segunda-feira, 31 de março de 2025

Não há caminho seguro para o desenvolvimento: O Atraso em Perspectiva Histórica em A.Gerschenkron


A literatura histórica sobre o desenvolvimento econômico, em geral, busca traçar as rotas que de sucesso como uma forma de apontar um caminho comum rumo ao desenvolvimento econômico. Alguns exemplos são o modelo etapista de Rostow, o dualismo de Lewis e o institucionalismo de Acemoglu. A ideia predominante é de que bastaria olhar para as experiências bem-sucedidas e repeti-las. Porém, nem todos autores seguiram essa lógica. Celso Furtado, Raúl Prebisch e outros cepalinos, em contraposição, apontavam para existência de assimetria no desenvolvimento do Centro e Periferia, a qual impedia a simples mimetização de casos bem-sucedidos de industrialização no centro do capitalismo pudessem servir como exemplo para a periferia. 

Um dos autores mais importantes que romperam com essa visão generalista sobre desenvolvimento foi o historiador econômico russo Alexander Gerschenkron (1904-1978). O principal objetivo de seus escritos foi o de analisar os processos históricos de industrialização em países atrasados, principalmente, seu país de origem, mas outros casos, como Alemanha, Japão e  França. O mais conhecido ensaio "Atraso em Perspectiva Histórica", publicado em 1962 no livro de mesmo nome, tem a tese de que o desenvolvimento das nações atrasadas (em relação à Inglaterra, ou a países já industrializados), em virtude do próprio atraso, apresenta diferenças significativas comparativamente aos seus antecessores. Ou seja, a própria condição histórica do atraso faz com que se coloquem obstáculos diferentes no processo de industrialização que impedem a mera repetição daquilo que deu certo.  

Gersechenkron se mostra crítico a uma vertente marxista, segundo a qual a história dos países industrializadas serve como modelo a ser seguido pelos atrasados. Em geral, havia a percepção de que a trajetória industrializante alemã se assemelhava à Inglaterra, o que, eventualmente, confirmaria essa tese. Ainda que divirja, o autor russo mostra que mesmo casos semelhantes não podem ser encaixados em uma regra. O principal argumento  é de que  o processo de industrialização dos países atrasados apresenta significativas diferenças em relação aos países adiantados, devido à  necessidade de um desenvolvimento mais veloz (no sentido de que é necessário desenvolver diversos setores ao mesmo tempo), às distintas estruturas produtivas e organizacionais (tamanho das empresas, escalas de produção e necessidades de recursos) no contexto histórico da industrialização, assim como o clima intelectual durante o processo não é igual em cada momento. Conforme mais atrasado um país, mais acentuados e intensos esses fatores se sobrepõem à industrialização retardatária. 

Eis a principal proposição deste ensaio: em diversos casos históricos importantes, os processos de industrialização, ao serem finalmente lançados em países atrasados, se comparados às nações adiantadas. Isso ocorreu não só no tocante à velocidade do desenvolvimento (a taxa de crescimento industrial), mas também às estruturas produtivas e organizacionais da indústria que emergiu desses processos. Em considerável medida, tais diferenças na velocidade e no caráter do desenvolvimento industrial resultam da ação de instrumentos institucionais com pouco ou nenhum equivalente nos países industriais avançados. Além disso, o clima intelectual em que se dá a industrialização – seu “espírito” ou “ideologia” – difere bastante entre países adiantados e atrasados. Por último, o grau em que esses atributos ocorrem em cada caso parece variar na proporção direta do grau de atraso e das potencialidades industriais naturais dos países em questão (Gerschenkron, o Atraso em Perspectiva Histórica, pg.69). 

No caso dos países atrasados, há uma tensão latente entre o estado real e os obstáculos ao desenvolvimento e as promessas que esse desenvolvimento podem produzir. Isto é, quanto mais atrasado uma nação, maiores são os obstáculos e desafios, porém, os resultados tendem a ser extraordinários quando a industrialização se concretiza. Em geral, os primeiros empecilhos à industrialização estão vinculados a recursos naturais e a questões institucionais, como servidão e unificação política. Uma vez resolvidos esses problemas iniciais, a industrialização será mais sucedida conforme se configura uma articulação benigna com economias industrializadas, por intermédio do acesso a vantagens tecnológicas (como compra de bens de capital, acesso a métodos de produção e a trabalhadores qualificados) e financeiras (empréstimos). 

A industrialização se concretiza no momento em que se introduz métodos mais modernos e eficientes no processo produtivo. No período do capitalismo concorrencial (entre 1830-1870), as economias atrasadas da Europa Ocidental se industrializaram, beneficiando-se da compra e empréstimos de tecnologias e de crédito advindas da Inglaterra. Além do mais, a consolidação do processo de industrialização faz-se necessário que esses avanços tecnológicos se espalhem para diversos setores, devido à interdependência entre eles. Por exemplo, a construção de ferrovias em nações que se industrializaram envolveu o desenvolvimento de setores como ferro, aço e bens de capitais. Portanto, no caso das economias atrasadas, não bastaria desenvolver um setor específico (por exemplo, bens de consumo finais), ao contrário, é preciso estimular vários setores que possuem economias externas de escala e que, consequentemente, estejam interligados. 

Conforme o processo de industrialização em larga escala se concretiza, são superados os obstáculos técnicos, econômicos e institucionais mais complicados, ao mesmo tempo, em que os benefícios obtidos se tornaram extremamente favoráveis. Isto é, quanto maior o desafio industrializante, maiores serão as recompensas no que tange às possibilidades de mudanças econômicas estruturais. No curso do tempo, os desafios para os países atrasados se intensificam, pois os próprios países avançados continuam revolucionando os meios e os modos de produção, especialmente, no que se refere à inovação tecnológica, ampliando o hiato do desenvolvimento para os atrasados. 

Gerschenkron analisou os diversos instrumentos utilizados na superação do atraso. O primeiro mencionado é o amplo uso do sistema bancário no financiamento dos processos de industrialização. No caso da França, como forma de contrabalancear a redução das tarifas de importação (Tratado Cobden-Chevelier, 1860), o governo estimulou a indústria por intermédio do financiamento bancário, em particular, dos bancos de investimento e universais. Desse modo, foi possível fornecer crédito de longo prazo para diversos setores industriais, como ferrovias, construção de minas e de fábricas. Isso acabou gerando uma tensão latente entre os antigos bancos (como Rotschilds) que financiavam a dívida pública e os novos bancos, como Crédit-Mobilier, emprestavam recursos para criação de riqueza nova nos setores industriais modernos. 

O contexto histórico da industrialização europeia, em meados do século XIX, impunha a necessidade de construção de fábricas que produzissem em larga escala e que utilizassem máquinas e métodos mais modernos. Nesse sentido, o volume necessário de recursos para financiar tais empreendimentos era muito maior em comparação ao momento da industrialização na Inglaterra, cuja estrutura produtiva, advinda da I Revolução Industrial, baseava-se na constituição de pequenas e média empresas e em um maquinário menos tecnológico e mais prático. Dada essa menor complexidade estrutural, a principal fonte de financiamento empresarial era o acúmulo de lucros, de modo que o papel dos bancos comerciais circunscrevia-se ao crédito de curto prazo. Contrariamente, nos países atrasados, devido à complexidade e tamanho dos setores e empresas a serem estimulados, o acúmulo de lucros se mostrava insuficiente para financiar tais investimento, reforçando a necessidade de crédito de longo prazo, fornecido por bancos de investimento. 

No caso alemão, houve um processo de fusões bancárias e industriais. De um lado, com bancos de maior porte, ampliou-se o volume de recursos para o financiamento da industrialização. De outro lado, conforme as empresas industriais se fundiam, elas se tornavam maiores e reduziam os riscos associados à concorrência (como falência), facilitando ainda mais a capacidade de tomada de empréstimos. Além do mais, os interesses bancários estavam entrelaçados dentro das próprias indústrias, de modo que se constituíam verdadeiros conglomerados industriais-bancários, canalizando crédito para o investimento a longo prazo. A Alemanha soube tirar proveito do próprio atraso ao buscar novas formas de se industrializar. 

Na virada do século XIX para o XX, a industrialização na Europa continuou avançando, em especial, com a II Revolução Industrial, com o surgimento de novos setores, novos tipos de empresas e novas tecnologicas. Na Alemanha, o crescimento das empresas industriais fez com que vínculo das empresas industriais se desse não apenas com um único banco, mas na cooperação com diversas instituições bancária, assim como as próprias indústrias passaram a desenvolver seus próprios bancos para financiarem suas atividades, como no setor da engenharia elétrica. Nesse sentido, mesmo com o desenvolvimento mais avançado, o novo contexto histórico ainda recolocava os elementos do atraso, especialmente, na necessidade de intensificar a relação indústria-banco, garantindo um caráter específico no seu processo de industrialização. 

A experiência alemã se generalizou para Áustria, Itália, Suíça, França e Bélgica, que souberam tirar proveito do sistema bancário de longo prazo. Porém, nem todas outras experiências industrializantes seguiram esse caminho. Em primeiro lugar, algumas localidades, como a Dinamarca, apresentavam atraso relativo, mas optaram por não se industrializaram no período, pois era mais interessante exportar matérias-primas para a Inglaterra. Em segundo lugar, em algumas situações, os elementos básicos do atraso se faziam tão complexos e difíceis, em relação a países da Europa Ocidental, que era necessário o uso de outros instrumentos para promover a industrialização, como na Rússia, cujo processo se inicia apenas a partir de 1880, partindo de um nível de desenvolvimento muito inferior à Alemanha e Áustria, assim como a servidão só foi abolida em 1861.

O desenvolvimento russo assumiu um caminho diferenciado em relação à Europa Ocidental, devido ao seu caráter militar, o que impunha maior o maior papel ao Estado. O objetivo militarista da industrialização levou à ampliação da cobrança de impostos sobre a população em geral, acentuando um caráter cíclico e irregular no processo de industrialização, em que momentos de elevado crescimento, impulsionado pelas exigências governamentais, eram seguidos de estagnação, pois o esforço acelerador encontrava limites nos sacrifícios físicos e monetários impostos à população. 

Em relação a experiências da Europa Ocidental, o papel do Estado foi mais amplo e diferenciado na Rússia. Uma medida fundamental foi a revogação formal da servidão, haja visto que o processo de industrialização demandava a emancipação dos camponeses e o término de laços feudais nas relações de produção. Porém, houve uma atuação mais ativa por parte Estado na construção de ferrovias na década de 1880, a qual foi principal alavanca da industrialização russa. De um lado, o governo encomendava insumos e matérias-primas nacionais, e, de outro lado, garantia subsídios e crédito para as empresas nacionais. Reformas mais estruturais, como a tributária e a estabilização do rublo contribuíram para o crescimento econômico no período.  

A comparação entre o atraso alemão e russo no processo de industrialização reforçam a tese de Gerschenkron. No Rússia, não se constituiu um sistema bancário privado sólida capaz de fornecer recursos necessários para sustentar industrialização em larga escala, assim como faltava confiança e honestidade. Consequentemente, a oferta de capital dependia do governo, o que levou ao uso da tributação como forma de direcionar recursos do consumo da população para a indústria pesada, em particular, setores bélicos e de bens de capital. Ainda que o foco fosse o desenvolvimento militar na Rússia, a industrialização se auto-reforçava, devido à forte interligação setorial. Ou seja, tanto em termos de objetivos e de instrumentos, a industrialização russa foi específica em relação ao desenvolvimento da Europa Ocidental em meados do século XIX.   

A própria temporalidade no transcorrer da industrialização impõem modificações, como exemplificado na Rússia a partir de 1906-1917. Isso porque, o próprio desenvolvimento levou a um forte crescimento das indústrias, de modo que apenas o financiamento estatal se mostrava insuficiente. Diante dessas novas necessidades decorrentes do atraso, os bancos de investimento, maioria sediados em São Petersburgo, se tornaram protagonistas nessa nova etapa em comparação a décadas anteriores. 

Após essas análises sobre as especificidades de cada processo, Gerschenkron reforça que a industrialização não é um processo natural, por isso é preciso que a ideologia predominante esteja consciente da necessidade do uso de medidas e instrumentos que permitam o avanço desse processo.  Caso contrário, uma nação se manterá sempre no atraso e se distanciando ainda mais dos desenvolvidos. Isto é, a sociedade deve impulsionar a industrialização e não esperar sua concretização venha do céu. No século XX, essa lição foi aprendida por alguns países latino-americanos (notadamente, o Brasil) e asiáticos (Coréia do Sul) que rechaçaram a ideia de que a especialização na divisão do trabalho garantiria o desenvolvimento e direcionaram seus esforços para se industrializarem, enquanto outros países optaram pelo caminho natural e continuam relativamente atrasados em relação a seus pares e aos países plenamente desenvolvidos. 

Em síntese, Gerschenkron defende que é preciso analisar cada processo de industrialização, a partir de suas especificidades, portanto, não se pode defender uma teoria geral. No caso de países não-europeus, o entendimento cultural do contexto anterior a um eventual processo de industrialização deve ser compreendido para que se possa recomendar instrumentos adequados para a superação do atraso. Em áreas menos desenvolvidas, o atraso, ao mesmo tempo, em que cria oportunidades de elevado crescimento e desenvolvimento, também, gera obstáculos custosos de serem suplantados, de modo que, muitas vezes,  alguns países escolhem a via mais fácil e sem resistência. A lição que deveria guiar o século XX é de que os países adiantados não podem ignorar o atraso dos demais, rejeitando ou criando dificuldades para que eles se industrializassem, pois isso prejudicaria o mundo inteiro. Isso pode ser aplicado ao século XXI.  Ao mesmo tempo, o século XIX mostrou que não se pode ignorar as especificidades do desenvolvimento em cada país. Como diria já um economista sul-coreano, Ha-Joon Chang, as economias desenvolvidas não podem "chutar a escada" ou fornecer uma fórmula de sucesso (como um simples liberalismo) para aqueles que desejam se desenvolver, de modo que cada nação deve utilizar seu ferramental próprio, levando em consideração suas características peculiares e estágio do seu atraso. 


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