terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Geopolítica e padrões monetários no crescimento econômico



Crescimento e desenvolvimento econômico são temas recorrentes no estudo da Economia. O livro, considerado "fundador" da economia como um ramo de estudo independente se chama A Riqueza das Nações, escrito por Adam Smith, cujo objetivo era analisar os fatores que promovem o crescimento econômico. Mais recentemente, o prêmio Nobel de 2025 foi destinado a três pesquisadores (Daron Acemoglu, James Robinson, Simon Johson) que enfatizam o papel das instituições como um fator geral para o crescimento econômico. A busca por fatores "universais" é frequente nas obras de economia, de modo que, em alguns momentos, deixa-se de lado a importância das condições históricas e da organização geopolítica como uma fonte explicativa. 

No artigo "Padrões Monetários Internacionais e Crescimento",  publicado no livro "Estados e Moedas no Desenvolvimento das Nações" (Editora Vozes) de 1997, organizado por José Luis Fiori, Franklin Serrano e Carlos Aguiar Medeiros (professores da UFRJ) defendem a hipótese de que o espaço para realização de políticas de crescimento em cada momento histórico depende de dois fatores: 1) característica do regime monetário internacional, ou seja, da forma como o país central opera o padrão monetário internacional; e 2) orientação geopolítica das potências dominantes. Nesse sentido, o gerenciamento da política monetária, fiscal e comércio externo por parte do condutor da hegemonia determina a maior ou menor amplitude com que os estados nacionais conseguem adotar medidas de promoção do crescimento econômico. 

Sob esse prisma, os autores reconstroem os três regimes monetários, após a consolidação da Revolução Industrial: 1) padrão libra-ouro de 1830-1914; 2) padrão dólar-ouro de 1945-1973; 3) padrão dólar-fiduciário (pós-1973). Parte-se da tradição cepalina da existência de uma relação assimétrica entre países centrais e periféricos, concretizado na diferença de poderio militar, na gestão da liquidez internacional, e no controle da tecnologia e inovação. Mudanças nessas hierarquias não são fenômenos naturais (subdesenvolvimento como uma etapa para o desenvolvimento, por exemplo), mas dependem das estratégias dos estados nacionais para lidar com essa problemática. As condições para avançar em processos de expansão econômico são condicionadas pelas condições geopolíticas e monetárias internacionais vigentes. 

No primeiro período, referente ao padrão ouro-libra, Grã-Bretanha consolidou-se como potência hegemônica, devido ao pioneirismo na Revolução Industrial. Nesse padrão, em tese, a moeda doméstica deveria ser conversível em ouro a uma taxa fixa, portanto, o espaço para políticas monetárias expansionistas era bem mais limitado. A Grã-Bretanha apresentava déficits comerciais, especialmente, após os processos de industrialização de Alemanha e Estados Unidos, mas que eram compensados pela conta renda e serviços, vinculados ao poderio naval (fretes e seguros), financeiro (juros e lucros, devido a empréstimos, aplicações financeiras, e aos investimentos diretos no exterior) e colonial (elevado superávit com a Índia). Aos poucos, portanto, a hegemonia inglesa se consolidou por meio desse tripé militar-financeiro-colonial. 

Dois padrões de crescimento se dão nesse contexto. O primeiro é o modelo agrário-exportador, em um contexto de ampla divisão internacional do trabalho. Nesse caso, dependia-se da demanda por insumos e matérias-primas por parte da Inglaterra, assim como de investimentos diretos relacionados à infraestrutura, para evitar problemas de balanço de pagamento. A periferia capitalista estava vulnerável ao ciclo econômico internacional: durante a expansão da potência hegemônica, as exportações e o investimento externo cresciam, promovendo crescimento, renda e emprego. Porém, quando Grã-Bretanha realizava um ajuste externo, por intermédio da elevação de juros e contração da demanda, ocasionando saída de capitais e redução dos preços das commodities. Consequentemente, isso gerava déficits no balanço de pagamentos , cujos resultados se traduziam em crises cambiais e econômicas. Ou seja, o modelo agrário-exportador apresentava maior volatilidade e sensibilidade às condições externas, com claros limites à gestão mais autônoma da política econômica.

O segundo padrão de desenvolvimento é denominado de "Déficit de Atenção Britânico", pois a própria Inglaterra permitiu que Alemanha e Estados Unidos utilizassem políticas de industrialização, inclusive lançando mão do protecionismo. Além do mais, havia incentivo tácito da Inglaterra na promoção desse processo de industrialização na forma de empréstimos financeiros, tecnologia (bens de capital) e mão-de-obra, fatores fundamentais para a consolidação de grandes setores industriais nesses dois países. Inicialmente, a industrialização dos países atrasados e a Inglaterra eram complementares, mas, no final do século XIX, a rivalidade se acirra com a Alemanha, em particular, no desenvolvimento da indústria naval. 

O protecionismo adotados pelos "retardatários" foi fundamental para garantir extenso mercado e escala para os oligopólios que estavam surgindo. No final do século XIX, o surgimento de novos setores e tecnologia no contexto da emergência da II Revolução Industrial, acirrou a competitividade entre os países, com Alemanha e Estados Unidos melhores posicionados para lidar com a nova realidade. A combinação entre indústria e finanças se tornou mais estreito, de modo que, a partir de 1880 consolida-se o capitalismo oligopolista, típico dos casos alemão e norte-americano. Por outro lado, a indústria inglesa ficou presa às característica da I Revolução Industrial, perdendo cada vez mais seu papel como oficina do mundo. 

A Primeira Guerra Mundial consolida o fim da hegemonia britânica, mas, principalmente, da ordem liberal, fundada no padrão-ouro. A derrota alemã na Guerra, mas o enfraquecimento britânico e francês deixaram um vazio na posição de liderança global, a qual deveria ser passada aos Estados Unidos, o qual conseguiu capitalizar com empréstimos aos aliados e não obteve nenhum prejuízo físico e humano. Porém, o isolamento internacional e econômico (protecionismo e elevados superávits comerciais) dificultavam que o país americano encarnasse esse papel que antes era de sua antiga metrópole. 

A tentativa frustrada de retorno ao padrão-ouro e a Grande Depressão nos anos 1920 e 1930 colocaram em xeque o capitalismo de livre concorrência e o padrão-ouro. Para a periferia global, impactada pelo colapso dos preços agrícolas e dos investimentos externos nesse contexto, não havia outra forma de lidar com o cenário adverso que não fosse adoção de um novo modelo, baseado em substituições de importações. Com o agravamento da escassez de divisas e cenário negativo no comércio internacional levaram alguns países periféricos a produzirem internamente bens industriais leves antes importados e a direcionarem a pouca divisa internacional para adquirir bens necessários ao processo produtivo. A partir de meados dos anos 1930 e 1940, alguns países periféricos tiveram espaço para adotar medidas intervencionistas em prol da sua industrialização, rompendo com o modelo agrário-exportador. 

Após a Segunda Guerra Mundial, o horror do Nazi-Fascismo, políticas de "empobreça seu vizinho" e o avanço do comunismo ligaram um alerta nas principais economias mundiais de que um novo regime monetário mais flexível e aberto ao crescimento econômico deveria ser implementado. Os Estados Unidos emergem como a grande potência econômica em um mundo polarizado entre bloco capitalista e socialista, este liderado pela União Soviética. Dois eram os principais objetivos do regime construído em Bretton Woods: fornecimento de liquidez para evitar ajustes recessivos e a retomada do comércio mundial. Para tanto, foram criadas instituições multilaterais, cujo papel era o fornecimento de liquidez, e a imposição de taxas câmbio fixas, porém, flexíveis diante de desequilíbrios externos estruturais.

A hegemonia norte-americana fica clara na sua superioridade econômica, industrial e militar em relação à União Soviética, mas, principalmente, na infiltração de seus interesses nas organizações supranacionais, em particular, FMI e Banco Mundial. O dólar-ouro se torna o padrão monetário internacional. Inicialmente, o status superavitário norte-americano foi problema, pois a quase totalidade das reservas de ouro estavam em Fort Knox, assim como os países europeus e Japão sofriam com escassez de divisas, principal desafio para retomada no pós-Guerra. Além do mais, a defesa de "pastorização" de Alemanha e Japão por parte dos Estados Unidos indicava que os erros do Tratado de Versailles ainda não haviam sido aprendidos. 

O temor do comunismo alterou a perspectiva norte-americana sobre como gerir sua hegemonia. O Plano Marshall (ajuda financeira para Europa ocidental e Japão se reconstruírem) ajudou na resolução do problema da escassez de divisas. Mas, principalmente, os Estados Unidos se tornam mais permissivos à adoção de políticas econômicas pró-crescimento de seus aliados. Nesse sentido, tolerou-se medidas como protecionismo, desvalorização cambial e políticas fiscais e monetárias mais expansionistas com o intuito de estimular o crescimento econômico na Europa Ocidental e Japão, visando expurgar o "fantasma" de eventuais ideais comunistas. Nesse contexto, os autores apontam para um "desenvolvimento à convite": a abertura do mercado interno norte-americano para as importações de bens industriais de países aliados, como Alemanha e Japão (e, posteriormente, Coreia do Sul), maior permissividade com as políticas econômicas internas, e o financiamento direto ou indireto por meio de órgãos multilaterais foram fatores decisivos que forneceram um ambiente doméstico mais propício para políticas keynesianas de estímulo ao emprego e a renda. Como contrapartida, os Estados Unidos apresentaram crônicos déficits fiscais, devido a gastos sociais e militares, e comerciais. 

Se Europa Ocidental e Japão se beneficiariam do papel de demanda efetiva realizada pelos Estados Unidos, o cenário para América Latina foi um pouco mais adverso, pois não houve nenhum Plano Marshall regional. Porém, nesse contexto geopolítico de polarização, o investimento direto europeu foi fundamental para a consolidação dos processos de industrialização. A grandes empresas estrangeiras eram protegidas e tinham acesso a extenso mercados. Alinhado com investimento estatal, as décadas de 1950 e 1960 representaram a intensificação da industrialização para setores mais modernos de bens intermediários e de capital. Mesmo assim, Medeiros e Serrano apontam alguns problemas desse modelo, como o baixo impulso exportador e efeito líquido negativo das divisas, devido à remissão de lucros e importações de componentes-chave das matriz, de modo que ainda se dependia da exportação de commodities para fechar as contas externas. De qualquer, o chamado "Desenvolvimentismo" foi crucial para o avanço industrializante na América Latina e em alguns localidades do Sudeste Asiático. As condições geopolíticas e do padrão monetário mais flexível de Bretton Woods permitiram que países convidados ou não dos Estados Unidos pudessem crescer com certo vigor. 

A década de 1970 representa o fim de Bretton Woods, em um cenário de estagnação econômica e aumento da inflação. As crescentes desconfianças em relação ao excesso de dólar levaram à sua falta de credibilidade e o fim do dólar-ouro. Entre 1971-1973, rompeu-se a paridade dólar com o ouro, configurando o padrão-dólar fiduciário, e as taxas de câmbio passaram a flutuar livremente. A desvalorização do dólar em relação às moedas dos países aliados, como Alemanha e Japão, tinha como intuito resolver o desequilíbrio externo sem comprometer os gastos fiscais. As consequências foram danosas: a Europa, dependente do crescimento alemão, entra em recessão com a queda das exportações para os Estados Unidos, assim como a valorização do iene prejudica as vendas externas japonesas. Por outro lado, a emergência de credores privados e de mercados desregulados, gerou uma onda de empréstimos em condições, inicialmente, favoráveis para a América Latina, permitindo a sustentação das políticas de industrialização, mesmo em um contexto externo mais difícil. 

Em 1979, Paul Volcker eleva de modo significativo a taxa de juros como forma de controlar a inflação e fortalecer o dólar (diplomacia do dólar forte). Isso traz impactos negativos para o mundo, pois os capitais fluem para o mercado financeiro norte-americano, promovendo elevações nas taxas de juros nos países centrais. Para a América Latina, o aumento da dívida externa e a ausência de fluxos de capitais após o default mexicano em 1982 conduziram ao fim das políticas desenvolvimentistas e industrializantes. 

Nesse novo cenário, a hegemonia norte-americana se reafirma ao enquadrar os aliados aos seus interesses. Para os países centrais, a década de 1980 e começo dos 1990 é de reestruturação industrial (modernização nos padrões tecnológicos, em particular, adequação à microeletrônica) como forma de lidar com a desvalorização do dólar em 1985 e 1987 (acordos do Plaza e Louvre, respectivamente). As empresas e bancos japoneses, diante da menor competitividade das exportações, se direcionaram para outros países do sudeste asiático, cujas moedas não se valorizaram. Assim, Coréia e demais tigres asiáticos se beneficiaram desse investimento, enquanto o Japão entra em uma crise secular. A Europa sofre com baixo crescimento econômico, juros altos e desequilíbrios fiscais. 

Já a partir de meados de 1990, os Estados Unidos revertem sua política de desvalorização. A indústria norte-americana volta a ficar defasada e intensifica-se o processo de formação de cadeias globais de valor, novamente, beneficiando países do sudeste asiático. Nesse sentido, o investimento direto norte-americana ajuda a estimular a expansão industrial e das exportações de economias como na China e Taiwan. Em paralelo, processos de flexibilização e liberalização dos mercados financeiros se tornam a norma tanto para países centrais quanto periféricos. Para estes, além dessas medidas, foram determinadas políticas de abertura comercial e de equilíbrio fiscal, cujas consequências levaram, segundo os autores, à perda de competitividade e um processo de enfraquecimento do setor industrial, sepultando de vez o desenvolvimentismo. No final da década, esse intenso processo de globalização financeira, o qual tornou os fluxos de capitais mais voláteis, ocasionou sucessivas crises financeiras e cambiais na periferia, começando pelo leste asiático, passando pela Rússia e culminando no Brasil. Por outro lado, o avanço da financeirização nos países centrais, centrada no crédito e na valorização das ações, permitiu sustentar um modelo de crescimento baseado no endividamento. 

O crescimento econômico mundial, sob o sistema dólar-flexível, está cada vez mais atrelado à política monetária dos Estados Unidos. Após 1980, com o fortalecimento do mercado financeiro americano, o crescimento do centro e da periferia do capitalismo passou a depender da gestão dessa política e das expectativas dos investidores. Quando os Estados Unidos adotam políticas monetárias mais frouxas, a liquidez global aumenta, facilitando o financiamento dos países e permitindo maior flexibilidade em suas políticas econômicas. Além disso, o aumento do preço das commodities beneficia os países periféricos. No entanto, esse cenário se reverte diante de pressões inflacionárias e nas contas externas da potência hegemônica. Nesses casos, o aumento das taxas de juros americanas se reflete em políticas contracionistas no mundo, e a fuga de capitais para o mercado norte-americano tende a gerar crises financeiras e cambiais, especialmente nos países periféricos. Como resultado, o crescimento econômico global se torna mais modesto e volátil, com impactos negativos sobre o emprego e a renda.

O crescimento econômico de um país está ligado ao contexto geopolítico e à gestão do padrão monetário da potência hegemônica, pois estes fatores afetam a capacidade de países não emissores de moeda de obter recursos externos. Em algumas situações, a disponibilidade de crédito e a permissão para o desenvolvimento aumentam a liberdade para os países implementarem políticas de crescimento. Com isso, Medeiros e Serrano concluem que não existe uma fórmula única para o crescimento e o desenvolvimento, sendo necessário analisar o contexto histórico para entender as possibilidades de cada economia

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