quarta-feira, 25 de junho de 2025

O modelo Keynesiano-Clássico de curto e longo prazo de Duménil e Lévy (1999)

Desde a publicação da Teoria Geral de Keynes, em 1936, economistas têm buscado conciliar a novidade keynesiana, associada ao papel da demanda, com mecanismos tradicionais de equilíbrio geral neoclássicos (Walrasianos). Já em 1937, Hicks formulou o conhecido modelo IS-LM, cujo objetivo foi, justamente, realizar essa conciliação, a chamada Síntese Neoclássica. Nas décadas de 1980 e 1990, o ressurgimento do Keynesianismo com os modelos de rigidez de preços fez com que se instituísse uma nova síntese Neoclássica, segundo a qual, no curto prazo, a dinâmica econômica poderia sofrer com choques de demanda, mas, a longo prazo, prevaleceria mecanismos de equilíbrio geral, de modo que as restrições só poderiam advir das condições de oferta. 

No artigo "Being Keynesian in the short term and classical in the long run: Traverse to Classical Long Term Equilibrium", publicado na Manchester School, vol.67, No.6, de 1999, Gérald Duménil e Domenique Lévy buscam conciliar o equilíbrio keynesiano com o equilíbrio clássico (nesse caso, não associado à teoria neoclássica, mas a economistas clássicos). Segundo os autores, os keynesianos lidam com a problemática da demanda efetiva e equilíbrio para diversos níveis de utilização da capacidade produtiva. Por outro lado, os clássicos (e aqui eles consideram Marx) lidam com equilíbrio em taxas de lucro equalizadas, preços de produção, e plena utilização da capacidade (uso normal da capacidade produtiva). Nesse sentido, o objetivo do artigo é discutir a relação entre Keynesianos e clássicos, por meio de uma diferenciação temporal: curto (Keynesiano) e longo prazo (Clássico).  

Como os autores afirmam, já existem modelos que relacionam temporalmente curto e longo prazo, denominados de modelos de travessia (traverse model). Nesses modelos, a economia sofre um choque a curto prazo e retoma sua trajetória no longo prazo. Nos modelos keynesianos, o equilíbrio de curto prazo converge para o equilíbrio keynesiano de longo prazo, no qual os recursos são plenamente utilizados. Nos modelos walrasianos, equilíbrios de curto prazo, via “market clearing”, levam ao equilíbrio estático de longo prazo.  Assume-se, inicialmente, que a economia está em desequilíbrio, de modo que há algum choque de oferta ou demanda (preços, tecnologia, distribuição). No equilíbrio de longo prazo clássico, a taxa de lucro é uniforme, os preços são iguais aos preços de produção - não há lucro econômico -, e o nível de utilização da capacidade converge para seu valor normal. No equilíbrio keynesiano, o ajuste entre oferta e demanda se dá via grau de utilização da capacidade.

São considerados quatro mecanismos de ajuste. O primeiro está associado à oferta e demanda, ao grau de utilização da capacidade, e à dinâmica de preços: os preços são constantes no curto prazo e o ajuste entre oferta e demanda se dá via ajuste da utilização na capacidade. No longo prazo, as empresas, as quais são price-makers, alteram os preços de acordo com o valor do grau de utilização da capacidade, portanto, há um mecanismo de preços que corrige as distorções, e o grau de utilização retorna ao seu nível normal. 

No segundo, a curto prazo, o estoque de capital é dado e há diferencial de lucratividade entre as empresas. Dado o diferencial, os capitalistas irão investir em segmentos com maior lucratividade, reequilibrando os lucros - convergência das taxas de lucro. No terceiro, ainda a curto prazo, o investimento é parcialmente exógeno. Contudo, a longo prazo, o componente exógeno se torna endógeno no longo prazo. Segundo os autores, o principal componente da dinâmica a longo prazo é mecanismo financeiro/monetário, ou seja, é a restrição financeira. E por fim, o crédito permite expandir o investimento para além de suas capacidades normais. Porém, a capacidade de fornecimento de crédito é controlada pela reação das autoridades monetária e de crédito pela inflação. Nesse caso, as variações de preços moldam a oferta e o estoque de moeda, consequentemente, a capacidade de financiamento das empresas.  

Nos modelos de travessias, são formados equilíbrios temporários e consideram-se dois grupos de variáveis: as de longo prazo e as de curto prazo. As de longo prazo se ajustam lentamente, sendo elas estoque de capital, estoque de dinheiro e preços. Já variáveis de curto prazo são a demanda, produto, e estoques de bens. Para um dado valor das variáveis de longo prazo, há um equilíbrio para o grau de utilização da capacidade e outras variáveis de curto prazo.  

No arcabouço keynesiano, o investimento e o consumo são funções do produto corrente. Além disso, o consumo segue a lógica Kaleckiana em que os salários são inteiramente consumidos e os lucros são parcialmente consumidos. O equilíbrio ocorre no ponto em que se verifica igualdade entre oferta e demanda. Assume-se que os preços são dados no curto prazo (rigidez de preços e salários), portanto, o ajuste entre oferta e demanda se dá via uso da capacidade. Por exemplo, se a demanda aumenta, ao invés de os preços subirem, as empresas elevam a sua produção, utilizando sua capacidade ociosa. Com a realização do ajustamento, obtém-se nível de utilização de capacidade de equilíbrio, a qual pode divergir do grau normal de utilização da capacidade, definido como o nível desejado pelas empresas de grau de utilização. Do ponto de visto do equilíbrio de longo prazo, essa situação, em que se verificam diferenças entre os valores correntes e normais, representa desequilíbrio.  

Na perspectiva clássica, a diferença entre oferta e demanda representa mudanças nos preços. Desse modo, os preços que as firmas fixam depende do diferencial do valor corrente e normal do grau de utilização da capacidade, cujo ajuste pode ser expresso por um coeficiente de reação (δ). Assume-se que o salário real é constante, de modo que as variações nos salários reais acompanham mudanças nos preços. O salário nominal é ajustado de modo que o salário real corresponda aos novos preços. Esse ajuste de preços, diante de desequilíbrios, não indica o “market clearing”, pois os clássicos denominavam esse preço que ocorre no desequilíbrio de preço de mercado, o qual difere do preço de equilíbrio no longo prazo. A demora no ajustamento dos preços ajustar é central na perspectiva Novo-Keynesiana. O principal conceito de preço de equilíbrio, nos clássicos, é aquele referente ao preço vigente ao nível normal do grau de utilização. 

No que se refere ao investimento, os autores criticam a perspectiva Kaleckiana-Steindeliana de longo prazo. Isso porque, nessa abordagem o equilíbrio de longo prazo não é compatível com o grau de utilização normal. Isto é, nessa abordagem, pode-se verificar um equilíbrio macroeconômico, em que o grau de utilização corrente é diferente do grau de utilização normal. Uma função Kaleckiana-Steindeliana de investimento é dada por um componente exógeno e pelo diferencial no grau de utilização atual e normal (chamado efeito acelerador). Nesse caso, se o grau de utilização corrente supera o grau normal, isso é um indicativo de demanda aquecida, estimulando o investimento empresarial. Contudo, de um lado os autores apontam que essa função investimento é válida para o curto prazo, mas, de outro lado, discordam que ela valha para o longo prazo, pois esse comportamento não se sustenta no longo período. Isto é, a longo prazo, o grau de utilização converge para o nível normal, tornando-o inócuo como explicação para a determinação do investimento. 

Isso porque, em primeiro lugar, a diferença entre o grau normal e atual da utilização da capacidade leva a variações no investimento, o que leva o grau de utilização para seu valor normal. Em segundo lugar, o componente exógeno é visto como expectativa de crescimento da demanda. O investimento irá crescer com a expectativa de demanda sempre que o nível de capacidade de utilização estiver em seu nível normal. Se o grau atual superar o grau normal, o estoque de capital crescerá acima da demanda ao longo tempo, de modo que o grau de utilização irá se reduzir até o nível normal, aquele desejado pelas empresas.  Em terceiro lugar, a partir da perspectiva clássica de acumulação de capital, o investimento está sujeito à restrição financeira. Desse modo, o investimento é limitado pelas condições financeiras. Isso pode ser visto por meio de três mecanismos pelos quais o investimento é financiado: a) finanças diretas: emissão de títulos e ações; b) intermediação: intermediários financeiros, como fundos de investimento, que captam poupanças; c) empréstimos bancários. A abordagem clássica enfatiza os dois primeiros elementos, pois a poupança determina o investimento e negligencia o terceiro, algo mais associado ao keynesianismo. Os autores ressaltam a importância do crédito bancário, mas levam em conta os dois mecanismos de financiamento clássicos.  

A partir da construção do modelo, os autores assumem que as empresas utilizam tecnologias com coeficientes fixos e há retornos constantes de escala. Assume-se ampla disponibilidade de trabalhadores no mercado de trabalho, de modo que não se verifica pleno emprego nem a curto nem a longo prazo. A taxa de lucro depende da tecnologia, distribuição e grau de utilização em cada indústria. O investimento é determinado por a) um componente exógeno (o que Keynes denominaria de espírito animal), b) pelo estoque de moeda (a qual a curto prazo é exógena) e c) pela diferença entre grau de utilização corrente e grau de utilização normal. Os salários são totalmente consumidos, enquanto apenas uma fração (1-s) é consumida dos lucros. Essas duas variáveis, I e C, definem a demanda da indústria.  No equilíbrio keynesiano, as variáveis de longo prazo são: preços, estoque de capital e estoque de moeda. O equilíbrio é dado por oferta e demanda. O valor das variáveis de curto prazo, ρ (crescimento do estoque de capital), grau de utilização da capacidade e taxa de lucro são funções de variáveis de longo prazo.  

O equilíbrio clássico é definido quando se verifica igualdade entre o grau de utilização corrente e grau de utilização normal, e pela equalização das taxas de lucro entre as indústrias (pressuposto importante é de que há plena mobilidade de capital entre os setores). Desse modo são determinados os valores de equilíbrio dos preços de produção (os preços relativos), taxa de lucro e a taxa de crescimento. 

Na abordagem keynesiana, o investimento determina os lucros, de modo que um aumento exógeno no estoque de moeda é seguido de aumento dos lucros, via elevação do investimento. Isto é, uma política monetária expansionista reduz a taxa de juros, estimulando o investimento. No equilíbrio de longo prazo, é a fração poupada dos lucros que determina o investimento (a acumulação de capital), visto que tanto o estoque de moeda atingir um patamar de equilíbrio e o grau de utilização tende ao seu nível normal. A taxa de lucro é determinada pela tecnologia e pelo salário real e não pela demanda. Em seguida, a taxa de crescimento depende da taxa de lucro. A perspectiva clássica de acumulação de capital segue essa lógica.  

No curto prazo, verifica-se um estoque de moeda que difere do equilíbrio e os lucros são impactados por meio do investimento (ou seja, verifica-se a não-neutralidade da moeda). No longo prazo, o estoque de moeda se direciona a um nível de equilíbrio, o que faz com que o investimento dependa da quantidade de poupança ao nível normal de utilização da capacidade. No longo prazo, portanto, só pode haver crescimento do investimento com aumento na poupança ou queda do salários. Em síntese, o grau de utilização da capacidade converge ao nível normal, por isso não há efeito acelerador. Por outro lado, na perspectiva keynesiana, o investimento pode crescer com um aumento exógeno da moeda.

Os autores consideram caso em que haja mudança nos salários reais. No curto prazo, um aumento nos salários reais fomenta o grau de utilização da capacidade corrente acima do grau normal de utilização no setor industrial, assim como a taxa de lucro, a capacidade média de utilização e o investimento, isso porque, tanto a demanda corrente quanto a expectativa de demanda crescem. Portanto, há efeitos positivos sobre o crescimento econômico. Por outro lado, a longo prazo, um aumento do salário real não afeta o grau de utilização da capacidade, pois esta volta para o seu nível normal; a taxa de lucro será menor, o que reduzirá o crescimento econômico.  

Nesse sentido, a curto prazo, aumento no estoque de moeda estimula a demanda, o que é percebido pelo aumento do grau de utilização corrente em relação ao grau normal de utilização. Esse efeito acelerador estimula o investimento e, consequentemente, o crescimento econômico. Porém, conforme a demanda cresce, o nível de preços aumenta, o que reduz o estoque real de moeda (M/P) até que se atinja um patamar de equilíbrio. Consequentemente, há menos recursos financeiros para o financiamento do investimento, diminuindo-o até um nível de equilíbrio. Ao mesmo tempo, a longo prazo, o aumento inicial de investimento e da capacidade produtiva acima da demanda faz com que o grau de utilização se reduza até o nível normal. Nota-se que, a longo prazo, o investimento dependerá apenas da poupança e não mais do grau de utilização e do estoque de moeda. 

Em seguida, eles analisam o efeito de mudanças na poupança. No curto prazo, uma queda na poupança fomenta o efeito acelerador do investimento, haja visto que estimula a demanda da economia. No longo prazo, tal como expresso pelo mecanismo acima, o nível de preços cresce, reduzindo o estoque de moeda e desestimulando o investimento, assim como o grau de utilização opera retorna ao seu nível normal. Consequentemente, a longo prazo, a demanda não exerce efeito sobre o investimento e sobre a taxa de lucro. Em contraposição, como o investimento depende da poupança no equilíbrio de longo prazo, se ela é reduzida, o nível de investimento será menor, tal como o crescimento econômico. 

No modelo, a curto prazo a moeda afeta a economia (não-neutralidade da moeda). Já no longo prazo, a moeda é neutra, ou seja, não afeta o crescimento econômico, via investimento. A moeda exerce um efeito desestabilizador, por meio de uma resposta pró-ciclica em relação à divergência entre grau normal e o atual da utilização da capacidade. Contudo, esse mesmo mecanismo estabiliza a economia, por meio de um movimento contracíclico, via inflação. A condição de estabilidade é que o parâmetro inflacionário é mais forte do que o do grau de utilização da capacidade, ou seja, o efeito contracíclico é mais intenso.  

A discussão sobre se a economia gravita em torno de um equilíbrio de longo prazo é polêmica, pois, como afirmam os autores, os Keynesianos não gostam dessa ideia. Já eles apontam que há forças que levam a economia para um equilíbrio de longo prazo em que vigora grau normal de utilização da capacidade (aquele desejado pelas firmas). Nesse sentido, observa-se que são fatores de oferta que impactam o investimento e o crescimento, como a poupança.

Duménil e Lévy argumentam que é possível obter desvios largos e sistemáticos no equilíbrio de longo prazo. Isso porque, em primeiro, primeiro os mecanismos monetários estabilizadores (de preços e de convergência do grau de utilização normal) são limitados e a convergência para o longo prazo é demorada, ou seja, os mecanismos contracíclicos podem ser inadequados em um período mais curto. Em segundo lugar, os mecanismos monetários podem ser imperfeitos, haja visto que inovações financeiras podem fornecer recursos para os investimentos produtivo a uma capacidade superior ao impacto de aumento dos preços sobre o estoque de moeda. Desse modo, os parâmetros do investimento e do estoque de moeda podem não ser constantes, isto é, a não-neutralidade da moeda pode ser verificada em períodos mais extensos. Em terceiro lugar, a política econômica pode buscar outros valores alvo diferente daquele do equilíbrio, portanto, ela pode ser mais expansionista, afetando a economia por mais tempo. Assim, a economia pode desviar do nível normal de utilização da capacidade por uma extensão grande de tempo.

Por fim, os autores apontam que as explicações sobre as flutuações se concentram em dois pontos. O primeiro é o lento movimento de sequencias de equilíbrio de curto prazo, ou seja, a gravitação em torno do equilíbrio de longo prazo. Segundo, quanto mais rápidas as flutuações na sequencia de equilíbrios de curto prazo, haverá períodos de equilíbrio e desequilíbrios. 

Em síntese, esse modelo proposto por Duménil e Lévy busca conciliar o keynesianismo a curto prazo e teoria clássica a longo prazo. No curto prazo, a demanda impacta o investimento e o crescimento econômico, em virtude do fato de que tanto o estoque de moeda quanto o grau de utilização divergem de seus valores normais de equilíbrio. Por outro lado, no longo prazo, o mecanismo de preços e o ajuste da capacidade produtiva fazem com que a economia retorne aos seus níveis normais. Consequentemente, a determinação do investimento (e a taxa de lucro) e do crescimento econômico dependem apenas das condições de oferta, como a poupança. As flutuações econômicas representam essas divergências entre as variáveis de seus patamares normais de equilíbrio, assim como, devido à demora temporal e eventuais imperfeições, o ajustamento para o equilíbrio de longo prazo pode demorar. Mais uma tentativa, mais moderna, de conciliar a revolução keynesiana dos anos 1930 com a teoria clássica (e neoclássica) de equilíbrio. 


 

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