quinta-feira, 22 de maio de 2025

Inteligência Artificial e seus efeitos modestos sobre a Macroeconomia


A inteligência artificial (IA) é uma realidade, amplamente utilizada em processos de otimização industrial, personalização de consumo, organização de dados, mídias sociais, e em avanços na pesquisa científica. Não à toa, grandes empresas globais consolidadas (Google, Amazon, Microsoft) e emergentes (Open IA, Deepseek) têm centralizados esforços para desenvolver inovações no âmbito da inteligência artificial. Os potenciais impactos sobre produtividade e crescimento econômico são vistos com otimismo, o que poderia configurar até mesmo uma nova revolução tecnológica-produtiva. 

Porém, nem todos compartilham desse otimismo. No artigo, "The Simple Macroeconomics Effect of IA", publicado na Economic Policy (v.40, no.121, de 2025), Daren Acemoglu (vencedor do Prêmio Nobel de 2024) apresenta resultados modestos em relação aos efeitos macroeconômicos do uso da inteligência artificial, de modo que o otimismo pode dar lugar ao ceticismo no que tange aos potenciais efeitos revolucionários da IA, em especial, na forma como as empresas têm direcionado o desenvolvimento da IA. 

Nesse artigo, o economista turco-americano apresenta alguns insights para o debate sobre IA e seus impactos a médio prazo sobre a macroeconomia. Ele constrói um modelo teórico, em que se assume a produção de um único bem final, o qual requer o desenvolvimento de tarefas, as quais podem ser realizadas pelo uso de capital e trabalho, mas com diferentes vantagens comparativas no uso de cada fator. A automação corresponde à expansão dessas tarefas produzidas pelo capital, incluindo ferramentas digitais e algoritmos. 

Os ganhos de produtividade no uso IA (crescimento médio do produto por trabalhador, ou crescimento da produtividade total dos fatores) advém de quatro canais de transmissão. O primeiro se refere à automação, em que modelos de IA podem assumir e reduzir os custos de certas tarefas, como administrativas de nível médio, resumo de dados, e computacionais. O segundo é por intermédio da complementariedade de tarefas, a qual permite aumentar a produtividade em tarefas não totalmente automatizadas, elevando a produtividade do trabalho. O terceiro canal é o aprofundamento da própria automação, a qual aperfeiçoando a produtividade do trabalho em tarefas já automatizadas, como melhorias na segurança da tecnologia da informação. Por fim, o último canal é o surgimento de novas tarefas, o que impacta a produtividade geral do processo produtivo, especialmente, com a ampliação do acesso à informação idônea e científica. 

O foco do artigo está nos dois primeiros canais, assim como se discute como novas atividades geradas pela IA podem ter impactos positivos ou negativos. O efeito macroeconômico da IA se concretiza a partir do Teorema de Hulten, segundo o qual  o crescimento do produtor (PIB) e a produtividade podem ser estimadas pela fração das atividades impactadas e pela redução média de custos por tarefas. Isto é, os efeitos da IA sobre a macroeconomia devem ser estimados pelos seus efeitos em termos de quantidade de setores afetados e pela diminuição média de custos na realização de tarefas. 

Acemoglu estima o número de atividades (ou setores) expostos à IA. Em seguida, ele agrega esses números ao nível ocupacional, ponderando à importância de cada ocupação pela massa salarial em relação ao PIB norte-americano. Esse cálculo implica que 19,9% das tarefas de trabalho nos Estados Unidos estão expostas à IA. Em seguida, ele utiliza outras estimativas para tarefas de visão computacional, de modo que, de todas as tarefas expostas, 23% podem ser realizadas de modo lucrativo por IA (nas demais, os custos superam os benefícios). 

A partir desses cálculos, Acemoglu calcula os efeitos da IA sobre a produtividade total dos fatores (PTF) (a qual mede o aumento da produção não explicado apenas pelo aumento do número de trabalhadores e de capital). O resultado aponta que o uso da IA eleva em 0,66% a PTF em 10 anos, ou o equivalente a 0,064% ao ano, valores considerados modestos por Acemoglu. Tendo em vista potenciais números mais altos de produtividade, o uso da IA elevaria no máximo 0,89% a PTF para o mesmo período. No que tange ao PIB, o crescimento estimado em 10 anos é de 1,1%, porque a automação e a complementariedade de tarefas tende a estimular o investimento. Se o investimento em IA for muito elevado (por exemplo, se houver um boom de investimento), o PIB deve crescer entre 1,4% a 1,56% em 10 anos. Mesmo assim, esses valores para o crescimento do PIB, também, são vistos como simplórios. 

Em seguida, faz-se uma distinção entre "tarefas de fácil aprendizado" e "tarefas de difícil aprendizado". As primeiras são caracterizadas por etapas claras, métricas bem definidas para o sucesso e, portanto, são mais fáceis para a IA aprender e automatizar. As segundas envolvem tomada de decisão dependente do contexto, e o aprendizado é baseado principalmente na observação do comportamento humano, em vez de resultados objetivos. Acemoglu aponta que a maioria dos efeitos da IA ocorre em tarefas de fácil aprendizado (algo próximo a 73%). Fazendo os ajustes (considerando que os ganhos de tarefas difíceis são um quarto das tarefas fáceis), os valores do efeito da IA sobre a PTF caem para 0,55% em 10 anos, e para o PIB é de alta de 0,93% para o mesmo período

A IA pode ajudar no desenvolvimento de novas tarefas, especialmente, associadas às redes sociais. Porém, essas novas atividades podem propiciar perdas de bem-estar, especialmente, quando ela é utilizada para geração de deepfakes, anúncios digitais enganosos, mídias sociais viciantes, ataques cibernéticos maliciosos. Nesse caso, o PIB poderia crescer 2% decorrente dessas novas atividades proporcionadas pela IA, mas, em contraposição, a perda de bem-estar seria de 0,72%. 

Por fim, no que se refere ao impacto da IA sobre salários e desigualdade, Acemoglu aponta que as tarefas de IA são mais bem distribuídas entre a população do que tarefas de automação pré-IA, de modo que não há efeitos salariais negativos, isto é, perdas salariais em virtude da implementação da IA. Porém, ao mesmo tempo, não se encontra efeitos de queda na desigualdade. Os salários para mulheres com baixa escolaridade pode cair. Além do mais, pode ocorrer um ligeiro aumento entre a desigualdade entre grupos, e um aumento na desigualdade funcional da renda. 

Em suma, Acemoglu argumenta que os impactos macroeconômicos da inteligência artificial são atualmente modestos, embora relevantes. Essa limitação, segundo o autor, decorre da aplicação da IA principalmente na automação de tarefas simples, restringindo seu potencial para gerar ganhos significativos de produtividade. Nesse contexto, Acemoglu defende uma mudança no desenvolvimento da IA, direcionando-a para a criação de novas tarefas, especialmente para trabalhadores especializados com conhecimento limitado, visando ampliar sua produtividade e, potencialmente, influenciar positivamente salários e desigualdade. Ele destaca que muitos trabalhadores da produção e operários fabris enfrentam problemas complexos que exigem informações contextuais e em tempo real, cuja solução pode ser dificultada pela falta de expertise e dados adequados. Nesse cenário, a IA generativa emerge como uma ferramenta promissora para fornecer informações confiáveis de forma ágil, podendo impulsionar consideravelmente a produtividade desses profissionais.

Para Acemoglu, há ganhos muito maiores a serem obtidos com a IA generativa, que é uma tecnologia promissora, mas esses ganhos permanecerão ilusórios, a menos que haja uma reorientação fundamental da indústria, incluindo talvez uma grande mudança na arquitetura dos modelos de IA generativa mais comuns, como os LLMs, a fim de se concentrar em informações confiáveis que podem aumentar a produtividade de diferentes tipos de trabalhadores, em vez de priorizar o desenvolvimento de ferramentas de conversação gerais semelhantes às humanas. Enquanto esse desenvolvimento da IA não se voltarem para ampliar o seu uso para tarefas mais difíceis ou para novas atividades e produtos, os efeitos da IA sobre a macroeconomia serão mais limitados. 





quinta-feira, 15 de maio de 2025

O Fetichismo da Mercadoria em Marx (não, não é sobre cultuar mercadorias)


No capitalismo, Marx apontou, no primeiro capítulo de sua obra máxima, O Capital (1867, original), que a riqueza se concretiza na forma de uma coleção de mercadorias. Não à toa, uma das principais justificativas daqueles que defendem as maravilhas desse sistema é de que só nele é possível existência de variedades de mercadorias e marcas, possibilitando ampla satisfação para os consumidores. O consumo, inclusive, é uma das principais formas de socialização e aceitação social. Consequentemente, empresas conseguem imprimir sua marca como distinção social a ponto dos consumidores, praticamente, idolatrarem os bens ofertados por elas. 

Essa paixão por marcas e mercadorias, de fato, é uma distinção, historicamente, importante da sociabilidade capitalista. Cria-se uma impressão de que as mercadorias enfeitiçam as pessoas para que elas possam desejá-la e continuar fazendo a roda do capitalismo girar continuamente. É, nesse contexto, que se associa o conceito de fetichismo da mercadoria em Marx. Porém, apesar de o termo fetichismo estar associado a um desejo místico pelo consumo, em Marx, o conceito de fetichismo da mercadoria possui um sentido diferente. Para entendê-lo, é preciso considerar que o autor alemão utiliza "fetichismo" associado à feitiço. Isto é, a generalização das mercadorias exerce um efeito semelhante ao de um feitiço sobre os indivíduos, mas que está associado a forma como as relações sociais e de produção no capitalismo são moldadas pela generalização das trocas, aparentando serem naturais e misteriosas para além da compreensão humana.  

Marx inicia a discussão apontando que, quando a mercadoria possui valor de uso, ela não apresenta nenhum mistério, pois seu uso  serve a determinado fim específico. Para o autor alemão, o caráter misterioso da mercadoria emerge apenas quando ela é produzida, especificamente, para a troca (adquirindo, portanto, o caráter de mercadoria). O próprio termo mercadoria é resultado da generalização das trocas, em que o processo de trabalho é igualado entre os produtores. Isso significa que, além do aspecto mais específico do trabalho, associado à parte técnica de produzir um bem, há igualação de objetivo do trabalho humano que é produzir uma mercadoria, não para consumo próprio ou (ou para satisfazer as necessidades da comunidade), mas para ser vendida. Em síntese, o trabalho humano apresenta um duplo caráter: produzir algo específico (uma mesa, copo, cadeira que terá um valor de uso ao seu possuidor), mas cujo objetivo é negociá-la no mercado (que terá um valor de troca para ser vendida e comprada). 

A partir do momento em que há generalização das trocas, os trabalhos privados só adquirem caráter social à medida em que eles são trocados no mercado. Consequentemente, as relações sociais entre os indivíduos ocorre por intermédio das trocas mercantis. Portanto, a relações pessoais e sociais se transformaram em relações mediadas por coisas, as mercadorias. Em outras palavras, as relações sociais deixam de ser pessoais e se tornam impessoais como uma relação entre mercadorias:

O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens os caracteres sociais de seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos próprios produtos, como propriedades sociais que são naturais a essas coisas e, por isso, reflete uma social entre objetos, existentes à margem dos produtores (Karl Marx, O Capital, Ed.Boitempo, p.147)

A forma-mercadoria e seu valor, apesar de parecem naturais a qualquer sociedade, só passam a existir com a generalização das trocas no processo de constituição do sistema capitalista. Isso porque, o trabalho privado adquire uma forma social, em que essa sociabilidade entre os produtores ocorre no momento das trocas e não antes. Por isso Marx afirma que as relações entre produtores não são diretas, mas reificadas por uma relação entre mercadorias. Alguém que não produza, dentro dessa lógica, não consegue se relacionar nesse movimento de generalização das trocas, porque não tem nada a oferecer a outro. São as trocas de coisas que permitem as relações sociais na órbitas da produção e consumo capitalistas. Nota-se que, historicamente, sempre houve comércio e trocas, porém, elas não eram generalizadas e nem totalizantes. Boa parte da produção em sociedades pré-capitalistas ainda era voltada para a subsistência, com o excedente sendo negociado. Em outras sociedades mais antigas, a produção atendia à comunidade e não ao mercado. 

É no momento da troca em que é possível equiparar diferentes trabalho privados. Nesse sentido, o fato de que todos os trabalhos possuem em comum a característica de serem voltados para a produção de um bem, cuja finalidade é ser negociada no mercado faz com que as mercadorias sejam valoradas, convertendo o que antes era um trabalho privado em trabalho social. Para os produtores, o mais importante é vender e pelo preço estipulado, o que varia ao longo do tempo, pois a formação do valor e dos preços depende da própria relação entre indivíduos mediadas pelas mercadorias, isto é, pelo próprio mercado. Nesse sentido, o indivíduo-produtor só saberá se e por quanto venderá depois de levar seus bens para serem vendidos no mercado. 

As decisões do que e do quanto produzir e por quanto vender depende dessas relações sociais entre coisas, as trocas mercantis. Portanto, as decisões que são tomadas pelo produtor individual independem dele, e, sim dos resultados que emergem do mercado. A título de exemplo, um produtor que deseje produzir livros. Ele pode ter uma estimativa do preço e se terá demanda pelo seu produto. Porém, ele só conseguirá confirmar tais informações quando ele realiza processo de trocas. Se ele vender ao preço esperado, ele continuará produzindo, caso contrário, ele irá direcionar esforços produtivos em outros bens. 

Observa-se que, essa relação entre coisas (as trocas) é que passa a determinar as decisões de produção dos indivíduos. Isto é, não são mais relações diretas e pessoais que determinam o que e o quanto será produzida, mas são forças advindas das relações de troca que determinarão as condições de produção. Por isso, essas relações entre coisas parecem adquirir um caráter misterioso, pois são elas que influenciaram as decisões individuais e não determinações de cunho pessoal e direta. Em sociedades voltadas para a subsistência, o propósito produção é se dá pelas necessidades da comunidade, portanto, é algo direto e pessoal. No feudalismo, por exemplo, a ordem do quanto seria produzida vinha diretamente do senhor feudal aos camponeses. No capitalismo, essa determinação advém de uma entidade abstrata, o mercado. 

O fetichismo da mercadoria aparece, porque as mercadorias e o dinheiro velam essas relações sociais de produção, transformando-as em relações entre coisas, algo abstrato aos produtores. Por isso, fetichismo está associado à feitiço: as mercadorias (e, posteriormente, o dinheiro) aparecem como algo sobrenatural, configurando um processo que determinará aos indivíduos o que eles devem produzir e o quanto. O fetichismo da mercadoria faz com que o processo produtivo subordine o homem a um lógica com a qual ele não possuem controle. A produção, portanto, no sistema capitalista, adquire um caráter "anárquico", pois depende de relações sociais mediadas por mercadorias, concretizadas no chamado mercado, e não por relações pessoais diretas. Não à toa, vislumbram-se certas instabilidades, como movimentos bruscos nas quantidades produzidas e nos preços, haja visto que das forças impessoais do mercado. 

Essa lógica do fetichismo se aplica às relações capital e trabalho. A força-de-trabalho é internalizada como uma mercadoria qualquer a ser negociada, no caso, no mercado de trabalho, intermediada por contratos e pelo pagamento monetário do salário. Nesse sentido, o trabalhador não sabe se conseguirá encontrar emprego e salário a menos que ele adentre nesse mercado de trabalho. Consequentemente, a possibilidade ser empregado e pelo salário que lhe interessa dependerá de forças que independem dele e, sim, por exemplo, da disposição dos capitalistas em contratar mais trabalhadores. O mesmo vale para o capitalista, que só contratará mais trabalhadores se ele conseguir vender, de modo lucrativo, suas mercadorias no mercado. Todas essas relações pessoais (inclusive, "patrão-empregado") são mediadas por coisas (contratos e pagamentos monetários), gerando um movimento que é abstrato e independente das vontades individuais. 

A reificação das relações sociais impõe aos indivíduos comportamentos moldados pela lógica das mercadorias que possuem, transcendendo suas perspectivas individuais. Em outras palavras, a posse do capital compele o indivíduo a agir como capitalista, tomando decisões alinhadas a essa função social. Da mesma forma, aquele que detém a força de trabalho é pressionado a comportar-se como trabalhador. Assim, independentemente de sua concordância pessoal, os possuidores de mercadorias tendem a reproduzir os papéis esperados, sob pena de perderem sua sustentação social. Um capitalista que negligencie a incessante busca por lucro, por exemplo, arrisca a falência e a própria condição de capitalista. Um trabalhador que se recuse a vender sua força de trabalho, por sua vez, pode ser marginalizado socialmente.

Longe de ser um mero "culto às mercadorias", o fetichismo em Marx revela um processo em que as relações sociais de produção são mediadas por coisas. Sob o capitalismo, a dinâmica da produção se constitui pela força impessoal do mercado, minando a autonomia dos indivíduos nesse processo. Mercadorias e dinheiro, portanto, aparentam naturalidade e mistério, moldando o comportamento dos indivíduos à lógica dessas relações reificadas. A plena constituição do capitalismo se dá com a expansão e generalização desse fetichismo da mercadoria. Nesse sentido, a superação do capitalismo, para Marx, implica a abolição dessas relações reificadas, restaurando interações sociais diretas e orientando a produção para as necessidades coletivas, em contraposição à impessoalidade do mercado.


Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado Pt.2: Economia Escravista de Agricultura Tropical Séculos XVI e XVII

Na Parte I de Formação Econômica do Brasil, Celso Furtado foca na ocupação territorial e no declinio da economia colonial portuguesa a parte...