segunda-feira, 11 de agosto de 2025

A Retomada da Hegemonia Norte-Americana Pó-1979, segundo Maria da Conceição Tavares


 Atualmente, há uma discussão sobre uma possível crise de hegemonia dos Estados Unidos e da força de sua moeda, o dólar, em um contexto internacional no qual emergem novas possíveis potências econômica-militares, como China e Índia, mas, também, na consolidação de blocos, como BRICS, cuja união pode desencadear uso de moedas alternativas no contexto das transações globais, visando a redução da dependência do dólar. A moeda norte-americana se tornou o padrão global, a partir dos acordos de Bretton Woods, nos quais a proposta de Keynes por uma moeda supranacional foi derrota por Dexter White e pelos interesses do mercado financeiro dos Estados Unidos. 

Sob dominância do padrão dólar-ouro, junto à constituição de um regime monetário internacional baseado na estabilidade e na cooperação, a ordem monetária e financeira proporcionada por Bretton Woods funcionou de maneira razoável. Os problemas surgiram no final da década de 1960, em um cenário de abundância de dólares, fruto dos elevados déficits fiscais e comerciais norte-americanos. Se a expansão da oferta de dólares, por um lado, foi fundamental para garantir o equilíbrio do balanço de pagamentos das principais nações industrializadas sem que houvesse necessidade de ajustes recessivos, por outro lado, a moeda norte-americana vinha se desvalorizando em relação ao ouro, a ponto de se questionar se a paridade ouro-dólar ainda valeria. As ameaças de Charles de Gaulle em transformar seus dólares em ouro ajudariam a minar da credibilidade do dólar e dos Estados Unidos. 

No começo da década de 1970, nesse quadro de questionamento do dólar e da hegemonia norte-americana, assim como dos choques inflacionários, advindos da elevação do preço do petróleo, e a estagnação da economia estadunidense, Richard Nixon, presidente à época, primeiramente, abandona a conversibilidade do dólar ao ouro (1971), e, posteriormente, permite a livre flutuação cambial (1973) na na expectativa de que a desvalorização do dólar pudesse corrigir os desequilíbrios externos. Ainda assim, o problema não estava resolvido. No final da década de 1970, mais especificamente 1979, Paul Volcker, presidente do Banco Central, eleva fortemente a taxa de juros norte-americana tanto para reduzir a inflação quanto para valorizar o dólar. A partir desse momento, a hegemonia norte-americana, focada na diplomacia do dólar forte, é restaurada. 

No clássico artigo "A Retomada da Hegemonia Norte-Americana", publicado, originalmente, no Brazilian Journal of Political Economy, v. 5, n. 2 em 1985 (Nesse texto do blog, estamos utilizando a versão semelhante publicada no livro "Poder e Dinheiro" de 1997), Maria da Conceição Tavares discute como se deu a retomada da hegemonia norte-americana nesse período e suas consequências. 

Inicialmente, ela argumenta que a questão da retomada da hegemonia norte-americana não esteve centrada no seu poderio militar e financeiro, mas na capacidade de enquadramento de seus adversários e parceiros, a partir de pressão de seus bancos e empesas para que houvesse padronização das economias domésticas à semelhança da economia norte-americana. Como consequência, foram impostos ajustes recessivos, por intermédio da sincronização de políticas econômicas, e a ideologia conservadora de que a segurança mundial seria assegurada pelos Estados Unidos, como formas de assegurar a dominação norte-americana. Consequentemente, a vitória ideológica estadunidense foi resultado de um reenquadramento das diversas economias nacionais aos interesses americanos, especialmente, levando em consideração o avanço da transnacionalização das empresas norte-americanos. Isto é, os Estados Unidos conseguiram reordenar a economia internacional, com base em uma nova transnacionalização.

Segundo ela, o Sistema Monetário de Bretton Woods não funcionou de maneira adequada, ao menos inicialmente, devido à escassez de dólares do imediato pós-Guerra, afinal, os Estados Unidos eram superavitários. Após o término desse período mais rígido, o sistema passou a funcionar, dado que os países europeus conseguiram compensar suas posições superavitárias e deficitárias. O dólar foi aceito como reserva mundial. em função da internacionalização dos bancos norte-americanos, cuja regulação doméstica dificultava sua lucratividade. Assim, tanto o dólar quanto o crédito lastreado nele foram utilizados amplamente no mundo. Aos poucos, foi-se criando circuito supranacional de crédito, fora das restrições impostos pelas autoridades nacionais, de modo que o crédito se liberta das amarras do padrão dólar-ouro, isto é, expandindo-se de maneira quase ilimitada. O principal mercado financeiro livre era o Euromercado, sediado na City londrina. 

No contexto do choque do petróleo, o aumento das receitas em dólar dos países produtores dessa commodity faz com que surja os chamados "petrodólares", cuja circulação lucrativa ocorria, justamente, nesses mercados de crédito livre de restrições. A expansão da oferta de dólares vai minando o seu poder como reserva do sistema, fortalecendo moedas como o marco e o iene. A ordem monetária se tornou cada vez mais caótica e instável, agravada pelas políticas recessivas realizadas nos Estados Unidos. Em 1979, Volcker elevou a taxa de juros com o intuito de retomar a hegemonia do dólar e, por tabela, dos Estados Unidos, o que levou à constituição da diplomacia do dólar forte. A consequência imediata dessa política recessiva foi uma intensa recessão nos Estados Unidos, prejudicando a reeleição de Jimmy Carte, e que afetou o resto do mundo. Na periferia capitalista, em particular na América Latina, o custo dos empréstimos e do pagamento de juros fizeram com que houvesse a necessidade de ajustes recessivos que interromperam trajetórias industrializantes, como no caso brasileiro.  

O Banco Central norte-americano, Federal Reserva, conseguiu disciplinar os bancos norte-americanos e o restante do sistema financeiro mundial, de modo que o crédito se reduziu a nível internacional. Nesse caso, os recursos financeiros se direcionaram para o mercado financeiro norte-americano, devido à alta nas taxas de juros, em particular, dos títulos públicos. Isto é, enxugou-se dólares excessivo no mundo, trazendo-os de volta para os Estados Unidos. Essa liquidez internacional foi fundamental como fonte de financiamento do déficit fiscal norte-americano, o qual se tornou estrutural após a década de 1960, e que é agravado pelos elevados gastos militares, pressionando o déficit fiscal. 

“A partir dai o sistema de crédito interbancário orientou-se decisivamente para os EUA e o sistema bancário passou a ficar sob controle da política monetária do FED, que dita as regras do jogo. As flutuações da taxa de juros e de câmbio ficaram novamente amarradas ao dólar, e através delas o movimento da liquidez internacional foi posta a serviço da política fiscal americana. A partir do início dos 80, todos os grandes bancos internacionais estão em Nova Iorque, não apenas sob a umbrella do FED, mas também financiando obrigatoriamente – porque não há outra alternativa – o déficit norte-americano” (p.34).  

A dívida pública norte-americana é um investimento seguro para os investidores internacionais, permitindo a estabilização do sistema financeiro, diante de incertezas. O preço da estabilidade é a submissão do mundo à diplomacia do dólar. Ou seja, para que o mercado se estabilize em momentos de instabilidade, os recursos financeiros devem fluir para o mercado financeiro norte-americano, e, como contrapartida, os países precisam realizar ajustamentos recessivos para evitar que suas economias sejam penalizadas nesse contexto de saída de capitais. Portanto, o Estados Unidos conseguem enquadrar parceiros e não-parceiros no financiamento do seu déficit e na pujança de seu mercado financeiro. 

“Assim, apesar das críticas ao déficit americano, este tornou-se na prática o único elemento de estabilização temporária do mercado monetário e de crédito internacional. O preço desta “estabilidade” tem sido a submissão dos demais países à diplomacia do dólar e o ajustamento progressivo de suas políticas econômicas ao desiderato do “equilíbrio global do sistema. Evidentemente, este ajustamento não se fez sem resistência” (p.35).  

O Japão não apoiou essas medidas, adotando uma política expansionista. Isso foi possível, porque o sistema bancário japonês é peculiar e pouco internacionalizado. Outros países tentaram, mas acabaram se alinhando à política norte-americana. As taxas de juros, crescimento e câmbio a nível internacional passaram a depender da dinâmica dessas variáveis nos EUA. O equilíbrio macroeconômico requer que os demais países façam superávits comerciais para obtenção de dólares para financiar o balanço de pagamento e adotem medidas restritivas para financiar o déficit norte-americano às custas do seu próprio crescimento econômico.  

“O equilíbrio macroeconômico da economia mundial, dada a “dolarização” generalizada do sistema de crédito, obriga a maioria dos países a praticar políticas monetárias e fiscais restritivas e a obter superávits comerciais crescentes para compensar a situação deficitária global da potência hegemônica. Estas políticas, por sua vez, esterilizam o potencial de crescimento endógeno das economias nacionais e convertem os déficits públicos em déficits financeiros estruturais, inúteis para uma política de reativação econômica, de corte keynesiano” (p.36).  

O Japão foi fortemente prejudicado, pois precisou reverter suas políticas expansionistas e de formação de conglomerados bancários para adotarem medidas restritivas, conforme seu sistema bancário foi se internacionalizado. Desse modo, o país asiático manteve política focada em gastos sociais e modernização tecnológica, mas o crescimento econômico foi, de modo persistente, ficando abaixo do crescimento econômico potencial. Nesse sentido, o mercado financeiro japonês se tornou mais atrelado ao norte-americano. A diplomacia do dólar forte moldou os mercados financeiros aos interesses norte-americanos, especialmente, para garantir o financiamento de seus déficits. 

“A diplomacia do dólar já cumpriu o seu papel, soldando os interesses do capital financeiro internacional, sob comando americano. Ainda que uma desvalorização do dólar fosse provocar uma nova crise financeira internacional, os EUA não perderão o papel reitor na reestruturação de uma possível “nova ordem internacional” (p.37).  

Segundo Tavares, Os Estados Unidos não lideram a economia mundial de maneira benéfica, ao contrário, podem exercer sua hegemonia de maneira negativa ao impor ajuste recessivos aos países no contexto do financiamento do seu déficit externo. 

“Há algum tempo atrás, tudo levava a crer que os EUA tinham perdido a capacidade de liderar a economia mundial de uma maneira benéfica. Isto continua a ser verdade. Mas, por outro lado os americanos, indiscutivelmente, deram de 1979 a 1983, uma demonstração de sua capacidade maléfica de exercer sua hegemonia e de ajustar todos os países, através da recessão, ao seu desiderato. E o fizeram, está claro, com uma arrogância e com uma violência sem precedentes” (p.37).  

A partir de 1982, os Estados Unidos retomaram o crescimento econômico, com base na expansão do crédito de curto prazo e aumento no endividamento externo e público, inspirando-se na fórmula latino-americana e japonesa. Ao mesmo tempo, graças à valorização do dólar, a inflação se manteve baixa no período. No âmbito fiscal, a política de Reagan foi voltada para a redução dos gastos sociais e de impostos para a classe média e para bens duráveis, o que acabou aumentando o endividamento das famílias. Além do mais, cresceram investimentos nos setores terciários e de tecnologia. 

Nesse novo contexto, houve direcionamento da política monetária para redução da taxa de juros, em virtude da a) absorção da liquidez internacional; b) da necessidade de uma política monetária menos conservadora; c) e da queda na inflação, graças ao aumento das importações e da apreciação do dólar. O financiamento da expansão dos gastos se deu com crédito interno e externo, a partir do financiamento mundial da conta financeira norte-americana. Assim, por meio das importações, os Estados Unidos conseguiram modernizar sua indústria, assim como conseguiu manter uma política monetária e fiscal mais favorável ao crescimento. Mas, isso se às custas dos demais países que tiveram de adotar medidas recessivas anteriormente para evitar fuga de capitais e para superávits comerciais. Isto é, o excesso de capitais serviu para cobrir os déficits gêmeos norte-americanos

“E este excesso de capital e de “poupança externa” se deve a que o resto do mundo obedeceu à política conservadora, fosse qual fosse o tipo de governo. Na verdade a sincronização das políticas ortodoxas obrigou todos os países a manterem em níveis baixos suas taxas de investimento e de crescimento e forçar as exportações. Como um reflexo do ajuste forçado, quase todo os países do mundo estão experimentando superávits no balanço comercial. Todos menos um: os EUA. Eles abrem sua economia e ao fazê-lo provocam uma maciça transferência de renda e de capitais do resto do mundo” (p.41).  

Em síntese, o resto do mundo, em particular, os países desenvolvido, passaram a financiar não apenas o crédito e a especulação, como o investimento e o consumo interno dos Estados Unidos. 

“O fato essencial é que todo o mundo está financiando não apenas o Tesouro norte-americano, especialmente seu componente financeiro, mas também os consumidores e investidores americanos. Desta vez, e ao contrário da década de 70, ocorreu transferência de “poupança real” e não apenas de crédito, liquidez ou capital especulativo” (p.41).  

A partir dessa hegemonia revigorada, os Estados Unidos não precisam mais se preocupar com o financiamento do seu déficit externo, portanto, podem adotar políticas expansionistas, pois, enquanto houver diferença nas taxas de crescimento entre os Estados Unidos e demais países será compensador para os investidores internacionais aplicarem nos mercados financeiros norte-americanos.  

Em 1984, a economia mundial se recuperou, graças à demanda efetiva norte-americana, beneficiando Japão e Canadá, em particular. Assim, os Estados Unidos se tornaram uma importante locomotiva do comércio global. Do ponto de vista interno, o crescimento das importações gerou resistências de setores protecionistas, enquanto a classe financeira era ainda mais favorável a abertura financeiro e comercial. Interessante notar que, 2025, os setores protecionistas parecem ter vencido, tardiamente, essa disputa com a vitória do Trumpismo, cuja resposta político-econômica ao déficit norte-americana é adotar medidas radicalmente protecionistas contra o resto do mundo. 

De qualquer modo, a década de 1980 representou uma Nova Divisão Internacional do Trabalho, especialmente, para aqueles países que abriram suas economias, vide o caso chinês (não comentado por Tavares), o que se concretizaria, anos depois, na formação de cadeias globais de valor.  Diante desse contexto, os Estados Unidos enfatizaram o desenvolvimento de setores de ponta e tecnológicos, como aqueles situados no Vale do Silício, enquanto setores tradicionais da indústria manufatureira foi sendo submetida à competição global e ficando defasada em relação a outras potências industriais, primeiramente, em relação ao Japão, mas depois de outros países do sudeste asiático, como Coréia do Sul e China.  

“Após terem exportado durante várias décadas o padrão tecnológico do sistema industrial americano através das suas multinacionais estão tentando usar o seu poder hegemônico para reenquadra-las, fazer retornar os seus capitais sobrantes e refazer a sua posição como centro tecnológico dominante. Assim, utilizam-se dos seus bancos, do comércio, das finanças e do investimento direto estrangeiro, para fazer o seu ajustamento interno e externo. Apesar de terem perdido a concorrência comercial para as demais economias avançadas e mesmo semi-industrializadas, nos produtos de tecnologia de uso difundido, os EUA estão investindo fortemente no setor terciário e nas novas indústrias de tecnologia de ponta, na qual esperam ter vantagens comparativas. Os EUA não parecem interessados em sustentar sua velha estrutura produtiva-comercial. Sabem também que não têm capacidade de alcançar um enorme boom a partir de reformas nos setores industriais que lideram o crescimento econômico mundial no pós-guerra. Ao contrário, os Estados Unidos estão concentrado esforços no desenvolvimento dos setores de ponta e submetendo a velha indústria à concorrência internacional dos seus parceiros. A partir dessa modernização generalizada esperam poder retomar a sua posição como centro tecnológico dominante e reordenar de nova a economia mundial” (p.46-47).  

A modernização norte-americana, sustentada por importações, teve como objetivo a retomada da hegemonia tecnológico e, por consequência, levou ao reordenamento da economia mundial. 

“Com seus enormes déficits comerciais até aqui, têm garantido a solidariedade de seus principais sócios exportadores, sobretudo o Canadá, o Japão e os NICS asiáticos. Com as altas taxas de juros reais, têm garantido a solidariedade dos banqueiros. E, com as joint-ventures dentro dos EUA, estão tentando garantir a sua posição de avanço para o futuro” (p.47).  

Nessa Nova Divisão Internacional do Trabalho, Tavares aponta que houve um forte adensamento nas relações entre Estados Unidos, Japão e países em desenvolvimento do Sudeste Asiático, especialmente, por intermédio da transcionalização das empresas norte-americanas. O problema de longo prazo desse modo de crescimento econômico norte-americano, à época, segundo Tavares, estava na baixa rentabilidade que as filiais estrangeiras dos Estados Unidos sofreriam diante da valorização do dólar. Para ela, não bastaria modernizar a economia norte-americana, mas que seria necessário algum estímulo ao capital industrial antigo, isto é, a setores mais tradicionais, assim como realizar investimentos em infraestrutura e serviços públicos. Não à toa, como uma "profecia", foi a fragilidade desses "calcanhares de Áquiles" que levaram à emergência de forças políticas anti-livre comércio, a partir de 2015. 

Em artigo denominado "A Reafirmação da Hegemonia Norte-Americana", em conjunto com Eduardo Melin, publicado no livro "Poder e Dinheiro" (Editora Vozes, 1997), Tavares retoma a discussão da hegemonia americana já no contexto do fim do Socialismo Real, em que se prevalecia a ideia de "fim da história". Os autores apontam que a diplomacia do dólar forte tinha como objetivo enquadrar os adversários e parceiros para garantir o financiamento do crescimento norte-americano, assim como a diplomacia das armas, um verdadeiro oximoro, buscava minar qualquer adversário geopolítico. Portanto, a concentração política e financeira nos Estados Unidos, a partir de 1979, não foi um mero resultado de forças da concorrência intercapitalista, mas uma política deliberada norte-americana de retomar sua hegemonia. 

“Nesse sentido, a concentração de poder político e financeiro existente no mundo contemporâneo não é o resultado espontâneo do aumento da competição e eficiência dos “mercados globalizados”, mas de uma política deliberada de retomada da hegemonia mundial, a partir da década de setenta, quando a potência norte-americana parecia entrar em decadência. No plano do Poder e do Dinheiro os EUA comandam hoje um “jogo global”, que tenta sobrepor os conceitos de “Ordem Unipolar e de Economia Mundial”, mas cuja convergência está longe de consolidar-se e de ser benéfica e includente para a maioria dos países do mundo” (p.57).  

Entre 1985-1989 (período posterior ao artigo original), diante do desequilíbrio externo norte-americano, coordenou-se uma esforço de desvalorização do dólar e de políticas macroeconômicas no âmbito do G-7 nos Acordos do Plaza (1985) e do Louvre (1987). Ao mesmo tempo, os mercados financeiros domésticos ampliaram suas desregulamentações, abrindo espaço para a livre circulação de capitais financeiros, o que, por sua vez, ocasionou algumas crises financeiros, como na Bolsa de New York em 1987 e de Tóquio. Além do mais, foram sendo desenvolvidos diversos instrumentos financeiros, como a securitização (transformação de crédito em títulos negociáveis). Para manter a desvalorização do dólar, a taxa de juros norte-americana ficou abaixo das demais taxas de juros das principais economias mundiais, o que tornou os títulos americanos menos atrativos, mas, serviram como lastro para a emissão de diversos títulos securitizados, estes mais rentáveis. 

A manutenção de taxa de juros mais altas, nos países industrializados, em relação à taxa de juros norte-americanas foi recessiva para os países europeus, assim como prejudicou a competitividade industrial europeia, devido à valorização das diversas moedas domésticas que eram alinhadas com o marco alemão. Porém, como a Alemanha já vinha modernizando a sua indústria, como uma resposta ao dólar forte de primeira metade da década de 1980, não houve prejuízos significativos. No caso japonês, diante da desvalorização do dólar e valorização do iene, os bancos japoneses e o seu setor industrial perderam fôlego, o que levou à abertura de novos mercado, mas, principalmente, a uma realocação produtiva e financeira para outros países asiáticos, isto é, as empresas e bancos se deslocaram do território japonês. Isso sem dúvidas, algo que os autores não comentaram porque lhes foge o escopo, é uma das causas seculares do baixo crescimento japonês.  

Desse modo, entre 1979-1989, o Banco Central americano modifica sua política monetária de acordo com sua conveniência. Isto é, se há necessidade de estimular a economia, reduz-se a taxa de juros; se a economia está aquecida e a inflação sobe, eleva-se a taxa de juros. Como consequência, as taxas de juros globais oscilam, visto que, dada a supremacia do mercado financeiro norte-americano, as principais economias mundiais precisam ajustar suas taxas de juros frente a mudanças na taxa de juros norte-americana para evitar ou atrair dólares para manter estável o balanço de pagamentos. O fato de o dólar ser a principal moeda global, o seu preço (a taxa de juros norte-americana) afeta todos os demais preços das moedas globais. O dólar é o denominador comum da financeirização, pois cumpre três funções essenciais

  1.  provê liquidez para financiar o balanço de pagamentos. 
  2.  garante segurança nas operações, pois é a moeda mais aceita globalmente. 
  3.  unidade de conta da riqueza financeira, de modo que a riqueza global de indivíduos e países está concentrada em reservas em dólar. 

A taxa de juros norte-americana, após a retomada da hegemonia, se tornou a referência para os mercados mundiais, graças ao fato de que a dívida pública norte-americana é o ativo mais seguro e líquido do mundo. Não há risco nenhum de calote, pois, em última instância, o país pode emitir dólares para honrar seus compromissos financeiros. As taxas de juros domésticas passam a estar vinculadas à taxa de juros norte-americana: se Federal Reserva sobe a taxa de juros, o resto do mundo precisa aumentar suas taxas, caso contrário, há pressão por saída de capitais, desvalorizações abruptas e inflação e o crescimento econômico pode ser prejudicado. Por outro lado, quando o FED reduz a taxa de juros, o que pressiona os demais países a manterem taxas de juros um pouco mais altas para não haver saída de capitais, ainda que possam tenham algum margem, nesse contexto, para estimular sua economia doméstica. Isto é, as possibilidades de gestão da política monetária são reduzidas, assim como o crescimento econômico doméstico passa a estar vinculado às decisões de política monetária dos Estados Unidos. 

Segundo os autores, podem ser vistos três assimetrias no crescimento econômico global. A primeira é geográfica, pois a expansão econômica significativa se concentra nos Estados Unidos e na China. A segunda assimetria é no plano social, em que desemprego e piora social na Europa, nos ex-países soviéticos e América Latina, visto que precisam manter políticas de ajuste recessivo, especialmente, quando o Banco Central norte-americano eleva a sua taxa de juros. E terceiro é dos agregados macroeconômicos, em que se percebia guerra comercial por ampliar as exportações para os Estados Unidos e queda no investimento produtivo em detrimento dos ganhos financeiros. 

O regime de acumulação de capital, nesse novo contexto, perpassa três momentos. No primeiro, são destruídos setores tradicionais do território e são alocados para outras localidades, em um processo de alocação produtiva. No segundo momento, há uma tendência de centralização dos capitais, graças à ampliação de fusões e aquisições, em especial, nos setores de aviação, indústria bélica, e de telecomunicações e informática. E por fim, a localização do capital financeiro e patrimonial se concentra nos países centrais. Isto é, enquanto a produção manufatureira se desloca para outros países em desenvolvimento, a parcela da produção mais rentável, por ser mais tecnológica e envolver maior valor agregado, se concentra nas economias já plenamente desenvolvidas. 

A generalização das políticas neoliberais na América Latina e Europa só fortaleceram os Estados Unidos e partes da Ásia, como a China. Não à toa, do ponto de vista fiscal, Estados Unidos adotaram um “keynesianismo bélico”, sem qualquer preocupação significativa com o déficit fiscal. A reestruturação industrial, baseada no avanço tecnológico, atração do capital externo para seu mercado financeiro, e a capacidade de endividamento estatal e das famílias, a economia norte-americana conseguiu sustentar seu crescimento econômico a partir do final da década de 1980. No geral, segundo os autores, o neoliberalismo deteriorou o papel dos estados nacionais, levou ao aumento das taxas de juros, à liberalização financeira e flexibilização do trabalho. A dívida pública aumentou, em virtude dos das taxas de juros mais altas. Da mesma forma, a instável mobilidade de capitais e a flexibilização do trabalho reduziram a arrecadação estatal e tornaram o crescimento econômico menos estável. Para lidar com isso, a pressão do ajuste fiscal recaiu sobre os gastos sociais e incentivou movimentos de privatização.  

O que se pode notar dos dois artigos é que, após a retomada da hegemonia norte-americana, Os Estados Unidos possuem maior autonomia na política econômica, pois podem aumentar os gastos públicos em benefícios sociais ou em gastos militares, assim como podem desfrutar, desde 1989, de taxas de juros mais baixas, o que ajuda a reduzir o desemprego. Por outro lado, a periferia capitalista foi excluída dos benefícios da globalização de capital, em particular, produtivo, inserindo-se nessa nova ordem global como produtores exportadores de matérias-primas. O dinamismo do crescimento se deslocou para a Ásia, beneficiando-se das disputas entre empresas americanas e japonesas, e das flutuações do dólar e iene, facilitando políticas comerciais mais favoráveis e ao investimento direito. 

Em síntese, a retomada da hegemonia norte-americana se deu pelo fortalecimento do dólar, não apenas em termos de valor, mas de sua capacidade de influenciar a alocação de recursos financeiros. Assim,  ao atrair o capital estrangeiro para o mercado norte-americano, isso força os demais países a adotarem políticas agressivas de exportações e/ou políticas recessivas para manter as divisas sem prejudicar o seu balanço de pagamentos, isto é, evitar fuga de capitais. ​

A política do dólar forte deu força ao mercado bancário e financeiro norte-americano, assim como o título público do governo americano se tornou o ativo mais seguro do mundo. ​Nesse contexto, a liquidez global em dólar passou a estar vinculada às decisões da política monetária norte-americana. ​O mundo fica submetido, portanto, às decisões da política norte-americana, de modo que a política econômica doméstica passa a depender da política monetária e fiscal norte-americana. ​Por outro lado, os Estados Unidos não precisam fazer nenhum ajuste para resolver seu problema déficit de pagamentos, em última instância, basta elevar a taxa de juros, atraindo capital, mesmo que isso leve a políticas recessivas em outros países. ​Ou seja, o mundo passou a financiar políticas expansionistas nos Estados Unidos. 

Atualmente, Trump tenta restabelecer a hegemonia norte-americana, em resposta à ascensão chinesa, não apenas tentando fortalecer o dólar, mas utilizando não os mercados financeiros, e, sim práticas de tarifas protecionistas como uma forma de enquadrar o resto do mundo às necessidades de crescimento econômico e geração de emprego nos Estados Unidos. 

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