Nas abordagens Keynesianas e Kaleckianas tradicionais, verifica-se uma tendência na indicação de que uma redistribuição de renda em prol dos salários em relação aos lucros permite que se estimule a demanda agregada e, portanto, o crescimento econômico, haja visto que que a classe trabalhadora possui uma propensão a consumir superior a das classes capitalistas. No modelo Kaleckiano apresentado por Amitrava Dutt (resumido no texto: https://despensamentoseconomicos.blogspot.com/2025/02/crescimento-e-distribuicao-de-renda-na.html), um aumento na parcela dos salários na renda permite que, de um lado, estimule-se a demanda agregada, o que, por sua vez, afeta positivamente o uso da capacidade instalada, estimulando novos investimentos. Por outro lado, com a elevação das vendas, o montante dos lucros dos capitalistas, incentivando-os a investirem mais. Em síntese, há um duplo efeito positivo da distribuição de renda pró-salários no investimento. Se a renda é distribuída para a classe capitalista, então, a economia entra em um processo de estagnação.
Por outro lado, quando se incorpora o setor externo em tais modelos, o resultado se mostra mais complexo, pois, os efeitos positivos sobre a demanda agregada doméstica podem ser compensadas pelos efeitos deletérios sobre o setor externo, como perda da competitividade de preços, devido ao aumento dos custos salariais, e à elevação das importações, associada a uma renda nacional mais alta. Essa dupla combinação deteriora o saldo comercial, prejudicando o crescimento econômico doméstico caso tal economia seja dependente do setor externo. Caso não seja, então, os resultados Kaleckianos tradicionais continuam válidos, isto é, o crescimento da economia é liderado pelos salários (wage-led growth).
No trabalho seminal denominado "Unemployment and real wage: the economic basis for contesting political ideologies", publicado na Cambridge journal of Economics, v. 14, n. 4 em 1990, Amit Bhaduri e Stephen Maglin rejeitam a visão de que a única possibilidade de crescimento econômica, dada pela distribuição de renda, é do tipo wage-led growth. Nesse sentido, mesmo desconsiderando o setor externo, uma redistribuição de renda em favor dos lucros pode estimular o crescimento econômico ao contrário de levar à estagnação, como apresentado nos modelos tradicionais. Desse modo, abre-se espaço para um regime de crescimento liderado por lucros (profit-led growth).
Inicialmente, Bhaduri e Maglin apontam que os salários exercem um duplo papel na economia capitalista. De um lado, eles servem como fonte para financiar a demanda doméstica, enquanto, por outro lado, são custos para as empresas. Consequentemente, a variação dos salários exerce um impacto ambíguo para a dinâmica econômica. O objetivo do artigo é analisar, do ponto de vista macroeconômico, a relação entre salários, desemprego e crescimento econômico como uma forma de contestar certas visões políticas, como aquelas propostas pelos sociais-democratas de visão Keynesiana/Kaleckiana, segundo a qual seria possível conciliar as classes sociais, por intermédio de uma distribuição de renda para os trabalhadores, o que promoveria crescimento econômico e o montante dos lucros.
A apresentação do modelo se inicia com a determinação da poupança, a qual depende da propensão a poupar (s), da parcela dos lucros na renda (h) e do produto/produto potencial (z). Os preços são fixados de acordo com uma regra de mark up sobre os custos, isto é, mantém-se o pressuposto kaleckiano de estrutura oligopolista de mercado. A parcela dos lucros na renda está positivamente relacionado com o mark up. Isso porque, quanto maior o mark up, maior será o nível de preços, reduzindo os salários reais (w/p) e elevando a parcela dos lucros. Portanto, se verifica uma relação inversa entre margem de lucro (mark up) e o salário real.
A taxa de lucro (r) é decomposta levando em consideração: i) parcela dos lucros na renda, ii) grau de utilização da capacidade (u), e iii) inverso da relação produto potencial-capital, v. Portanto, aqui há uma ligeira diferença da taxa de lucro convencional apresentada tanto por Kalecki quanto pelos Kaleckianos, como Dutt que é a incorporação da parcela dos lucros, h, de modo que a taxa de lucro não reflete apenas considerações de demanda, mas, também, se incorpora eventuais efeitos da distribuição funcional da renda sobre a lucratividade.
A partir dessa diferenciação, Bhaduri e Maglin formulam uma função investimento que leva em conta o grau de utilização como uma proxy para mudanças na demanda, mas incorporam a parcela dos lucros na renda e não mais apenas a taxa de lucro, como no modelo de Dutt. Portanto, o investimento segue a seguinte fórmula: I = f(h, z). O grau de utilização afeta positivamente o investimento, pois, quanto maior a demanda, maiores os incentivos para realização de novos investimentos. Por outro lado, o profit share exerce um efeito positivo sobre o investimento, porque eleva o lucro por unidade produzida. Em síntese, de um lado, observa-se o efeito acelerador (relação positiva entre produto e investimento) e o efeito lucratividade (relação positiva entre parcela dos lucros e investimento).
Um aumento dos salários na renda afeta de maneira positiva a demanda e, portanto, o grau de utilização da capacidade estimulando o investimento de um lado, mas, ao reduzir a parcela dos lucros na renda diminui a lucratividade e pressiona negativamente o investimento por outro lado. Nesse sentido, mudanças na distribuição de renda afeta de modo ambíguo o investimento em contraposição ao efeito necessariamente positivo como nos modelos Kaleckianos tradicionais.
Essa ambiguidade faz com que surja a possibilidade de dois regimes de crescimento econômico, a partir de mudanças na distribuição funcional de renda. Se o efeito demanda (acelerador) sobre o investimento for mais forte do que o efeito lucratividade, um aumento da parcela dos salários na renda estimula a demanda contrabalanceando o efeito negativo da elevação dos custos, estimulando o investimento. Nessa verificação de uma relação positiva entre parcela dos lucros e investimento, obtém-se um regime do tipo Wage-Led Growth. Se o efeito lucratividade no investimento for mais intenso do que o efeito demanda, então, um aumento na parcela dos lucros reduz os custos, elevando os lucros por unidade produzida, de modo que isso incentiva novos investimentos. Configura-se um regime do tipo Profit-Led Growth, em que há uma relação positiva entre parcela dos lucros na renda e investimento.
A possibilidade de que uma queda dos salários na renda reduz o investimento, ao tornar os investimentos lucrativos, e por consequência o crescimento econômico apresenta uma diferenciação importante em relação aos modelos Kaleckianos e Keynesianos tradicionais. Do ponto de vista político, isso abre margem para um rompimento com a visão social-democrata, em particular, da conciliação entre as classes. Em uma economia wage-led, ainda é possível que ambas classes consigam se beneficiar de uma redistribuição de renda em prol dos salários, haja visto que o crescimento econômico se eleva, assim como os lucros. Porém, se a economia é caracteriza como Profit-Led, uma redistribuição de renda para os salários promoverá uma tendência estagnacionista, pressionando por baixo crescimento e desemprego, assim como perdas de renda para a classe capitalista. Nesse caso, o conflito de classes se exacerba. No segundo caso, o aumento dos salários deprime os lucros (profit sequeeze) ao mesmo tempo em que não promove nenhum efeito positivo sobre o crescimento econômico.
Em uma economia profit-led, os trabalhadores podem se beneficiar de políticas que direcionem renda para a classe capitalista. Isso porque, mesmo que os salários reais caiam em relação à renda, se a economia cresce, motivada pelo efeito positivo da lucratividade sobre o investimento, o nível de emprego e de salários cresce. Do ponto de vista político, o racha se daria internamente à classe trabalhadora entre aqueles que conseguem adentrar no mercado de trabalho e recebem esses salários mais altos ("insiders") e os trabalhadores que estão fora do mercado de trabalho ("outsiders").
Os autores apontam que um regime wage-led não consegue se sustentar a longo prazo, pois há uma tendência de que ao longo do tempo a função investimento passe a depender mais do efeito lucratividade do que o efeito demanda. Isso porque, conforme os salários crescem na renda em detrimento dos lucros, a margem de lucro vai se comprimindo até o momento em que, mesmo que se verifiquem efeitos positivos sobre a demanda, vai se tornando insustentável essa pressão ascendente sobre a lucratividade. Nesse caso, o investimento se tornará mais sensível à parcela dos lucros do que à demanda.
A estagnação econômica na abordagem Kaleckiana/Keynesiana tradicional está associada a uma redistribuição de renda para os lucros no contexto em que a economia é inevitavelmente caracterizada como wage-led. Porém, na abordagem de Bhaduri e Maglin, a estagnação é resultado de uma distribuição de renda que seja incompatível com o regime econômico. Isto é, se a economia é do tipo Profit-Led, então, só haverá estagnação se políticas econômica promover medidas de distribuição em prol dos salários. Assim como, se as medidas forem direcionadas para elevar os lucros na renda em um regime wage-led.
Portanto, mesmo em uma economia fechada, há duas possibilidades de regime de crescimento econômico: uma liderada pelos salários e outra pelos lucros. As medidas que potencializem o crescimento econômico, do ponto de vista redistributivo, precisa levar em consideração como se caracteriza a estrutura produtiva, em particular, analisar como o investimento reage a mudanças na distribuição de renda. Nesse sentido, mesmo que haja uma tendência de concentração de renda, isso não levará à estagnação econômica necessariamente, como proposto pelos modelos Kaleckianos tradicionais, ao contrário, pode potencializar o crescimento em uma estrutura econômica profit-led.
No que se refere à incorporação de uma economia aberta, os autores, inicialmente, discutem a relação entre taxa e câmbio e seus efeitos sobre a distribuição. Uma variação na taxa de câmbio, ao alterar a relação entre preço dos bens exportados e bens importados, afeta a distribuição de renda. Por um lado, uma desvalorização da moeda doméstica eleva o preço dos bens importados, o que reduz os salários reais, via elevação do nível de preços domésticos. Por outro lado, se os bens importados mais caros servirem para o processo produtivo, então, os lucros são reduzidos, ainda mais se a classe trabalhadora for organizada e conseguir pressionar por salários mais altos, assim como, devido à competição internacional, as firmas não conseguem compensar o aumento de custos elevando os preços, pois isso acarretaria perdas de mercado no exterior.
Se uma desvalorização da moeda doméstica conseguir tornar os bens exportados mais competitivos do que os bens importados, então, isso eleva a parcela dos lucros na renda, afinal, com nível de preços mais altos dos bens consumidos pelos trabalhadores, os salários reais e sua participação na renda tendem a cair. Caso contrário, se a desvalorização da moeda doméstica encarece os custos dos insumos importados em um contexto em que as firmas não conseguem repassar essas pressões de custos para preços, os lucros são comprimidos e a sua parcela na renda diminui e a dos salários cresce. Portanto, há uma ambiguidade na relação entre variação cambial e seus efeitos sobre a distribuição de renda.
De qualquer modo, partindo-se do pressuposto de que há uma relação positiva entre desvalorização da moeda e elevação da parcela dos lucros, em uma economia aberta, é preciso verificar qual regime prevalece antes de obter qualquer conclusão sobre os efeitos de um aumento na taxa de câmbio sobre o crescimento econômico. Se o regime for caracterizado como profit-led, uma desvalorização da moeda doméstica que eleve a parcela dos lucros em detrimento dos salários, estimulará o investimento pelo efeito lucratividade. Além do mais, esse efeito positivo é complementado pelo aumento das exportações, graças à melhoria da competitividade dos preços dos bens exportados, e redução das importações, melhorando o saldo comercial.
Por outro lado, em uma economia caracterizada como wage-led, uma depreciação da moeda doméstica ao distribuir renda para os capitalista, deprime o investimento, visto que o efeito demanda mais forte que o efeito lucratividade desestimula novos investimentos. Nota-se que, para que uma desvalorização da moeda doméstica exerça efeitos positivos em uma economia wage-led, faz-se necessário, primeiro, que tal mudança na taxa de câmbio reduza a parcela dos lucros, assim como seja menos sensível ao setor externo. A rigidez desses pressupostos, ainda mais em um contexto de globalização em que há maior interdependência comercial e econômica entre as nações, a existência prolongada de um regime wage-led se torna mais difícil.
O modelo apresentado por Bhaduri e Maglin no início da década de 1990 foi fundamental para nova construção tanto teórica quanto empírica nos modelos Kaleckianos e Keynesianos tradicionais. Não apenas a incorporação do setor externo como a vigência de dois efeitos que podem se contrabalancear (demanda e lucratividade) na função investimento abriram espaço para que não se pudesse mais determinar a priori os efeitos de mudanças na distribuição de renda sobre o crescimento. A visão estagnacionista, associada à concentração de renda, foi abandonada como único resultado possível, pois, agora com a emergência da possibilidade de um regime profit-led, medidas que promovessem redistribuição de renda para os capitalistas não deveria ser vistas como necessariamente ruins para o crescimento econômico, ao contrário, ao promovê-lo nesse tipo de regime, poder-se-ia gerar mais emprego e renda.
Nesse sentido, decisões políticas em relação à distribuição de renda devem levar em consideração qual regime que permite extrair crescimento econômico. Se medidas que transfiram renda para os capitalistas for necessária para promover o crescimento econômico, dentro dessa abordagem, não resta outra opção para um policymakers a não ser beneficiar essa classe. É claro que esse um modelo e que aborda certos aspectos centrados em uma macroeconomia Kaleckiana e Keynesiana. Isso não significa que a distribuição de renda não possa influenciar a economia por outros canais que vão muito além dos mencionados acima, inclusive, para além de uma perspectiva economicista voltada para o crescimento do produto, muitas vezes, sem considerar o bem-estar social.
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