Distribuição de renda é um tema bastante discutido na à teoria econômica e na formulação de políticas públicas. Os estudos de Thomas Piketty que culminaram no livro "O Capital no século XXI", publicado em 2014, apontaram para a crescente desigualdade nos países desenvolvidos, colocando a problemática em destaque. As diversas propostas de taxação dos mais ricos, como a taxação global defendida por Gabriel Zucman, são resultados da relevância do tema. O papel da distribuição de renda pode ser observada sob os mais diversos ângulos, desde análise sobre bem-estar, efeitos sociais, políticos e eficiência econômica.
A literatura denominada de Kaleckiana (Neo-Kaleckiana ou pós-Kaleckiana), inspirada nos trabalhos de Michal Kalecki, busca evidenciar os efeitos de mudanças na distribuição de renda sobre o crescimento econômico. Em um dos artigos seminais sobre o tema, "Stagnation, income distribution and monopoly power", publicado na Cambrdige Journal of Economics em1984, Amitava Dutt desenvolve um modelo, cujo intuito é mostrar que a má distribuição de renda na Índia era uma das causas da estagnação econômica, em particular, no setor industrial, do país desde os anos 1960 até os anos 1980.
O autor assume como pressuposto, mas que é confirmado por fatos estilizados da Índia, da existência uma estrutura industrial, caracterizada como monopolista ou oligopolista. Nesse sentido, são duas consequências importantes. A primeira delas é que esse tipo de estrutura concorrencial implica em maior poder de determinação dos preços por parte das empresas. Ao invés da plena flexibilidade de preços, baseadas apenas na oferta e demanda, as grandes empresas adotam uma regra de mark up sobre os custos no processo de fixação de preços. Quanto maior o grau de oligopolização da estrutura industrial, maior o poder que as firmas têm de elevar os preços, por intermédio de um mark up mais elevado. A segunda consequência é a de que o ajustamento entre oferta e demanda, dado um choque exógeno, se dá pelo uso da capacidade instalada (isto é, elevando ou diminuindo a quantidade produzida) e não pelos preços (como ocorre na livre concorrência). Isto significa que, diante de uma queda na demanda, as empresas reduzem a sua produção ao invés de diminuir os preços para restaurar o consumo. A terceira consequência, derivada desta última, é que as grandes empresas sempre operam com capacidade ociosa para lidar com eventuais choques na demanda.
No modelo de Dutt, o pressuposto de que as empresas operam com capacidade ociosa implica que, diante de uma superoferta de trabalhadores, evidencia-se desemprego involuntário (trabalhadores que desejam ofertar sua mão-de-obra pelo salário vigente, mas não encontram emprego). Portanto, o autor assume que em economias oligopolizadas não há pleno uso dos fatores-de-produção, semelhante à abordagem Keynesiana, segundo a qual as restrições estão na demanda e não na oferta (ao contrário de corolários mais liberais ou ortodoxos).
A abordagem proposta por Dutt foi considerada Kaleckiana, posteriormente, devido à forma como se dá a distribuição funcional (entre lucros e salários) da renda. Tal como Kalecki considerava, as firmas, ao fixarem os preços por meio do mark up, influenciam essa distribuição funcional da renda. Supondo que o poder de monopólio seja forte, devido a fatores institucionais, as empresas podem fixar um mark up mais alto, o que implica em aumento no nível de preços (sem que haja mudanças proporcionais na oferta e demanda). Os salários reais (relação salário nominal/preços) caem, ocasionando uma contrapartida elevação dos lucros na renda. Portanto, no modelo apresentado, evidencia-se uma relação positiva entre mark up e a parcela dos lucros na renda. Ou seja, quanto mais monopolizada/oligopolizada uma economia, o que depende de fatores institucionais, como, por exemplo, política de enfraquecimento dos sindicatos, maior a tendência da renda ser direcionada à classe capitalista em detrimento dos trabalhadores.
Tal como em uma abordagem keynesiana, Dutt assume existência de duas classes sociais: os trabalhadores, os quais consomem toda sua renda (salários), enquanto os capitalistas consomem apenas uma fração dos lucros obtidos. Portanto, a propensão a consumir da primeira classe é superior à segunda, o que é verificada pelos fatos estilizados apresentados para o caso indiano. O consumo total depende da somatória do consumo dessas duas classes. O investimento depende positivamente de três fatores: i) componente autônomo, denominado de espírito animal dos capitalistas; ii) da taxa de lucro, como uma sinalização da lucratividade do investimento; iii) do grau de utilização da capacidade, vista como uma proxy para demanda.
Depois de diversas formulações matemáticas para encontrar variáveis de equilíbrio e de estática, Dutt analisa os efeitos de mudanças na distribuição de renda sobre o crescimento econômico, considerando inicialmente uma economia fechada e sem governo. Se por algum motivo institucional e/ou econômico o poder das firmas aumenta, o mark up se eleva, pressionando para cima o nível de preços. Consequentemente, a parcela dos lucros na renda cresce em proporção superior a dos trabalhadores. O efeito dessa mudança na distribuição funcional da renda sobre o crescimento econômico é transmitido pelo seu impacto negativa sobre a demanda e a taxa de lucro (taxa de lucro é Lucro/Capital; a parcela do lucro é dada por Lucro/Renda), o que leva à redução do investimento. De um lado, como há uma distribuição de renda para a classe com menor propensão a consumir, o consumo se contrai, gerando um efeito negativo sobre o grau de utilização das empresas. Nesse sentido, elas irão diminuir seu investimento, em virtude da demanda mais enfraquecida. Por outro lado, como o volume de vendas cai, as perspectivas de lucro presentes e futuros do investimento diminuem, desestimulando as decisões de investimento. Nesse caso, há um paradoxo: de um lado, por mais que os capitalistas recebam maior fatia da renda, isso ocasiona redução da demanda e, portanto, da sua taxa de lucro.
A conclusão de Dutt, nesse primeiro momento, é de que uma piora na distribuição de renda (em prol de uma maior desigualdade social) gera uma tendência de estagnação do crescimento econômico, por intermédio de efeitos negativos sobre a demanda e o investimento. Para o autor, a estagnação industrial indiana, no período analisado, é reflexo, justamente, da tendência da crescente oligopolização da sua estrutura produtiva. Os resultados apontados pelo modelo, inclusive, se mostram contrários à perspectiva adotada pelos Keynesianos de Cambridge dos anos 1960, para os quais, uma distribuição de renda para os capitalistas poderia estimular o crescimento ao aumentar a poupança disponível.
Em seguida, Dutt incorpora o governo para analisar qual o efeito de uma política tributária progressiva sobre renda no crescimento econômico. Assumindo um déficit fiscal zero, se o governo diminuir os impostos sobre os trabalhadores e aumentando sobre os capitalistas, o efeito líquido na tributação é neutra, mas ocasiona uma distribuição de renda para a classe trabalhadora, cuja propensão a consumir é mais alta. Isso estimulará a demanda, consequentemente, aumenta o grau de utilização das empresas e a taxa de lucro, favorecendo novas decisões de investimento e promovendo o crescimento econômico. Essa conclusão se mostra contrária à visão de que reduzir impostos para os mais ricos (ou empresas) é benéfico para o crescimento econômico, ao contrário, leva a uma estagnação. Nesse sentido, o modelo de Dutt se encaixa muito bem com a justificativa de que tributar os mais ricos pode ser benéfico para a economia como um todo.
Por outro lado, esse vínculo positivo entre menor desigualdade social e crescimento econômico pode ser rompida no contexto de uma economia aberta. Isso porque, caso a economia apresente uma alta abertura comercial, uma queda no mark up terá dois efeitos, um positivo e outro negativo. Em primeiro lugar, uma queda no mark up levará a uma queda no nível de preços domésticos, ocasionando uma desvalorização real da moeda (aumento real da taxa de câmbio). Caso a elasticidade-preço das exportações seja alta, essa desvalorização promoverá um forte aumento das exportações, o que terá efeito positivo sobre o crescimento, potencializando o efeito doméstico de um aumento na demanda dos trabalhadores. Em segundo lugar, a expansão econômica, promovida pela melhora na distribuição, pode estimular o aumento das importações, caso a elasticidade-renda das importações seja alta, gerando um vazamento de renda para o exterior. Se isso levar a uma deterioração do saldo comercial, o efeito sobre o crescimento econômico pode ser negativo. Nesse caso, se o segundo efeito prevalecer sobre o primeiro, e, principalmente, se esse efeito externo negativo suplantar o efeito doméstico positivo, então, uma distribuição de renda para os trabalhadores terá impacto negativo sobre o crescimento econômico. Mas, esse é um caso específico dentro do modelo.
Outros autores desenvolver com maior rigor essa questão do setor externo. Para Dutt, à época do artigo, como a economia indiana era relativamente fechada em termos comerciais, os efeitos mencionados acima não seriam significativos, de modo que valeria apenas o efeito da demanda doméstica, decorrentes de mudanças na distribuição funcional da renda. Desse modo, a sua conclusão continuaria mantida. A questão da abertura econômica, futuramente, foi um dos pontos críticos apresentado por outros autores para rejeitar esse vínculo necessário entre menor desigualdade funcional da renda e crescimento econômico.
O estudo de Dutt aponta que medidas que promovam uma distribuição funcional da renda em prol da classe trabalhadora ajudariam a estimular o crescimento econômico, considerando uma estrutura produtiva oligopolizada. Nesse sentido, não apenas bem-estar social poderia ser atingido com políticas de distribuição, como a expansão econômica seria um resultado necessário. Dutt, portanto, nesse artigo em específico, defende medidas de diminuição da desigualdade, como tributação progressiva. A análise desse estudo mostra que melhor distribuição de renda não apenas pode ser uma questão de justiça, como é uma questão de estimular o crescimento econômico.
Outro excelente artigo, André!
ResponderExcluirPergunta: ele faz algum comentário sobre o envio de capital, quando assume a economia aberta? A depender da estrutura produtiva mais ou menos oligopolizada e mais ou menos nacional, os aumentos de lucro poderiam igualmente vazar para o exterior, deteriorando a posição externa e com efeitos sobre o câmbio.
Pergunto por curiosidade mesmo. Reparo que as análises costumam olhar o lado comercial das transações externas, relegando em segundo plano o lado financeiro.
Olá, João Valério, tudo bem? Obrigado pelo comentário. Não, nem Dutt, nem Blecker e nem o Bhaduri-Maglin, quando discutem economia aberta consideram o lado financeiro. Nos modelos Kaleckianos há uma deficiência nesse ponto (ao menos até onde eu saiba). Porém, nos chamados modelos Kaldorianos já se incorpora em alguns casos esse lado mais financeiro do BP. Tem um artigo do Moreno-Brid de 2003, denominado Capital flows, interest payments and the balance-of-payments constrained growth model: a theoretical and empirical analysis, que ele coloca como uma restrição ao BP o pagamento de juros, o que, nesse caso, limita o crescimento de equilíbrio. Mas, fora isso, os Kaleckianos focam mais no saldo comercial do nesse lado mais do que nas transações correntes de juros e lucro
Excluir