutura, especialmente, na área de telecomunicações. As habilidades dos trabalhadores mudaram, demandando conhecimentos em informática e flexibilidade. Ao mesmo tempo, padrões de consumo se alteraram, vide a expansão das compras online e do consumo de entretenimento com os streamings. No âmbito internacional, a formação de cadeias globais de valor espalhadas ao redor do mundo e a ampliação do comércio mundial se tornaram a norma pós-1980.
A transição para um novo paradigma nas décadas de 1980 trouxe desafios estruturais: escassez de mão de obra qualificada em algumas regiões, gerando desemprego, e capacidade ociosa em países especializados no modelo anterior. Isso impulsionou mudanças institucionais e sociais, como horários flexíveis, requalificação profissional e políticas regionais de fomento tecnológico. Ao mesmo tempo, o emprego industrial nos países desenvolvidos foi substituído por automação e profissionais mais qualificados em tecnologia da informação.
Após a crise de 2008 e a dificuldade de sustentar a expansão econômica nos países desenvolvidos, surgem dúvidas, baseadas nas análises de Carlota Perez, se a economia mundial não estaria em uma crise estrutural. A emergência de novas tecnologias como a Inteligência Artificial e a Nanotecnologia sugere a iminência de um novo paradigma tecnológico e, consequentemente, um novo ciclo de Kondratiev. No entanto, mesmo com otimismo em relação a essa transição, a superação dos desafios sociais, econômicos e ambientais dependerá da construção de uma nova estrutura socioeconômica adaptada a esse paradigma. Até que isso ocorra, o mundo enfrentará intensificação de problemas, o que, para Carlota Perez, não aponta para respostas otimistas diante da urgência global.
Nenhum comentário:
Postar um comentário