quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Inflação muito baixa nem sempre é boa notícia, ou Macroeconomia da Baixa Inflação



O Banco Central do Brasil, nos últimos anos, tem enfrentado dificuldades no cumprimento da meta de inflação, hoje fixada em 3%. De um lado, aponta-se que, a despeito da forte elevação da taxa de juros, os estímulos dos gastos públicos e o aquecimento da economia têm mais do que compensado os efeitos contracionistas dos juros. Por outro lado, críticos à política monetária contracionista, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendem que a meta estipulada de 3% é muito baixa e "inatingível" para a realidade brasileira. Economistas heterodoxos, em outubro de 2024, publicaram uma carta aberta ao Conselho Monetário Nacional propondo um aumento na meta de inflação para evitar uma política monetária muito mais rígida. 

Se uma inflação mais alta é um problema, pois retira poder de compra da população (em especial, dos mais pobres), por outro lado, a obtenção de uma inflação muito baixa pode gerar problemas econômicas, como desemprego e redução do crescimento econômico. Encontrar um ponto ótimo para inflação é complexo e está relacionada com um ajuste fino em atingir, na prática, os valores naturais do desemprego e do produto, tarefa nada simples. Essa dualidade da inflação levou George Arkelof, William Dickens e George Perry a investigarem os impactos macroeconômicos de uma inflação baixa, mais especificamente, uma inflação zero, cujo resultado foi o artigo intitulado "The Macroeconomic of Low Inflation", publicado no Brookings Papers On Economic Activity, No.1, em 1996. 

Inicialmente, os autores questionam a visão de que existe uma taxa natural de desemprego que não acelera a inflação (chamada NAIRU, Non-Accelerating Inflation Rate of Unemplyoment), visto que, a própria inflação, a longo prazo, é um fator que influencia na taxa de desemprego. Em síntese, eles defendem que uma inflação moderada permite maximizar o crescimento do produto e o emprego, enquanto uma inflação zero tende a gerar efeitos opostos. Ou seja, uma inflação muito baixa produz resultados deletérios, ao contrário do que sugere o senso comum. 

A conclusão dos autores depende de um pressuposto fundamental: os salários nominais possuem uma rigidez à baixa, ou seja, nas negociações contratuais é muito difícil que os trabalhadores aceitem quedas nominais em seus salários. Como consequência, o que varia é o salário real, a depender do comportamento do nível de preços. A exceção ocorre quando as firmas sofrem fortes choques econômicos, de modo que, em geral, no segundo ano desse "stress", os trabalhadores, para manterem seu emprego, acabam aceitando redução nominal dos salários. Para os autores, a rigidez à queda do salário nominal decorre da preferência dos trabalhadores em manterem os ganhos nominais, independentemente, do impacto disso sobre o seu salário real. Além do mais, mesmo diante de recessões, as firmas podem optar por manter o salário nominal (ao invés de reduzi-lo) para que os trabalhadores continuem motivados ou para evitar que os mais qualificados se demitam para buscar outras oportunidades. 

O trio apresentou evidências que corroboram essa hipótese central. Analisando dados da produção manufatureira, aponta-se que, entre 1959-1978, não houve quedas significativas nos salários nominais dos trabalhadores sindicalizados e dos não-sindicalizados (apenas 0,2% dos primeiros e 0,4% dos segundos tiveram quedas salariais). Tomando como referência o período entre 1970 e 1994, o ano em que se apresentou maior fração de trabalhadores com redução salarial foi em 1983 (15%), em um contexto de desaceleração econômica desde o começo da década. Em 1982, 42% mantiveram o salário congelado, e apenas 2% tiveram queda de salários. Nesse sentido, a rigidez só é quebrada em períodos de dificuldades econômicas, como em 1983. Mesmo em um cenário de baixa inflação e desemprego, a rigidez se mantém, conforme concretizado no Canadá, quando entre 1990-1992, apenas 5,7% dos acordos coletivos levaram à queda de salários, enquanto em 47,2% dos acordos não houve mudanças salariais. Em um cenário mais favorável (1986-1988), apenas 0,25% dos contratos canadenses analisados representavam queda de salários e 12,6% não houve nenhuma mudança. 

Para reforçar as evidências da literatura, os autores realizaram entrevistas com 409 trabalhadores. Deste total, apenas 2,7% dos trabalhadores relataram queda dos salários, sendo 3,1% no setor público e 2,4% no setor privado. Confirmou-se, portanto, a tendência de rigidez à queda salarial. Em síntese, os fatos estilizados apresentados corroboram essa hipótese central. 

A construção do modelo apresentado passa por outros dois pilares, além da rigidez salarial: competição monopolística, e efeitos heterogêneos de choques sobre as empresas. Neste último pressuposto, assume-se que as empresas reagem de modo diferentes a choques de demanda e de custos. Por exemplo, um choque positivo de demanda faz com que algumas empresas contratem mais trabalhadores para aumentar a produção, enquanto outras reduzem o emprego, devido ao aumento do salário real, haja visto que os salários nominais não caem. 

Definiu-se como salário nocional aquele que resulta da maximização de lucros por parte das empresas e dos salários para os trabalhadores. O salário nocional real barganhado depende do salário nominal, do desemprego, do poder de barganha dos trabalhadores, do tempo de desemprego, e os custos da firma no pleno emprego.  A curva de demanda por trabalho depende do salário nocional real, enquanto a curva de oferta por trabalho depende das condições que vão determinar o salário nocional, por isso, ela é uma curva ascendente: quanto maior o nível de emprego, maior o poder de barganha dos trabalhadores, o que pressiona para cima os salários reais. A intersecção entre oferta e demanda por trabalho vão determinar o salário real e o emprego de equilíbrio. Esse nível de emprego de equilíbrio é denominado de  Lowest Sustainable Rate of Unemployment (LSRU), isto é, a taxa de desemprego mais baixo possível de ser sustentada. Na ausência da rigidez salarial, a LSRU tende a se igualar à NAIRU, taxa de desemprego que não acelera a inflação. 

Em seguida, adicionou-se a rigidez salarial e os efeitos heterogêneos de choques sobre as empresas ao modelo. Assume-se que as firmas só irão cortar salários nominais depois de dois anos de choques negativos, como forma de reestruturação em prol de maior eficiência produtiva, assim como, conforme empresas vão à falência, os trabalhadores demitidos aceitam empregos com salários mais baixos do que então recebiam. A partir dessa construção teórica, os autores fizeram mais de quatrocentas simulações para ver os impactos sobre emprego e produto de uma meta de inflação zero. Para fins de simulação, eles assumiram que o desemprego de equilíbrio, a NSRU, é de 5,8% em um cenário de inflação a 3%. 

As simulações apresentaram um desvio médio de 2,1% no desemprego de equilíbrio de inflação zero em relação à NSRU. Como próximo passo, os autores ajustaram os parâmetros para o longo prazo, assumindo uma LSRU = 5,8%. A uma taxa de inflação de 3%, o desemprego de equilíbrio atingiu 5,9%, desvio de 1 p.p. Com uma taxa de 2%, o desemprego de equilíbrio saltou para 6,1%. Uma inflação de 1%, o desemprego atingiu 6,5%, e a uma inflação zero, a taxa de desemprego chegou a 7,6%. E por fim, uma deflação de 1% fez com que a taxa de desemprego saltasse para 10%. Em síntese, conforme escolhe-se uma meta de inflação mais baixa, o efeito colateral é o aumento do desemprego. 

A explicação está na dificuldade de ajustar o aumento de custos, devido ao crescimento dos salários reais, por meio de redução dos salários nominais. A diferença entre salário real atual médio e o salário real nocional médio é representado por um termo S. Conforme a inflação sai de 3% para 0%, o salário real atual médio tende a aumentar em relação ao salário real nocional médio, isto é, a variável S sobe, ocasionando um aumento nos custos das empresas. Em virtude da rigidez dos salários nominais, a única forma das firmas atingidas compensarem esse aumento de custo é demitindo os trabalhadores. Caso não se verificasse tal rigidez, as firmas poderiam, simplesmente, reduzir os salários nominais para compensar o aumento real dos salários. Na impossibilidade dessa estratégia, o ajuste ocorre via demissão de trabalhadores. Observa-se um nítido tradeoff entre inflação e desemprego: para que a taxa de desemprego fique em um patamar mais baixo, é preciso aceitar uma inflação um pouco mais alta. 

A heterogeneidade implica que nem todas as firmas vão demitir trabalhadores conforme o salário real médio sobe, devido à desaceleração da inflação. Por isso, a relação entre redução da inflação e aumento do desemprego não é tão é direta e generalizada, pois algumas empresas podem de fato absorver custos salariais mais alto repassando-os para preços (pressuposto da competição monopolística). Porém, conforme a inflação vai caindo para níveis mais baixos, isto é, para próximo de zero, mais firmas são atingidas pelos custos reais mais altos, consequentemente, a pressão sobre o desemprego é mais difundida em relação a um nível de inflação um pouco mais alto. 

Os autores realizaram análises de séries temporais para ver como o desemprego é afetado por uma política de estabilização inflacionária, assumindo, inicialmente, tanto uma taxa de inflação como desemprego a 6%. Em um cenário, a meta de inflação a ser perseguida é de 3% e a outra é de 0%. No primeiro cenário, a inflação cai 1 p.p nos primeiros anos, enquanto o desemprego cresce. A partir do quarto ano, a meta é atingida e a taxa de desemprego começa a cair até convergir para taxa de equilíbrio de 5,8%, mantendo-se nesse patamar até o fim da década. No segundo caso, conforme a inflação vai caindo, também, 1 p.p ao ano, o desemprego cresce mesmo passados três anos. A inflação se estabiliza no sexto ano, mas o desemprego atinge um valor elevado de 10%. Somente após atingir esse patamar, o desemprego começa a ceder, recuando para 8,4% no final da década. Isto é, o desemprego de equilíbrio é 2,6 p.p maior em um cenário de inflação zero em relação a um quadro de inflação a 3%. 

A partir desses resultados, os autores concluem que uma inflação muito baixa causa uma taxa de desemprego mais elevado em relação a uma inflação mais alta, ainda que em um patamar moderado (de 3%, por exemplo), ocasionando desperdícios de recursos. Esse resultado, é preciso ressaltar, que decorre da rigidez salarial para baixa que faz com que as firmas, diante de choques reais de custos, advindos de um salário real mais alto em um quadro de queda da inflação, se ajustem reduzindo o emprego e não salários nominais. Em síntese, o trio de autores defende uma inflação moderada e estável, ou seja, em nenhum momento eles propõem inflações elevadas. Ao contrário, eles parecem fixar uma inflação de 3% como algo aceitável tanto em termos de manutenção de poder de compra e uma taxa de desemprego relativamente baixa. 

Se a rigidez salarial for algo verificável no Brasil, o argumento de que perseguir metas de inflação mais baixas pode gerar desemprego pode ser utilizado para, eventualmente, mudar a meta de inflação. O estudo em questão focou mais na economia norte-americana, em que uma inflação de 3% é meta razoável, segundo os autores. Diante das características da economia brasileira, é bem provável que um valor de inflação que não impacte tanto o desemprego deva ser algo maior, mais próximo a 4,5% a 5% (mais ou menos a média histórica mais recente). Nesse sentido, os defensores de uma meta de inflação mais flexível podem utilizar a chamada Macroeconomia da Baixa Inflação como base para suas reclamações.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Mercantilismo em Thomas Mun


O clima de guerra comercial tem trazido à tona uma perspectiva de um jogo de soma zero no que tange o comércio internacional. Países que apresentam déficits comerciais, como os Estados Unidos, têm culpado economias superavitárias por seus problemas. O atual presidente norte-americano, Donald Trump, justificou a imposição de tarifas protecionista: "Estávamos sendo massacrados por amigos e inimigos. É hora de nossas grandes indústrias retornarem aos EUA". Essa postura agressiva no que se refere ao comércio exterior tem ecos no século XVI e XVII, período em que se consolidou a ideologia "Mercantilista", segundo a qual o objetivo de um país é obter sistemáticos superávits comerciais como forma de acumular metais preciosos e, consequentemente, demonstrar riqueza. 

O Mercantilismo foi uma doutrina importante, pois foi a base econômica para o fortalecimento dos Estados Absolutistas e da burguesia emergente. Configurava-se uma simbiose em que as monarquias garantiam recursos e infraestrutura física e militar para a expansão do comércio ultramarino, em troca, a burguesia pagava impostos, financiando a estrutura e a burocracia estatal dos regimes absolutistas. Um dos autores mais influentes da doutrina Mercantilista foi Thomas Mun, um importante diretor da Companhia das Índias Orientais de propriedade britânica. Ele forneceu argumentos que justificavam o aumento da riqueza por intermédio do comércio exterior. Sua posição interessada no aumento do comércio externo mostra o quanto essa doutrina ainda estava muito mais vinculada a interesses práticos do que em uma formulação teórica mais "científica". 

Geralmente, aponta-se que o Mercantilismo está associado a restrição de importações, ou seja, a uma postura mais defensiva. De fato, no início, autores mercantilistas enfatizavam mais esse aspecto, porém, com Thomas Mun, as proposições passam para uma visão mais ofensiva do comércio externo. Em sua obra, "A riqueza da Inglaterra pelo comércio comércio, ou Balanço Comercial é a regra para a riqueza" (tradução livre), publicada, originalmente, em 1664, o britânico defende que é um balanço comercial favorável a chave para o enriquecimento do país. 

Inicialmente, ele argumenta que o reino poderia enriquecer com presentes obtidos ou comprando adquirindo mercadorias de outras nações, porém, isso teria efeito incerteza e insignificante. Para Mun, o enriquecimento da nação, tanto em termos de riqueza quanto em impostos, advém do comércio externo. Segundo ele, deve-se seguir uma regra em que se vender mercadorias em valor superior para os estrangeiros do que se consome deles. Isto é, para acumular riqueza é preciso exportar mais do que importar. Por exemplo, se a venda para o exterior representa um valor de $122, isso permite comprar mercadorias estrangeiras no valor de $120, isso significa que o país acumulou de riqueza $2, devendo-se ser computado no tesouro. Esse fluxo de superavitário de renda ao ser somado com um estoque prévio de riqueza indica que um país está ficando mais rico. 

Mas cmo obter saldos comerciais favoráveis? Mun aponta, em primeiro lugar, uma forma natural que está associada à exportação de bens que um país possui em abundância. A forma artificial está associada  a estímulos para desenvolver setores para produzirem domesticamente ao invés de importar, isto é, um processo de substituições de importações. Para Mun, apesar Inglaterra possuir riquezas naturais, ela deveria direcionar esforços para estimular indústrias domésticas para suprir a oferta nacional, pois importar certos bens estavam impedindo o riqueza de acumular mais riqueza. 

Um primeiro argumento que Mun propõe é que deveria se estimular um padrão de vida e consumo mais simples por parte da população, pois isso permitiria reduzir importações. Por outro lado, o autor defende que se deve fortalecer certos industriais associados à demanda externa de outros países. Ou seja, se em determinados lugares o padrão de consumo é de artigos mais luxuosos, a Inglaterra deveria focar na criação e desenvolvimento de indústrias que possam atender a esses bens requisitados no exterior. Nesse caso, ele propõe que se deva busca por produtos e indústrias novos e que, portanto, tenham pouca concorrência. Caso se consiga adentrar com exclusividade nos mercados exterior, por intermédio do que hoje se chama diferenciação de produto, não seria necessário vender caro tais produtos, ganhando na escala de venda. 

Mun defende que essas indústrias estimuladas pelo Estado deveriam privilegiar insumos e matérias-primas domésticas, visando gerar mais emprego e renda domesticamente. Além do mais, ele aponta que se o padrão de vida da população inglesa se tornar mais simples, os recursos podem ser poupados e direcionados para esses indústrias mais luxuosas. 

Em segundo lugar, o diretor da Companhia das Índias Orientais defende que o comércio de longa distância deveria ser estimulado, em particular, na Índia. Isso porque, era possível adquirir mercadorias a um custo mais baixo e revender no restante da Europa por um valor muito mais alto, configurando um potencial lucrativo inimaginável. Nesse caso, Mun não deixa claro, porém, fica nítido que para obter exclusividade no comércio com localidades mais afastadas seria necessário fortalecer a postura colonial e militar, ou seja, deveria-se manter uma postura mais rígida quanto ao exclusivo comercial (colônia só poderia comercializar com a metrópole). Não à toa, a colonialismo foi importante tanto para o Estado Absolutista quanto para os ganhos financeiros da burguesia comercial. 

Por fim, Mun defende que o comércio externo deveria ser realizado por intermédio de uma frota naval própria do país, Isso porque, reduzir-se-iam os custos associado ao transportes e barateando os produtos a serem vendido, mas, principalmente, isso permitiria que o país conseguisse receitas advindas de fretes e seguros. A Inglaterra, nesse sentido, poderia obter receitas extraordinárias se, por exemplo, comerciantes neerlandeses utilizassem portos e os navios ingleses. Novamente, fica nítido o papel do Estado Absolutista nesse contexto, pois era quem tinha poderio financeiro para construir infraestrutura naval. Não à toa, ao final do século XVII e começo do XVIII, o poderio naval, militar e colonial britânica fizeram com que a não se tornasse a grande potência mercantilista, suplantando as pioneiras Portugal e Espanha. 

Thomas Mun, um dos primeiros mercantilistas, defendia que o caminho para o enriquecimento de um país passava por incentivar tanto a produção doméstica de bens de luxo, que agregavam valor às exportações, quanto a de matérias-primas e insumos. Ao mesmo tempo, propunha-se medidas protecionistas para a indústria doméstica, como tarifas sobre importações e estímulo a um padrão de vida mais simples. Mun também destacava a importância do colonialismo para garantir mercados exclusivos e o fortalecimento da marinha para proteger o comércio. Consequentemente, o Estado desempenhava um papel central, utilizando sua força militar e naval para assegurar uma balança comercial favorável e, assim, beneficiar a burguesia.

Geopolítica e padrões monetários no crescimento econômico



Crescimento e desenvolvimento econômico são temas recorrentes no estudo da Economia. O livro, considerado "fundador" da economia como um ramo de estudo independente se chama A Riqueza das Nações, escrito por Adam Smith, cujo objetivo era analisar os fatores que promovem o crescimento econômico. Mais recentemente, o prêmio Nobel de 2025 foi destinado a três pesquisadores (Daron Acemoglu, James Robinson, Simon Johson) que enfatizam o papel das instituições como um fator geral para o crescimento econômico. A busca por fatores "universais" é frequente nas obras de economia, de modo que, em alguns momentos, deixa-se de lado a importância das condições históricas e da organização geopolítica como uma fonte explicativa. 

No artigo "Padrões Monetários Internacionais e Crescimento",  publicado no livro "Estados e Moedas no Desenvolvimento das Nações" (Editora Vozes) de 1997, organizado por José Luis Fiori, Franklin Serrano e Carlos Aguiar Medeiros (professores da UFRJ) defendem a hipótese de que o espaço para realização de políticas de crescimento em cada momento histórico depende de dois fatores: 1) característica do regime monetário internacional, ou seja, da forma como o país central opera o padrão monetário internacional; e 2) orientação geopolítica das potências dominantes. Nesse sentido, o gerenciamento da política monetária, fiscal e comércio externo por parte do condutor da hegemonia determina a maior ou menor amplitude com que os estados nacionais conseguem adotar medidas de promoção do crescimento econômico. 

Sob esse prisma, os autores reconstroem os três regimes monetários, após a consolidação da Revolução Industrial: 1) padrão libra-ouro de 1830-1914; 2) padrão dólar-ouro de 1945-1973; 3) padrão dólar-fiduciário (pós-1973). Parte-se da tradição cepalina da existência de uma relação assimétrica entre países centrais e periféricos, concretizado na diferença de poderio militar, na gestão da liquidez internacional, e no controle da tecnologia e inovação. Mudanças nessas hierarquias não são fenômenos naturais (subdesenvolvimento como uma etapa para o desenvolvimento, por exemplo), mas dependem das estratégias dos estados nacionais para lidar com essa problemática. As condições para avançar em processos de expansão econômico são condicionadas pelas condições geopolíticas e monetárias internacionais vigentes. 

No primeiro período, referente ao padrão ouro-libra, Grã-Bretanha consolidou-se como potência hegemônica, devido ao pioneirismo na Revolução Industrial. Nesse padrão, em tese, a moeda doméstica deveria ser conversível em ouro a uma taxa fixa, portanto, o espaço para políticas monetárias expansionistas era bem mais limitado. A Grã-Bretanha apresentava déficits comerciais, especialmente, após os processos de industrialização de Alemanha e Estados Unidos, mas que eram compensados pela conta renda e serviços, vinculados ao poderio naval (fretes e seguros), financeiro (juros e lucros, devido a empréstimos, aplicações financeiras, e aos investimentos diretos no exterior) e colonial (elevado superávit com a Índia). Aos poucos, portanto, a hegemonia inglesa se consolidou por meio desse tripé militar-financeiro-colonial. 

Dois padrões de crescimento se dão nesse contexto. O primeiro é o modelo agrário-exportador, em um contexto de ampla divisão internacional do trabalho. Nesse caso, dependia-se da demanda por insumos e matérias-primas por parte da Inglaterra, assim como de investimentos diretos relacionados à infraestrutura, para evitar problemas de balanço de pagamento. A periferia capitalista estava vulnerável ao ciclo econômico internacional: durante a expansão da potência hegemônica, as exportações e o investimento externo cresciam, promovendo crescimento, renda e emprego. Porém, quando Grã-Bretanha realizava um ajuste externo, por intermédio da elevação de juros e contração da demanda, ocasionando saída de capitais e redução dos preços das commodities. Consequentemente, isso gerava déficits no balanço de pagamentos , cujos resultados se traduziam em crises cambiais e econômicas. Ou seja, o modelo agrário-exportador apresentava maior volatilidade e sensibilidade às condições externas, com claros limites à gestão mais autônoma da política econômica.

O segundo padrão de desenvolvimento é denominado de "Déficit de Atenção Britânico", pois a própria Inglaterra permitiu que Alemanha e Estados Unidos utilizassem políticas de industrialização, inclusive lançando mão do protecionismo. Além do mais, havia incentivo tácito da Inglaterra na promoção desse processo de industrialização na forma de empréstimos financeiros, tecnologia (bens de capital) e mão-de-obra, fatores fundamentais para a consolidação de grandes setores industriais nesses dois países. Inicialmente, a industrialização dos países atrasados e a Inglaterra eram complementares, mas, no final do século XIX, a rivalidade se acirra com a Alemanha, em particular, no desenvolvimento da indústria naval. 

O protecionismo adotados pelos "retardatários" foi fundamental para garantir extenso mercado e escala para os oligopólios que estavam surgindo. No final do século XIX, o surgimento de novos setores e tecnologia no contexto da emergência da II Revolução Industrial, acirrou a competitividade entre os países, com Alemanha e Estados Unidos melhores posicionados para lidar com a nova realidade. A combinação entre indústria e finanças se tornou mais estreito, de modo que, a partir de 1880 consolida-se o capitalismo oligopolista, típico dos casos alemão e norte-americano. Por outro lado, a indústria inglesa ficou presa às característica da I Revolução Industrial, perdendo cada vez mais seu papel como oficina do mundo. 

A Primeira Guerra Mundial consolida o fim da hegemonia britânica, mas, principalmente, da ordem liberal, fundada no padrão-ouro. A derrota alemã na Guerra, mas o enfraquecimento britânico e francês deixaram um vazio na posição de liderança global, a qual deveria ser passada aos Estados Unidos, o qual conseguiu capitalizar com empréstimos aos aliados e não obteve nenhum prejuízo físico e humano. Porém, o isolamento internacional e econômico (protecionismo e elevados superávits comerciais) dificultavam que o país americano encarnasse esse papel que antes era de sua antiga metrópole. 

A tentativa frustrada de retorno ao padrão-ouro e a Grande Depressão nos anos 1920 e 1930 colocaram em xeque o capitalismo de livre concorrência e o padrão-ouro. Para a periferia global, impactada pelo colapso dos preços agrícolas e dos investimentos externos nesse contexto, não havia outra forma de lidar com o cenário adverso que não fosse adoção de um novo modelo, baseado em substituições de importações. Com o agravamento da escassez de divisas e cenário negativo no comércio internacional levaram alguns países periféricos a produzirem internamente bens industriais leves antes importados e a direcionarem a pouca divisa internacional para adquirir bens necessários ao processo produtivo. A partir de meados dos anos 1930 e 1940, alguns países periféricos tiveram espaço para adotar medidas intervencionistas em prol da sua industrialização, rompendo com o modelo agrário-exportador. 

Após a Segunda Guerra Mundial, o horror do Nazi-Fascismo, políticas de "empobreça seu vizinho" e o avanço do comunismo ligaram um alerta nas principais economias mundiais de que um novo regime monetário mais flexível e aberto ao crescimento econômico deveria ser implementado. Os Estados Unidos emergem como a grande potência econômica em um mundo polarizado entre bloco capitalista e socialista, este liderado pela União Soviética. Dois eram os principais objetivos do regime construído em Bretton Woods: fornecimento de liquidez para evitar ajustes recessivos e a retomada do comércio mundial. Para tanto, foram criadas instituições multilaterais, cujo papel era o fornecimento de liquidez, e a imposição de taxas câmbio fixas, porém, flexíveis diante de desequilíbrios externos estruturais.

A hegemonia norte-americana fica clara na sua superioridade econômica, industrial e militar em relação à União Soviética, mas, principalmente, na infiltração de seus interesses nas organizações supranacionais, em particular, FMI e Banco Mundial. O dólar-ouro se torna o padrão monetário internacional. Inicialmente, o status superavitário norte-americano foi problema, pois a quase totalidade das reservas de ouro estavam em Fort Knox, assim como os países europeus e Japão sofriam com escassez de divisas, principal desafio para retomada no pós-Guerra. Além do mais, a defesa de "pastorização" de Alemanha e Japão por parte dos Estados Unidos indicava que os erros do Tratado de Versailles ainda não haviam sido aprendidos. 

O temor do comunismo alterou a perspectiva norte-americana sobre como gerir sua hegemonia. O Plano Marshall (ajuda financeira para Europa ocidental e Japão se reconstruírem) ajudou na resolução do problema da escassez de divisas. Mas, principalmente, os Estados Unidos se tornam mais permissivos à adoção de políticas econômicas pró-crescimento de seus aliados. Nesse sentido, tolerou-se medidas como protecionismo, desvalorização cambial e políticas fiscais e monetárias mais expansionistas com o intuito de estimular o crescimento econômico na Europa Ocidental e Japão, visando expurgar o "fantasma" de eventuais ideais comunistas. Nesse contexto, os autores apontam para um "desenvolvimento à convite": a abertura do mercado interno norte-americano para as importações de bens industriais de países aliados, como Alemanha e Japão (e, posteriormente, Coreia do Sul), maior permissividade com as políticas econômicas internas, e o financiamento direto ou indireto por meio de órgãos multilaterais foram fatores decisivos que forneceram um ambiente doméstico mais propício para políticas keynesianas de estímulo ao emprego e a renda. Como contrapartida, os Estados Unidos apresentaram crônicos déficits fiscais, devido a gastos sociais e militares, e comerciais. 

Se Europa Ocidental e Japão se beneficiariam do papel de demanda efetiva realizada pelos Estados Unidos, o cenário para América Latina foi um pouco mais adverso, pois não houve nenhum Plano Marshall regional. Porém, nesse contexto geopolítico de polarização, o investimento direto europeu foi fundamental para a consolidação dos processos de industrialização. A grandes empresas estrangeiras eram protegidas e tinham acesso a extenso mercados. Alinhado com investimento estatal, as décadas de 1950 e 1960 representaram a intensificação da industrialização para setores mais modernos de bens intermediários e de capital. Mesmo assim, Medeiros e Serrano apontam alguns problemas desse modelo, como o baixo impulso exportador e efeito líquido negativo das divisas, devido à remissão de lucros e importações de componentes-chave das matriz, de modo que ainda se dependia da exportação de commodities para fechar as contas externas. De qualquer, o chamado "Desenvolvimentismo" foi crucial para o avanço industrializante na América Latina e em alguns localidades do Sudeste Asiático. As condições geopolíticas e do padrão monetário mais flexível de Bretton Woods permitiram que países convidados ou não dos Estados Unidos pudessem crescer com certo vigor. 

A década de 1970 representa o fim de Bretton Woods, em um cenário de estagnação econômica e aumento da inflação. As crescentes desconfianças em relação ao excesso de dólar levaram à sua falta de credibilidade e o fim do dólar-ouro. Entre 1971-1973, rompeu-se a paridade dólar com o ouro, configurando o padrão-dólar fiduciário, e as taxas de câmbio passaram a flutuar livremente. A desvalorização do dólar em relação às moedas dos países aliados, como Alemanha e Japão, tinha como intuito resolver o desequilíbrio externo sem comprometer os gastos fiscais. As consequências foram danosas: a Europa, dependente do crescimento alemão, entra em recessão com a queda das exportações para os Estados Unidos, assim como a valorização do iene prejudica as vendas externas japonesas. Por outro lado, a emergência de credores privados e de mercados desregulados, gerou uma onda de empréstimos em condições, inicialmente, favoráveis para a América Latina, permitindo a sustentação das políticas de industrialização, mesmo em um contexto externo mais difícil. 

Em 1979, Paul Volcker eleva de modo significativo a taxa de juros como forma de controlar a inflação e fortalecer o dólar (diplomacia do dólar forte). Isso traz impactos negativos para o mundo, pois os capitais fluem para o mercado financeiro norte-americano, promovendo elevações nas taxas de juros nos países centrais. Para a América Latina, o aumento da dívida externa e a ausência de fluxos de capitais após o default mexicano em 1982 conduziram ao fim das políticas desenvolvimentistas e industrializantes. 

Nesse novo cenário, a hegemonia norte-americana se reafirma ao enquadrar os aliados aos seus interesses. Para os países centrais, a década de 1980 e começo dos 1990 é de reestruturação industrial (modernização nos padrões tecnológicos, em particular, adequação à microeletrônica) como forma de lidar com a desvalorização do dólar em 1985 e 1987 (acordos do Plaza e Louvre, respectivamente). As empresas e bancos japoneses, diante da menor competitividade das exportações, se direcionaram para outros países do sudeste asiático, cujas moedas não se valorizaram. Assim, Coréia e demais tigres asiáticos se beneficiaram desse investimento, enquanto o Japão entra em uma crise secular. A Europa sofre com baixo crescimento econômico, juros altos e desequilíbrios fiscais. 

Já a partir de meados de 1990, os Estados Unidos revertem sua política de desvalorização. A indústria norte-americana volta a ficar defasada e intensifica-se o processo de formação de cadeias globais de valor, novamente, beneficiando países do sudeste asiático. Nesse sentido, o investimento direto norte-americana ajuda a estimular a expansão industrial e das exportações de economias como na China e Taiwan. Em paralelo, processos de flexibilização e liberalização dos mercados financeiros se tornam a norma tanto para países centrais quanto periféricos. Para estes, além dessas medidas, foram determinadas políticas de abertura comercial e de equilíbrio fiscal, cujas consequências levaram, segundo os autores, à perda de competitividade e um processo de enfraquecimento do setor industrial, sepultando de vez o desenvolvimentismo. No final da década, esse intenso processo de globalização financeira, o qual tornou os fluxos de capitais mais voláteis, ocasionou sucessivas crises financeiras e cambiais na periferia, começando pelo leste asiático, passando pela Rússia e culminando no Brasil. Por outro lado, o avanço da financeirização nos países centrais, centrada no crédito e na valorização das ações, permitiu sustentar um modelo de crescimento baseado no endividamento. 

O crescimento econômico mundial, sob o sistema dólar-flexível, está cada vez mais atrelado à política monetária dos Estados Unidos. Após 1980, com o fortalecimento do mercado financeiro americano, o crescimento do centro e da periferia do capitalismo passou a depender da gestão dessa política e das expectativas dos investidores. Quando os Estados Unidos adotam políticas monetárias mais frouxas, a liquidez global aumenta, facilitando o financiamento dos países e permitindo maior flexibilidade em suas políticas econômicas. Além disso, o aumento do preço das commodities beneficia os países periféricos. No entanto, esse cenário se reverte diante de pressões inflacionárias e nas contas externas da potência hegemônica. Nesses casos, o aumento das taxas de juros americanas se reflete em políticas contracionistas no mundo, e a fuga de capitais para o mercado norte-americano tende a gerar crises financeiras e cambiais, especialmente nos países periféricos. Como resultado, o crescimento econômico global se torna mais modesto e volátil, com impactos negativos sobre o emprego e a renda.

O crescimento econômico de um país está ligado ao contexto geopolítico e à gestão do padrão monetário da potência hegemônica, pois estes fatores afetam a capacidade de países não emissores de moeda de obter recursos externos. Em algumas situações, a disponibilidade de crédito e a permissão para o desenvolvimento aumentam a liberdade para os países implementarem políticas de crescimento. Com isso, Medeiros e Serrano concluem que não existe uma fórmula única para o crescimento e o desenvolvimento, sendo necessário analisar o contexto histórico para entender as possibilidades de cada economia

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Crescimento e Distribuição de Renda (na Índia)


Distribuição de renda é um tema bastante discutido na à teoria econômica e na formulação de políticas públicas. Os estudos de Thomas Piketty que culminaram no livro "O Capital no século XXI", publicado em 2014, apontaram para a crescente desigualdade nos países desenvolvidos, colocando a problemática em destaque. As diversas propostas de taxação dos mais ricos, como a taxação global defendida por Gabriel Zucman, são resultados da relevância do tema. O papel da distribuição de renda pode ser observada sob os mais diversos ângulos, desde análise sobre bem-estar, efeitos sociais, políticos e eficiência econômica. 

A literatura denominada de Kaleckiana (Neo-Kaleckiana ou pós-Kaleckiana), inspirada nos trabalhos de Michal Kalecki, busca evidenciar os efeitos de mudanças na distribuição de renda sobre o crescimento econômico. Em um dos artigos seminais sobre o tema, "Stagnation, income distribution and monopoly power", publicado na Cambrdige Journal of Economics em1984, Amitava Dutt desenvolve um modelo, cujo intuito é mostrar que a má distribuição de renda na Índia era uma das causas da estagnação econômica, em particular, no setor industrial, do país desde os anos 1960 até os anos 1980. 

O autor assume como pressuposto, mas que é confirmado por fatos estilizados da Índia, da existência  uma estrutura industrial, caracterizada como monopolista ou oligopolista. Nesse sentido, são duas consequências importantes. A primeira delas é que esse tipo de estrutura concorrencial implica em maior poder de determinação dos preços por parte das empresas. Ao invés da plena flexibilidade de preços, baseadas apenas na oferta e demanda, as grandes empresas adotam uma regra de mark up sobre os custos no processo de fixação de preços. Quanto maior o grau de oligopolização da estrutura industrial, maior o poder que as firmas têm de elevar os preços, por intermédio de um mark up mais elevado. A segunda consequência é a de que o ajustamento entre oferta e demanda, dado um choque exógeno, se dá pelo uso da capacidade instalada (isto é, elevando ou diminuindo a quantidade produzida) e não pelos preços (como ocorre na livre concorrência). Isto significa que, diante de uma queda na demanda, as empresas reduzem a sua produção ao invés de diminuir os preços para restaurar o consumo. A terceira consequência, derivada desta última, é que as grandes empresas sempre operam com capacidade ociosa para lidar com eventuais choques na demanda. 

No modelo de Dutt, o pressuposto de que as empresas operam com capacidade ociosa implica que, diante de uma superoferta de trabalhadores, evidencia-se desemprego involuntário (trabalhadores que desejam ofertar sua mão-de-obra pelo salário vigente, mas não encontram emprego). Portanto, o autor assume que em economias oligopolizadas não há pleno uso dos fatores-de-produção, semelhante à abordagem Keynesiana, segundo a qual as restrições estão na demanda e não na oferta (ao contrário de corolários mais liberais ou ortodoxos). 

A abordagem proposta por Dutt foi considerada Kaleckiana, posteriormente, devido à forma como se dá a distribuição funcional (entre lucros e salários) da renda. Tal como Kalecki considerava, as firmas, ao fixarem os preços por meio do mark up, influenciam essa distribuição funcional da renda. Supondo que o poder de monopólio seja forte, devido a fatores institucionais, as empresas podem fixar um mark up mais alto, o que implica em aumento no nível de preços (sem que haja mudanças proporcionais na oferta e demanda). Os salários reais (relação salário nominal/preços) caem, ocasionando uma contrapartida elevação dos lucros na renda. Portanto, no modelo apresentado, evidencia-se uma relação positiva entre mark up e a parcela dos lucros na renda. Ou seja, quanto mais monopolizada/oligopolizada uma economia, o que depende de fatores institucionais, como, por exemplo, política de enfraquecimento dos sindicatos, maior a tendência da renda ser direcionada à classe capitalista em detrimento dos trabalhadores. 

Tal como em uma abordagem keynesiana, Dutt assume existência de duas classes sociais: os trabalhadores, os quais consomem toda sua renda (salários), enquanto os capitalistas consomem apenas uma fração dos lucros obtidos. Portanto, a propensão a consumir da primeira classe é superior à segunda, o que é verificada pelos fatos estilizados apresentados para o caso indiano. O consumo total depende da somatória do consumo dessas duas classes. O investimento depende positivamente de três fatores: i) componente autônomo, denominado de espírito animal dos capitalistas; ii) da taxa de lucro, como uma sinalização da lucratividade do investimento; iii) do grau de utilização da capacidade, vista como uma proxy para demanda. 

Depois de diversas formulações matemáticas para encontrar variáveis de equilíbrio e de estática, Dutt analisa os efeitos de mudanças na distribuição de renda sobre o crescimento econômico, considerando inicialmente uma economia fechada e sem governo. Se por algum motivo institucional e/ou econômico o poder das firmas aumenta, o mark up se eleva, pressionando para cima o nível de preços. Consequentemente, a parcela dos lucros na renda cresce em proporção superior a dos trabalhadores. O efeito dessa mudança na distribuição funcional da renda sobre o crescimento econômico é transmitido pelo seu impacto negativa sobre a demanda e a taxa de lucro (taxa de lucro é Lucro/Capital; a parcela do lucro é dada por Lucro/Renda), o que leva à redução do investimento. De um lado, como há uma distribuição de renda para a classe com menor propensão a consumir, o consumo se contrai, gerando um efeito negativo sobre o grau de utilização das empresas. Nesse sentido, elas irão diminuir seu investimento, em virtude da demanda mais enfraquecida. Por outro lado, como o volume de vendas cai, as perspectivas de lucro presentes e futuros do investimento diminuem, desestimulando as decisões de investimento. Nesse caso, há um paradoxo: de um lado, por mais que os capitalistas recebam maior fatia da renda, isso ocasiona redução da demanda e, portanto, da sua taxa de lucro. 

A conclusão de Dutt, nesse primeiro momento, é de que uma piora na distribuição de renda (em prol de uma maior desigualdade social) gera uma tendência de estagnação do crescimento econômico, por intermédio de efeitos negativos sobre a demanda e o investimento. Para o autor, a estagnação industrial indiana, no período analisado, é reflexo, justamente, da tendência da crescente oligopolização da sua estrutura produtiva. Os resultados apontados pelo modelo, inclusive, se mostram contrários à perspectiva adotada pelos Keynesianos de Cambridge dos anos 1960, para os quais, uma distribuição de renda para os capitalistas poderia estimular o crescimento ao aumentar a poupança disponível. 

Em seguida, Dutt incorpora o governo para analisar qual o efeito de uma política tributária progressiva sobre renda no crescimento econômico. Assumindo um déficit fiscal zero, se o governo diminuir os impostos sobre os trabalhadores e aumentando sobre os capitalistas, o efeito líquido na tributação é neutra, mas ocasiona uma distribuição de renda para a classe trabalhadora, cuja propensão a consumir é mais alta. Isso estimulará a demanda, consequentemente, aumenta o grau de utilização das empresas e a taxa de lucro, favorecendo novas decisões de investimento e promovendo o crescimento econômico. Essa conclusão se mostra contrária à visão de que reduzir impostos para os mais ricos (ou empresas) é benéfico para o crescimento econômico, ao contrário, leva a uma estagnação. Nesse sentido, o modelo de Dutt se encaixa muito bem com a justificativa de que tributar os mais ricos pode ser benéfico para a economia como um todo.  

Por outro lado, esse vínculo positivo entre menor desigualdade social e crescimento econômico pode ser rompida no contexto de uma economia aberta. Isso porque, caso a economia apresente uma alta abertura comercial, uma queda no mark up terá dois efeitos, um positivo e outro negativo. Em primeiro lugar, uma queda no mark up levará a uma queda no nível de preços domésticos, ocasionando uma desvalorização real da moeda (aumento real da taxa de câmbio). Caso a elasticidade-preço das exportações seja alta, essa desvalorização promoverá um forte aumento das exportações, o que terá efeito positivo sobre o crescimento, potencializando o efeito doméstico de um aumento na demanda dos trabalhadores. Em segundo lugar, a expansão econômica, promovida pela melhora na distribuição, pode estimular o aumento das importações, caso a elasticidade-renda das importações seja alta, gerando um vazamento de renda para o exterior. Se isso levar a uma deterioração do saldo comercial, o efeito sobre o crescimento econômico pode ser negativo. Nesse caso, se o segundo efeito prevalecer sobre o primeiro, e, principalmente, se esse efeito externo negativo suplantar o efeito doméstico positivo, então, uma distribuição de renda para os trabalhadores terá impacto negativo sobre o crescimento econômico. Mas, esse é um caso específico dentro do modelo. 

Outros autores desenvolver com maior rigor essa questão do setor externo. Para Dutt, à época do artigo, como a economia indiana era relativamente fechada em termos comerciais, os efeitos mencionados acima não seriam significativos, de modo que valeria apenas o efeito da demanda doméstica, decorrentes de mudanças na distribuição funcional da renda. Desse modo, a sua conclusão continuaria mantida. A questão da abertura econômica, futuramente, foi um dos pontos críticos apresentado por outros autores para rejeitar esse vínculo necessário entre menor desigualdade funcional da renda e crescimento econômico. 

O estudo de Dutt aponta que medidas que promovam uma distribuição funcional da renda em prol da classe trabalhadora ajudariam a estimular o crescimento econômico, considerando uma estrutura produtiva oligopolizada. Nesse sentido, não apenas bem-estar social poderia ser atingido com políticas de distribuição, como a expansão econômica seria um resultado necessário. Dutt, portanto, nesse artigo em específico, defende medidas de diminuição da desigualdade, como tributação progressiva. A análise desse estudo mostra que melhor distribuição de renda não apenas pode ser uma questão de justiça, como é uma questão de estimular o crescimento econômico. 

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