O Banco Central do Brasil, nos últimos anos, tem enfrentado dificuldades no cumprimento da meta de inflação, hoje fixada em 3%. De um lado, aponta-se que, a despeito da forte elevação da taxa de juros, os estímulos dos gastos públicos e o aquecimento da economia têm mais do que compensado os efeitos contracionistas dos juros. Por outro lado, críticos à política monetária contracionista, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendem que a meta estipulada de 3% é muito baixa e "inatingível" para a realidade brasileira. Economistas heterodoxos, em outubro de 2024, publicaram uma carta aberta ao Conselho Monetário Nacional propondo um aumento na meta de inflação para evitar uma política monetária muito mais rígida.
Se uma inflação mais alta é um problema, pois retira poder de compra da população (em especial, dos mais pobres), por outro lado, a obtenção de uma inflação muito baixa pode gerar problemas econômicas, como desemprego e redução do crescimento econômico. Encontrar um ponto ótimo para inflação é complexo e está relacionada com um ajuste fino em atingir, na prática, os valores naturais do desemprego e do produto, tarefa nada simples. Essa dualidade da inflação levou George Arkelof, William Dickens e George Perry a investigarem os impactos macroeconômicos de uma inflação baixa, mais especificamente, uma inflação zero, cujo resultado foi o artigo intitulado "The Macroeconomic of Low Inflation", publicado no Brookings Papers On Economic Activity, No.1, em 1996.
Inicialmente, os autores questionam a visão de que existe uma taxa natural de desemprego que não acelera a inflação (chamada NAIRU, Non-Accelerating Inflation Rate of Unemplyoment), visto que, a própria inflação, a longo prazo, é um fator que influencia na taxa de desemprego. Em síntese, eles defendem que uma inflação moderada permite maximizar o crescimento do produto e o emprego, enquanto uma inflação zero tende a gerar efeitos opostos. Ou seja, uma inflação muito baixa produz resultados deletérios, ao contrário do que sugere o senso comum.
A conclusão dos autores depende de um pressuposto fundamental: os salários nominais possuem uma rigidez à baixa, ou seja, nas negociações contratuais é muito difícil que os trabalhadores aceitem quedas nominais em seus salários. Como consequência, o que varia é o salário real, a depender do comportamento do nível de preços. A exceção ocorre quando as firmas sofrem fortes choques econômicos, de modo que, em geral, no segundo ano desse "stress", os trabalhadores, para manterem seu emprego, acabam aceitando redução nominal dos salários. Para os autores, a rigidez à queda do salário nominal decorre da preferência dos trabalhadores em manterem os ganhos nominais, independentemente, do impacto disso sobre o seu salário real. Além do mais, mesmo diante de recessões, as firmas podem optar por manter o salário nominal (ao invés de reduzi-lo) para que os trabalhadores continuem motivados ou para evitar que os mais qualificados se demitam para buscar outras oportunidades.
O trio apresentou evidências que corroboram essa hipótese central. Analisando dados da produção manufatureira, aponta-se que, entre 1959-1978, não houve quedas significativas nos salários nominais dos trabalhadores sindicalizados e dos não-sindicalizados (apenas 0,2% dos primeiros e 0,4% dos segundos tiveram quedas salariais). Tomando como referência o período entre 1970 e 1994, o ano em que se apresentou maior fração de trabalhadores com redução salarial foi em 1983 (15%), em um contexto de desaceleração econômica desde o começo da década. Em 1982, 42% mantiveram o salário congelado, e apenas 2% tiveram queda de salários. Nesse sentido, a rigidez só é quebrada em períodos de dificuldades econômicas, como em 1983. Mesmo em um cenário de baixa inflação e desemprego, a rigidez se mantém, conforme concretizado no Canadá, quando entre 1990-1992, apenas 5,7% dos acordos coletivos levaram à queda de salários, enquanto em 47,2% dos acordos não houve mudanças salariais. Em um cenário mais favorável (1986-1988), apenas 0,25% dos contratos canadenses analisados representavam queda de salários e 12,6% não houve nenhuma mudança.
Para reforçar as evidências da literatura, os autores realizaram entrevistas com 409 trabalhadores. Deste total, apenas 2,7% dos trabalhadores relataram queda dos salários, sendo 3,1% no setor público e 2,4% no setor privado. Confirmou-se, portanto, a tendência de rigidez à queda salarial. Em síntese, os fatos estilizados apresentados corroboram essa hipótese central.
A construção do modelo apresentado passa por outros dois pilares, além da rigidez salarial: competição monopolística, e efeitos heterogêneos de choques sobre as empresas. Neste último pressuposto, assume-se que as empresas reagem de modo diferentes a choques de demanda e de custos. Por exemplo, um choque positivo de demanda faz com que algumas empresas contratem mais trabalhadores para aumentar a produção, enquanto outras reduzem o emprego, devido ao aumento do salário real, haja visto que os salários nominais não caem.
Definiu-se como salário nocional aquele que resulta da maximização de lucros por parte das empresas e dos salários para os trabalhadores. O salário nocional real barganhado depende do salário nominal, do desemprego, do poder de barganha dos trabalhadores, do tempo de desemprego, e os custos da firma no pleno emprego. A curva de demanda por trabalho depende do salário nocional real, enquanto a curva de oferta por trabalho depende das condições que vão determinar o salário nocional, por isso, ela é uma curva ascendente: quanto maior o nível de emprego, maior o poder de barganha dos trabalhadores, o que pressiona para cima os salários reais. A intersecção entre oferta e demanda por trabalho vão determinar o salário real e o emprego de equilíbrio. Esse nível de emprego de equilíbrio é denominado de Lowest Sustainable Rate of Unemployment (LSRU), isto é, a taxa de desemprego mais baixo possível de ser sustentada. Na ausência da rigidez salarial, a LSRU tende a se igualar à NAIRU, taxa de desemprego que não acelera a inflação.
Em seguida, adicionou-se a rigidez salarial e os efeitos heterogêneos de choques sobre as empresas ao modelo. Assume-se que as firmas só irão cortar salários nominais depois de dois anos de choques negativos, como forma de reestruturação em prol de maior eficiência produtiva, assim como, conforme empresas vão à falência, os trabalhadores demitidos aceitam empregos com salários mais baixos do que então recebiam. A partir dessa construção teórica, os autores fizeram mais de quatrocentas simulações para ver os impactos sobre emprego e produto de uma meta de inflação zero. Para fins de simulação, eles assumiram que o desemprego de equilíbrio, a NSRU, é de 5,8% em um cenário de inflação a 3%.
As simulações apresentaram um desvio médio de 2,1% no desemprego de equilíbrio de inflação zero em relação à NSRU. Como próximo passo, os autores ajustaram os parâmetros para o longo prazo, assumindo uma LSRU = 5,8%. A uma taxa de inflação de 3%, o desemprego de equilíbrio atingiu 5,9%, desvio de 1 p.p. Com uma taxa de 2%, o desemprego de equilíbrio saltou para 6,1%. Uma inflação de 1%, o desemprego atingiu 6,5%, e a uma inflação zero, a taxa de desemprego chegou a 7,6%. E por fim, uma deflação de 1% fez com que a taxa de desemprego saltasse para 10%. Em síntese, conforme escolhe-se uma meta de inflação mais baixa, o efeito colateral é o aumento do desemprego.
A explicação está na dificuldade de ajustar o aumento de custos, devido ao crescimento dos salários reais, por meio de redução dos salários nominais. A diferença entre salário real atual médio e o salário real nocional médio é representado por um termo S. Conforme a inflação sai de 3% para 0%, o salário real atual médio tende a aumentar em relação ao salário real nocional médio, isto é, a variável S sobe, ocasionando um aumento nos custos das empresas. Em virtude da rigidez dos salários nominais, a única forma das firmas atingidas compensarem esse aumento de custo é demitindo os trabalhadores. Caso não se verificasse tal rigidez, as firmas poderiam, simplesmente, reduzir os salários nominais para compensar o aumento real dos salários. Na impossibilidade dessa estratégia, o ajuste ocorre via demissão de trabalhadores. Observa-se um nítido tradeoff entre inflação e desemprego: para que a taxa de desemprego fique em um patamar mais baixo, é preciso aceitar uma inflação um pouco mais alta.
A heterogeneidade implica que nem todas as firmas vão demitir trabalhadores conforme o salário real médio sobe, devido à desaceleração da inflação. Por isso, a relação entre redução da inflação e aumento do desemprego não é tão é direta e generalizada, pois algumas empresas podem de fato absorver custos salariais mais alto repassando-os para preços (pressuposto da competição monopolística). Porém, conforme a inflação vai caindo para níveis mais baixos, isto é, para próximo de zero, mais firmas são atingidas pelos custos reais mais altos, consequentemente, a pressão sobre o desemprego é mais difundida em relação a um nível de inflação um pouco mais alto.
Os autores realizaram análises de séries temporais para ver como o desemprego é afetado por uma política de estabilização inflacionária, assumindo, inicialmente, tanto uma taxa de inflação como desemprego a 6%. Em um cenário, a meta de inflação a ser perseguida é de 3% e a outra é de 0%. No primeiro cenário, a inflação cai 1 p.p nos primeiros anos, enquanto o desemprego cresce. A partir do quarto ano, a meta é atingida e a taxa de desemprego começa a cair até convergir para taxa de equilíbrio de 5,8%, mantendo-se nesse patamar até o fim da década. No segundo caso, conforme a inflação vai caindo, também, 1 p.p ao ano, o desemprego cresce mesmo passados três anos. A inflação se estabiliza no sexto ano, mas o desemprego atinge um valor elevado de 10%. Somente após atingir esse patamar, o desemprego começa a ceder, recuando para 8,4% no final da década. Isto é, o desemprego de equilíbrio é 2,6 p.p maior em um cenário de inflação zero em relação a um quadro de inflação a 3%.
A partir desses resultados, os autores concluem que uma inflação muito baixa causa uma taxa de desemprego mais elevado em relação a uma inflação mais alta, ainda que em um patamar moderado (de 3%, por exemplo), ocasionando desperdícios de recursos. Esse resultado, é preciso ressaltar, que decorre da rigidez salarial para baixa que faz com que as firmas, diante de choques reais de custos, advindos de um salário real mais alto em um quadro de queda da inflação, se ajustem reduzindo o emprego e não salários nominais. Em síntese, o trio de autores defende uma inflação moderada e estável, ou seja, em nenhum momento eles propõem inflações elevadas. Ao contrário, eles parecem fixar uma inflação de 3% como algo aceitável tanto em termos de manutenção de poder de compra e uma taxa de desemprego relativamente baixa.
Se a rigidez salarial for algo verificável no Brasil, o argumento de que perseguir metas de inflação mais baixas pode gerar desemprego pode ser utilizado para, eventualmente, mudar a meta de inflação. O estudo em questão focou mais na economia norte-americana, em que uma inflação de 3% é meta razoável, segundo os autores. Diante das características da economia brasileira, é bem provável que um valor de inflação que não impacte tanto o desemprego deva ser algo maior, mais próximo a 4,5% a 5% (mais ou menos a média histórica mais recente). Nesse sentido, os defensores de uma meta de inflação mais flexível podem utilizar a chamada Macroeconomia da Baixa Inflação como base para suas reclamações.
