terça-feira, 21 de janeiro de 2025

O que foram os Acordos do Plaza (1985) e de Louvre (1987)



Alan Beattie, em artigo republicado no Valor Econômico ("As Contradições do dólar sob Trump), aponta que há uma contradição na política comercial de Trump: o aumento das tarifas alfandegárias tende a valorizar o dólar (menor evasão da moeda para o exterior). Nesse caso, com o dólar mais forte, as importações se tornam mais baratas, o que poderia contrabalancear, via efeito preços, as tarifas, especialmente, se as promessas de crescimento econômico do novo presidente se concretizarem. Portanto, segundo o autor, a defesa do protecionismo pode não surtir o efeito esperado. Consequentemente, a redução do déficit comercial pode não ser realizada. Aliado a isso, a postura contrária ao multilateralismo dificulta que haja alguma coordenação das taxas de câmbio, a nível global, em prol de uma desvalorização dólar, o que poderia ser um instrumento importante na recomposição da conta comercial. Beattie menciona os chamados Acordos do Plaza (1985) e de Paris (1987) como exemplos dessa tentativa de coordenação entre Estados Unidos e outras potências econômicas para atender a essa finalidade. 

O objetivo desse texto é utilizar esse "gancho" para apresentar o que foram esses dois acordos, seus objetivos e consequências. Inicialmente, deve-se ter em mente o contexto do final da década de 1970 e começo dos 1980. Desde os anos 1960, devido a diversos fatores (internacionalização das empresas, contexto geopolítico, expansão fiscal, crescimento econômico) levaram à reversão no saldo comercial norte-americano passando de superávits para déficits persistentes. De um lado, isso serviu aos interesses internos do país e externos, assim como, de outro lado, beneficiou diversos parceiros geopolíticos, como Alemanha, Japão e Coréia do Sul que se tornaram os principais exportadores para os Estados Unidos. O problema dos déficits crônicos foi agravado com o choque do petróleo, consequentemente, a desvalorização do dólar, permitida por Richard Nixon em 1973, contribuiu para o aumento da inflação em meados da década de 1970. Já no crepúsculo de Bretton Woods, o enfraquecimento do dólar levou ao questionamento da hegemonia americana, principalmente, na Europa. Charles de Gaule, presidente francês, era o principal crítico do "privilégio exorbitante" de emissão da moeda internacional por parte dos Estados Unidos. 

Havia dois caminhos a serem adotadas para equalização do balanço comercial norte-americano: 1) redução dos déficits públicos e um ajuste macroeconômico que desaquecesse o crescimento econômico, garantindo redução das importações; 2) desvalorização do dólar e medidas mais protecionistas. O governo Nixon e, posteriormente de Geraldo Ford, adotou o segundo caminho com objetivo de evitar uma desaceleração crônica da economia estadunidense. Isso perdurou até 1979, quando Paul Volcker, presidente do Federal Reserve (FED), adota uma política unilateral de elevação dos juros para controlar a inflação e valorizar o dólar, cuja contrapartida foi a redução do crescimento interno, mas que extrapolou para o restante do globo. 

No clássico artigo "A Retomada da Hegemonia Norte-Americana", publicado em 1985, Maria da Conceição Tavares denomina essa estratégia de "diplomacia do dólar forte" como forma de retomar a hegemonia norte-americana. Nesse contexto, a elevação da taxa de juros atraiu dólares para o mercado financeiro doméstico, o qual se fortaleceu e se tornou o padrão a ser seguido pelos mercados no restante do globo. O choque de juros promoveu uma recessão econômica nos Estados Unidos, assim como, o mundo sofreu impactos negativos. Na Europa e Japão, para evitar uma fuga sem precedentes de dólares, os governos adotaram políticas monetárias contracionistas, prejudicando o crescimento econômico. Na chamada periferia capitalista, o aumento nos juros fez com que as dívidas externas explodissem, prejudicando a capacidade do Estado nacional em dar prosseguimento à industrialização e à políticas protecionistas, voltando-se para medidas recessivas de ajuste externo. 

Para Tavares, por intermédio do dólar forte e da atração de capital para o seu mercado financeiro, os Estados Unidos conseguiram impor à força seus objetivos, neste caso, a redução da inflação e o equilíbrio do balanço de pagamentos. O FED, ao adotar uma política contracionista, acabou por restringir o crédito global e levar economias à recessão, mas conseguiu atrair capitais externos para financiar o balanço de pagamentos, via conta financeira. Nesse sentido, os Estados Unidos poderiam manter políticas fiscais expansionistas e até mesmo manter um elevado ritmo de crescimento econômico, haja visto que o resto do mundo as financiaria, devido à força do seu mercado financeiro e do papel dos juros norte-americanos como regulador das possibilidades de gestão da política econômica em outros países (isto é, capacidade adotar políticas mais expansionistas). Ou seja, a retomada da hegemonia norte-americana garantiu que o país pudesse adotar medidas pró-crescimento sem restrições externas, pois o fardo do financiamento estaria com outras economias, em particular, com aquelas que detivessem alto volume de reservas em dólar.  

Países como Japão e Alemanha sofreram com políticas recessivas, o que, de um lado prejudicou suas economias, mas, por outro lado, fortaleceu medidas de ajustamento industrial em direção a setores mais modernos e tecnológicos. Isto é, a forma que esses dois países lidaram com a recessão global foi fortalecer ainda mais seus setores industriais em termos qualitativos. Não à toa, já em meados da década de 1980, as empresas japonesas e alemãs despontam na Terceira Revolução Industrial (microeletrônica, mais específica no caso japonês) e na produção de bens de capitais mais sofisticados (caso alemão). Como contraposição, as empresas americanas ficaram defasadas, inclusive, pois muitas delas foram produzir no exterior como resultado da valorização do dólar (prejudicando as exportações e facilitando importações). Por outro lado, a valorização do dólar e a contrapartida desvalorização das moedas nacionais a inflação se tornou um problema em alguns países, em particular, na Europa ocidental.  

A partir de 1983, já sob governo Ronald Reagan, a economia norte-americana retoma o crescimento econômico, impulsionado pela expansão dos gastos militares e redução de impostos. Nesse sentido, o déficit comercial se deteriora em virtude do aquecimento da demanda interna. A modernização tecnológica das indústrias japonesas e alemãs estimulou, ainda mais, as exportações para o mercado norte-americano. Desse modo, policymakers e congressistas pressionaram o governo a adotar desvalorização do dólar e medidas protecionistas para lidar com a situação das contas externas. 

Em 1985, havia ímpeto por parte do governo norte-americana para desvalorização do dólar, o que levaria como contrapartida à valorização de outras moedas, como o iene (Japão) e marco (Alemanha). Porém, essa depreciação da moeda estadunidense, por intermédio de uma redução da taxa de juros, não poderia ser feita de maneira unilateral, pois se a dose fosse muito intensa, o resultado seria muito prejudicial para a competitividade das empresas alemãs e japonesas (valorização excessiva das moedas), prejudicando a dinâmica econômica das duas principais potências à época. Desse modo, o ajuste entre diferenciais de juros e de câmbio deveria ser coordenada para evitar que excessos afetassem esses países. 

A primeira (e principal) tentativa de coordenação internacional das taxas de câmbio foi realizada em Nova York (EUA) no Plaza Hotel em 22 de Setembro de 1985. Foram reunidos ali representes da França, Reino Unido, Alemanha, Japão (o chamado G-5). Ficou estabelecido que o dólar se desvalorizaria em relação às moedas domésticas. Nesse sentido, os países adotaram medidas para valorizar suas moedas, como manter um diferencial de juros mais alto à norte-americana. A principal consequência foi fortalecimento do iene, o que gerou diversas críticas dentro do Japão, pois houve perda de competitividade das exportações, principal fonte da dinâmica econômica e de modernização japonesa. 

A forte valorização das demais moedas em relação ao dólar e as críticas japonesas levaram a um novo acordo, realizado em 22 de Fevereiro de 1987 no Palácio Louvre em Paris (França). O objetivo era estabilizar as taxas de câmbio, mantendo a desvalorização do dólar e a valorização de outras moedas em bandas, de modo a evitar movimentos excessivos. Nota-se que, a partir de 1983, a economia norte-americana se manteve aquecida, assim como o déficit público crescia, o que dificultava qualquer ajustamento externo recessivo. Ou seja, essa coordenação internacional acabou por manter o enquadramento dos Estados Unidos a seus parceiros, pois, ao "impor" desvalorização do dólar, evitou-se qualquer medidas de ajustamento externo que passasse pelo desaquecimento da economia e ajustamento macroeconômico, em particular, que envolvesse redução dos gastos militares e aumento de impostos. 

Ambos acordos, do Plaza e do Louvre, trouxeram consequências importantes para a economia mundial, em particular para o Japão. Para o país asiático, a principal resposta foi impulsionar ainda mais a internacionalização de sua economia, tanto dos bancos quanto de suas empresas. Isso porque, enquanto o iene se valorizou em relação ao dólar, as demais moedas asiáticas (que não entraram nos acordos) se mantiveram desvalorizadas em relação ao dólar. Desse modo, ao transferir as empresas para outros parceiros asiáticos, as empresas japonesas conseguiriam usufruir da competitividade da taxa de câmbio para exportar bens manufaturados e tecnológicos aos Estados Unidos (e a outros países, também). Países como Coréia do Sul, Taiwan, Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura se beneficiaram diretamente e indiretamente dessa expansão das empresas japonesas pelo leste asiático. Formou-se, nesse contexto, uma forte integração regional de investimentos e comércio entre esses países. Porém, esse deslocamento produtivo é considerado um dos motivos da estagnação econômica japonesa que dura até hoje. 

No caso da Europa, uma das consequências desses acordos foi o direcionamento em prol do comércio intraeuropeu, sob liderança alemã. Em virtude da perda de competitividade dos produtos alemães no contexto da valorização do marco, não apenas a reestruturação industrial continuou, como a Alemanha buscou fortalecer a integração comercial europeia como uma forma de contrabalancear a perda de competitividade externa, haja visto que, como maior economia industrial na Europa, sem dúvidas, suas empresas se beneficiariam do mercado europeu unificado. Não à toa, em 1993, é formalizada a União Europeia. 

Os acordos do Plaza (1985) e do Louvre (1987) foram tentativas de coordenar a desvalorização do dólar entre as principais economias mundiais. Esses acordos demonstram a capacidade dos Estados Unidos de influenciar as políticas econômicas de seus parceiros para atender aos seus próprios interesses. Ao evitar medidas recessivas em casa, os EUA conseguiram manter políticas expansionistas, contando com o financiamento externo de seus déficits. Atualmente, a postura "anti-multilateralismo" de Trump dificulta a repetição de acordos como esses, tornando as tarifas uma ferramenta mais provável para lidar com os déficits comerciais norte-americanos. 

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