sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Guerras Cambais e os efeitos negativos sobre comércio externo


Entre 2010 e 2012, um termo ganhou as manchetes dos jornais econômicos: guerra cambial. Esse conceito foi muito utilizado pelo então ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, no contexto da forte injeção de liquidez, realizada pelo Banco Central Americano (FED). A política monetária expansionista, o Quantitative Easing, estava levando a uma abundância de dólares no mundo, desvalorizando a moeda norte-americana e pressionando pela valorização de outras moedas. Nesse sentido, para conter alguns efeitos indesejados de uma valorização excessiva (perda de competitividade das exportações e aumento das importações), muitos países, dentre os quais o Brasil, ameaçam desvalorizar, também, suas moedas. Dai o termo guerra cambial. Com a recente vitória de Trump, um de seus objetivos é retomar tarifas protecionistas contra importações do resto do mundo, o debate sobre não apenas uma guerra comercial (entre tarifas), mas uma guerra cambial foi retomado. 

O uso da taxa de câmbio como um instrumento de proteção à economia doméstica não é algo novo. No crepúsculo do padrão-ouro, já sob a influência da Grande Depressão, muitos países abandonaram a paridade fixa do câmbio em relação ao ouro e desvalorizaram suas moedas para corrigir os desequilíbrios externos sem que fosse necessário um ajuste recessivo (no padrão-ouro, para manter a paridade fixa câmbio-ouro diante de um desequilíbrio no balanço de pagamentos, adotavam-se políticas contracionistas para desaquecer a economia, comprimindo as importações, assim como mantinha-se juros altos para evitar fuga de capitais). Aliada a medidas protecionistas, as desvalorizações cambiais tinham como objetivo "empobrecer o vizinho", no sentido de que cada economia buscaria ao máximo exportar para os vizinhos, mas não importaria os bens produzidos. Para os países periféricos, como o Brasil, no auge da Grande Depressão, não havia muita escolha, afinal, o colapso do comércio mundial, devido à baixa demanda dos países desenvolvidos por insumos e alimentos, e da diminuição do investimento externo reduziram fortemente as divisas externas, praticamente, obrigando ao abandono do padrão-ouro e à adoção da desvalorização cambial (e medidas de substituição de importações). 

Desse modo, qual o impacto das guerras cambiais sobre o comércio exterior? É essa questão que Kris Mitchener e Kirsten Wandschneider buscam responder no artigo "Currency Wars and Trade", publicado como Working Paper no Nber em Dezembro de 2024. O intuito da pesquisa é estimar, empiricamente, os efeitos de uma desvalorização cambial para o comércio externo bilateral ente os países. Para tanto, os autores utilizam dados referentes ao final da década de 1920 e década de 1930 (1925-1938), justamente, período em que guerras cambiais e comerciais foram mais intensas. 

No que se refere à parte empírica, Mitchener e Wandschneider, inicialmente, analisam qual o efeito no comércio quando, em uma dada relação comercial, um país ou os dois países desvalorizam sua moeda moeda em comparação ao efeito quando dois parceiros não desvalorizam, no caso, quando outros parceiros realizaram trocas dentro do padrão-ouro. Isto é, o objetivo é comparar o que ocorre quando em uma relação comercial há desvalorização da moeda e quando não há mudanças na taxa de câmbio. O primeiro resultado apresentado indica que, em média, quando há uma desvalorização cambial, as trocas comerciais tendem a cair 22% em comparação quando não há desvalorização. Ou seja, a desvalorização cambial impacta negativamente nas trocas comerciais externas. O autores chegam a apontar que, entre os países periféricos, os quais acabaram promovendo maiores desvalorizações cambiais, a redução no comércio externo chegou a 45%. 

A explicação dos autores para esse resultado é de que uma desvalorização da moeda tende a encarecer os custos do comércio externo. Em primeiro lugar, diante da incerteza cambial, as firmas tendem a repassar para preços essa desvalorização, o que reduz o interesse no comércio externo, afinal, o preço das mercadorias fica mais caro. Em segundo lugar, há um outro efeito sobre os custos: os países precisam procurar outros fornecedores mais barato para importar, o que eleva os custos empresariais e nacionais de pesquisa e procura por esses fornecedores, o que acaba desestimulando o comércio entre as economias. 

Por fim, os autores fizeram um modelo de equilíbrio geral, levando em consideração dados referentes a 15 países que realizaram desvalorização cambial no ano de 1931. Os dados confirmam os resultados anteriores: países que adotaram desvalorização da moeda tiveram redução de 12% no comércio externo, enquanto países que se mantiveram no padrão-ouro, a queda foi de apenas 4,2%. 

A conclusão do estudo é de que guerras cambiais deprimem o comércio exterior. Porém, os autores enfatizam que o objetivo foi observar apenas esse efeito, não levando em consideração eventuais outros efeitos (que podem ser positivos) sobre a economia doméstica, assim como a intensidade da guerra cambial nos anos 1930 foi muito mais intensa do que na década de 2010 e, eventualmente, do que possa vir a ocorrer nos próximos anos se ela de fato se concretizar. De qualquer modo, esse estudo mostra como o comércio mundial pode estar sob risco caso o "espírito do tempo" estiver indicando por mais protecionismo e, principalmente, pelo uso da taxa de câmbio como instrumento para proteger a economia doméstica. 


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