Em um vídeo do canal do Instituto de Economia da UFRJ, o professor Franklin Serrano defende a tese de que os trabalhadores são os principais interessados no crescimento econômico. Essa afirmação pode parecer contraintuitiva, já que grandes empresas e classes mais altas também lucram com a expansão econômica. No entanto, Serrano argumenta que estas últimas, apesar de se beneficiarem, não priorizam o crescimento econômico. Em contraste, economistas ortodoxos, frequentemente associados a interesses financeiros, defendem políticas de juros altos e desaceleração econômica para conter a inflação, mesmo que isso implique em maior desemprego. Essa postura contrasta com os anseios da classe trabalhadora, que vê no crescimento econômico e na geração de empregos uma melhoria em sua qualidade de vida.
As classes mais altas justificam, do ponto de vista técnico, a desaceleração econômica como uma medida necessária para controlar a inflação e, consequentemente, melhorar a vida dos mais pobres a longo prazo. A lógica por trás desse argumento é que, ao operar acima do pleno emprego, a economia fica superaquecida, gerando pressões inflacionárias. Embora essas medidas causem um aumento temporário do desemprego e desacelerem a economia no curto prazo, a expectativa é que, a médio prazo, a redução da inflação resulte em um maior poder de compra para todos, inclusive para os mais pobres. Sob essa perspectiva técnica, não há um conflito aparente de interesses entre as classes sociais. Mas, fica nítido que, para tais classes, o crescimento econômico e o pleno emprego não são prioridade, especialmente, se políticas fiscais expansionistas forem adotadas para atingir esses objetivos.
Contudo, deixando de lado aspectos técnicos-econômicos, questões políticas podem estar por detrás da defesa pelas classes mais altas do baixo crescimento econômico e do desemprego (acima do pleno emprego emprego). Em seu clássico artigo Political aspects of Full Employment ("Aspectos Políticos do Pleno Emprego") publicado no Political Quarterly, v.14, N.4 em 1943, Michal Kalecki busca desvendar os interesses políticos que levam os capitalistas a obstruírem medidas que visam o pleno emprego, em particular, aquelas associadas ao estímulo da demanda por parte do gasto público.
O consenso em torno da necessidade de maior participação do Estado na economia era evidente na década de 1940. Tanto democracias (Estados Unidos, Suécia) quanto regimes autoritários (Alemanha, Itália) e países em desenvolvimento (medidas de Getúlio Vargas no Brasil) adotaram políticas de gastos públicos robustas, com foco em infraestrutura (mas não só, como visto no alto volume de gastos na indústria armamentista e em medidas de subsídios agrícolas), para estimular o crescimento e o emprego. Essa tendência, conhecida como keynesianismo, refletia o espírito da época, marcado pela busca por soluções estatais para os problemas econômicos.
Kalecki, em primeiro lugar, aponta que para se atingir o pleno emprego, ainda mais em contexto recessivo, elevações de gastos públicos são mais eficazes do que redução de impostos, pois o efeito é mais direto sobre o circuito econômico. Para financiar esses gastos, o autor polonês recomenda a emissão de títulos a serem vendidos ao setor privado. Em virtude de efeitos multiplicadores, os gastos públicos complementam e estimulam os gastos privados, configurando um circuito positivo gasto-renda na obtenção do pleno emprego. Os próprios capitalistas se beneficiam do pleno emprego, estimulado pelo governo.
Em segundo lugar, Kalecki argumenta que, enquanto a economia operar acima do pleno emprego, o dispêndio público não gera pressões inflacionárias, pois há capacidade ociosa suficiente a ser preenchida para atender a demanda crescente. Ao mesmo tempo, os efeitos multiplicadores advindos do gasto público tendem a estimular o aumento da oferta privada, o que ajuda a diminuir os efeitos sobre preços de uma política fiscal expansionista. Nesse caso, até que se atinja o pleno emprego, não há motivos pensando em inflação (pelo lado da demanda) para as classes mais altas rejeitaram a obtenção do máximo emprego do ponto de vista técnico, também.
Kalecki desloca a discussão para questão política. São três pontos apontados que indicam o por que da rejeição ao pleno emprego por parte dos capitalistas. Em primeiro lugar, pelo desgosto dos capitalistas em relação à política governamental de obtenção do pleno emprego. Em segundo lugar, eles são contrários a qualquer direcionamento do gasto público. E por fim, eles são temorosos quanto às consequências sociais da manutenção do pleno emprego.
No que se refere ao primeiro ponto, Kalecki afirma que em um sistema de livre mercado com baixas restrições (“laissez faire”), o investimento e o emprego dependem do chamado “estado de confiança” determinado pelos próprios capitalistas. Nesse sentido, eles só investem se acreditarem que o ambiente e as perspectivas lhe são favoráveis, o que fortalece a classe capitalista como "detentora do poder do emprego". Se o governo, via uma política fiscal mais ativa, consegue influenciar no nível emprego, direta ou indiretamente, esse poder dos capitalistas diminui, influindo sobre a capacidade dessa classe na determinação do "estado de confiança".
No que se refere ao segundo ponto, para a classe capitalista, há um medo de que o gasto público ganhe espaço e vá ocupando lugares relativos ao setor privado (por exemplo, como uma nacionalização dos transportes), assim como temor de que as empresas estatais podem se tornar concorrentes das empresas privadas. Desse modo, a preferência dos capitalistas no estímulo econômico seria pelo uso de subsídio ao consumo. Na prática, conforme Kalecki afirma, os homens de negócios são contrários a isso, pois fere uma questão moral do próprio indivíduo obter seu sustentado pelo trabalho.
E por fim, o principal argumento proposto no artigo é de que a manutenção do pleno emprego é malvista pelos capitalistas, pois a "disciplina da fábrica" perde eficácia. Conforme o emprego cresce, o poder de barganha dos trabalhadores aumenta, haja visto que, com mercado de trabalho aquecido, isso faz com que essa classe deixe de aceitar salários mais baixos pelo simples medo de ser demitida. Nesse sentido, novamente, o poder de controle dos capitalistas sobre o emprego é minimizado, agravado pela maior força da classe trabalhadora (especialmente, em um contexto de sindicatos fortes). Kalecki nota que, mesmo que os salários cresçam menos do que os preços e, portanto, os lucros não caiam, a perda de poder político na determinação da dinâmica do mercado de trabalho faz com que os capitalista defendam políticas que afastem a economia do pleno emprego.
Kalecki argumenta que regimes autoritários da década de 1930, ao concentrarem o poder político, conseguiram direcionar gastos públicos para a criação de empregos e para o setor militar, beneficiando o setor privado. Nesses regimes, o Estado exercia controle direto sobre as fábricas, limitando o poder de negociação dos trabalhadores substituindo os capitalistas nesse papel. Mesmo em democracias, a resistência à política de pleno emprego diminuiu após a experiência da guerra e do desemprego massivo. No entanto, o debate sobre a duração das políticas de pleno emprego e as ações a serem tomadas em recessões permaneceu.
Nas democracias, a classe capitalista defende políticas econômicas indiretas, como redução da taxa de juros e, para estimular o emprego. Porém, essas medidas podem ser positivas durante a expansão do ciclo, mas tendem a ser revertidas em momentos de crises. No momento da baixa do ciclo, o conflito de interesses entre capitalistas e Estado pode levar à adoção de medidas de austeridade como uma forma de criar um ambiente de confiança para o investimento privado (chamada, ironicamente, de "fada da confiança" por Paul Krugman). Porém, se isso não se traduzir em retomada do crescimento, o Estado deverá voltar a gastar mais para garantir o emprego e a renda. Nesse sentido, forma-se uma relação entre ciclos econômicos e políticos, em que aumento dos gastos é seguido por políticas ortodoxas, retomada dos gastos, críticas dos capitalistas em prol de uma nova rodada de austeridade e assim sucessivamente.
A conclusão de Kalecki é de que o capitalismo de pleno emprego deveria criar novas instituições que busquem, de fato, melhorar a vida dos trabalhadores e não apenas a geração de emprego, inclusive, como uma forma de minimizar o poder da classe capitalista sobre o mercado de trabalho. Caso contrário, esse sistema não funcionará, devido ao óbvio poder políticos que os capitalistas possuem. Para aqueles que acreditam que há uma desproporcionalidade na capacidade de influência política e econômica por parte tanto dos capitalistas industriais quanto financeiros (a chamada Faria Lima no Brasil), a reflexão de Kalecki continua atual.
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